Festival Internacional de Cinema de Estocolmo 2015_3

A duas semanas e meia de começar a 26ª edição do Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, o Cinema 7ª Arte entrevistou a directora do festival, Git Scheynius, para compreender melhor o seu programa (que pode ser consultado aqui) e o tema desta edição, a Migração. Ai Weiwei, Jonas Carpignano, Todd Haynes, Ai Weiwei, Ellen Burstyn, Yorgos Lanthimos e Stephen Fears, são algumas das presenças confirmadas em Estocolmo. A 26ª edição, que conta com mais de 190 filmes provenientes de 70 países, decorrerá de 11 a 22 de novembro, em Estocolmo, na Suécia.

Desde 1990 que na segunda quinzena de novembro, na capital sueca, é realizado um festival de cinema que tem ganho bastante respeito internacional. Desde a sua criação, o Cavalo de Bronze (prémio dado ao melhor filme do certame) foi entregue a filmes como “Reservoir Dogs”, “Dogtooth”, “Irréversible” e, na sua edição de 2014, a “Girlhood”.

O Cinema 7ª Arte agradece o Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, em particular a Git Scheynius, por ter cedido fazer esta entrevista.

Cinema 7ª Arte: A 26ª edição do Festival Internacional de Cinema de Estocolmo tem como tópico de realce a Migração. Isto bem da actual situação quase fora de controlo com dos refugiados sírios que estão a entrar na Europa. Ainda vê o Cinema como uma ferramenta vital para compreender o mundo como é e como uma ferramenta de expressão ou existe alguma ameaça ao Cinema pela Media saturada de informação fluente e constante durante 24h por dia, como por exemplo nos canais noticiários?

Git Scheynius: O Cinema é mais importante que nunca. Precisamos das noticias para nos informar, dos Documentários para compreender mais profundamente o que está realmente a acontecer, mas os filmes continuam a inspirar-nos a fazer alguma coisa. Como uma das nossas maiores preocupações, a Migração, é um fenómeno multi-facetado ligado a uma série de experiências diversas, algo que está reflectido na nossa secção Spotlight este ano. O Cinema é em si uma viagem, e como tal, é talvez a melhor forma para contar as histórias sobre migração.

C7A: Uma das novidades desta edição do Festival é a secção para Documentários e acredito que haja uma ligação aqui com a escolha do tópico da Migração. Porquê criar uma secção Documental agora? Estão a criar uma forma de fazer as pessoas discutir as situações políticas e sociais em que nos encontramos, visto ser o Documentário geralmente a forma mais “verdadeira” para exprimir as diferentes verdades e vozes do mundo?

GS: Os documentários foram sempre uma parte importante do Festival Internacional de Cinema de Estocolmo. Este ano estamos a tentar fortalecer esse lado ao criar-mos um lado competitivo para os documentários, onde os vencedores serão premiados com o prestigiado Cavalo de Bronze, 7,3Kg de Bronze puro, o mesmo prémio que os filmes de Ficção têm recebido ao longo dos 25 anos de Festival. Isto é um sinal de que o Documentário enquanto forma produziu mais trabalhos de qualidade e ganhou mais popularidade entre os cinéfilos e o público em geral. O timing com a secção Spotlight da Migração irá certamente adicionar uma dimensão extra e encorajar conversas sobre esses tais assuntos políticos e sociais referidos.

C7A: Mesmo os filmes seleccionados para as cerimónias de abertura e fecho do festival centram-se em mensagens políticas e sociais fortes em discussão actualmente, à parte claro das excelente criticas que têm recebido em outros festivais por onde têm passado. Foi esta a motivação principal da escolha de “Mediterranea” e “Carol” como os filmes de abertura e fecho, respectivamente? O que é que nos pode dizer acerca do processo de escolha destes dois filmes em particular?

GS: A decisão de abrir o festival com o filme em competição “Mediterranea” foi uma escolha natural. O realizador Jonas Carpignano esteve em Estocolmo em 2014 com uma curta-metragem e falou então nos seus planos para a sua primeira longa-metragem. Ficamos então a observar o seu projecto e estamos agora muito satisfeitos em apresentar “mediterranea” como o nosso filme de abertura, bem temporizado com a atual situação Europeia e a Migração. À parte disso, Estocolmo tem sempre encorajado novos cineastas, novas vozes. Um terço do nosso programa consiste em cineastas estreantes e não é a primeira vez que abrimos com o trabalho de novos talentos. Outro exemplo pode ser o da nossa edição de 1992 quando abrimos o festival com um filme do então desconhecido Quentin Tarantino e o seu brilhante “Reservoir Dogs”, que mais tarde até acabou por ganhar o Cavalo de Bronze, o seu primeiro prémio enquanto cineasta. Outro exemplo ainda é o realizador canadiano Xavier Dolan que tinha apenas 21 anos quanto abriu o 21ª Festival Internacional de Cinema de Estocolmo com o seu fantástico “Heartbreak”. Estocolmo também se tem focado nas discussões acerca da identificação sexual e como tal,  o “Carol” de Todd Haynes é uma perfeita forma de encerrar o certame.

