“Mudar de Vida, José Mário Branco, Vida e Obra” é um documentário sobre José Mário Branco, que faria hoje (25 de maio) 78 anos, muito mais vivo que morto, sempre nos nossos ouvidos, nas nossas vozes e nos nossos corações.

Este filme é provavelmente o melhor testamento filmado de quem foi o homem da música, do teatro, da politica, da luta e de tanto mais. Seguindo os passos de Zeca Afonso, que refere várias vezes como mestre, faz do movimento de protesto um dos marcos mais importantes na arte e cultura do século XX, quer pela sua ação, quer pelo seu efeito. A rodagem começou em abril de 2005, quando o músico-compositor foi ao Teatro Municipal da Guarda apresentar o seu último disco: “Resistir é Vencer”. Durante vários anos, foram filmando, em Portugal e em França, ensaios, concertos, gravações de discos e conversas que serviram de ponto de partida para retratar o artista. José Mário Branco conta-nos os problemas do “ser português”, da emigração, da pobreza, da exclusão, da “crise”, essa mesma “crise” que ouvimos falar desde que nascemos e que trespassa gerações em Portugal. O filme está dividido em duas partes: a primeira, mais biográfica, contextualiza a situação política de Portugal antes e depois do 25 de abril de 1974, destacando o ativismo político que obrigou o artista ao exílio; a segunda, mostra a importância dos seus ideais revolucionários na sua expressão artística.

De Camões a Natália Correia, de Fernando Lopes Graça às marchas populares, José Mário Branco reinventa a música portuguesa e abre espaço para novas vias. Homem de ideais que acredita que esses mesmos ideais pouco se assemelham ao estado real das coisas e nunca se deixou vencer. Preso pela P.I.D.E e, mais tarde, no exílio em Paris, é onde foi profundamente marcado pelo maio de 68 e pela comunidade emigrante portuguesa. Regressa a Portugal imediatamente depois do 25 de abril de 1974, onde vive intensamente o P.R.E.C., a luta pela mudança.

Escrevo este texto no presente, meio ano passado sobre a sua morte. Escrevo ainda com esse momento muito marcado no trautear e assobiar das suas melodias, no acelerar do coração e nas lágrimas, mal imaginando à altura as voltas que as nossas vidas iam dar. Só pode haver presente e futuro quando escrevemos de pessoas assim. Que do passado só vença a importância da memória, que as suas palavras sirvam para nos continuarmos a juntar, sem medo, na resistência e na luta. Que o abril nos seja mais próximo todos os dias.

“A minha arte é estar aqui convosco
e ser-vos alimento e companhia
na viagem para estar aqui
de vez.”

Excerto minúsculo do FMI, editado originalmente em 1982 e reeditado em 1996 em “Ser Solidário” (EMI-Valentim de Carvalho).

PARABÉNS ZÉ MÁRIO!