C7A: À parte destes dois, existe mais algum filme, dentro ou fora de competição que considere que poderá ser uma boa surpresa para a audiência? Algum favorito?

GS: Há vários filmes excelentes no programa deste ano. Uma das descobertas da Competição Oficial é “Mustang”, um fantástico primeiro-filme que deverá encaixar bem com a nossa audiência. Outro exemplo muito bom de um primeiro-filme é, claro, “Son of Saul”. Muito poderoso e muito cinematográfico. Outros pontos altos do programa são documentários como “The Wofpack”, “Carter Land”, “The Amina Profile” e “Palio”. Entre as escolhas fortes entre os filmes latinos temos “The Chosen Ones”, “Neo Bull”, “Clever”, “The Club” e “Walking Distance”.

C7A: Agora sobre o Ai Weiwei. Ele é um dos jurados do Stockholm Film Award. Ele é também considerado como um dos mais influentes artistas contemporâneos e não é a primeira vez que ele colabora com o vosso festival. Qual é a importância de ter um artista como o Ai Weiwei num festival de Cinema?

GS: Estamos tão contentes por finalmente podermos dar as boas-vindas ao Ai Weiwei à Suécia, especialmente agora que lançamos o Stockholm Impact Award que é um prémio muito focado na liberdade de expressão. Cinema e Arte são duas coisas proximamente ligadas uma á outra e nós estamos felicíssimos por poder continuar esta relação com o Ai Weiwei, que irá também ser responsável pela criação do Stockholm Impact Award

C7A: A Ellen Burstyn e o Stephen Frears irão receber este ano o Stockholm Achievement Award e o Lifetime Achievement Award, respectivamente. Concordando de imediato que se tratam de duas premiações merecidas, o que vos fez pensar inicialmente nestes dois nomes? Num mundo recheado de gente talentosa, inteligente e dedicada ao seu trabalho, como é que vocês se decidem em duas pessoas para a atribuição destes prémios?

GS: É sempre um desafio porque há um grande número de pessoas talentosas e criativas no mundo do Cinema. Ao longo dos anos, o festival de Estocolmo tem premiado talento como Wong Kar Wai, Claire Denis, Peter Greenway e David Lynch e estamos agora contentes por poder contar com Ellen Burstyn e Stephen Frears entre esses nomes. Burstyn, pelas suas soberbas actuações em filmes como “Alice Doesn’t Live Here Anymore” ou, mais recentemente, “Requiem for a Dream”. Ela tem agora 82 anos de idade e está envolvida em sete(!) projectos diferentes. Ela irá também realizar o seu primeiro filme este ano. Quando ela recebeu o manuscrito para “Alice…” ela foi também abordada para realizar o filme, mas recusou realizar e em vez disso encontrou um jovem Martin Scorcese para o fazer na sua vez. O trabalho do Frears com atores é impressionante. Dirigiu não menos do que seis atrizes nos papeis que lhes deram nomeações para os Óscares, incluindo Hellen Mirren em “The Queen”. Isto diz algo da forma como ele trabalha como realizador. Estamos também à procura de atribuir o Stockholm Visionary Award 2015 a Yorgos Lanthimos pelo seu fenomenal trabalho que inclui o seu mais recente filme, “The Lobster”.

C7A: Para finalizar: uma questão sobre o Cinema sueco. Quando a grande maioria do público português pensa em Cinema sueco, ele pensa imediatamente em Ingmar Begman. Não há muito conhecimento das obras de realizadores como Lukas Moodysson, Ruben Ostlund ou qualquer outro realizador com trabalho digno de ser visto; com isto em mente, tem alguma recomendação que queira fazer ao público português?

GS: Há uma nova geração de cineastas suecos. para além de Ruben Ostlund, outros realizadores merecedores de atenção são Lisa Aschan com o seu novo filme “The White People”, Magnus Von Horn com “Aftermath” e Sanna Lenken com “My Little Sister”. Temos também, no que toca á herança sueca de Cinema, “Jag Ar Ingrid”, que teve a sua aclamada estreia mundial em Cannes e é algo digno de recomendar.

Nota: Artigo escrito em colaboração com Eduardo Magueta.