Desde o dia em que vi o primeiro trailer deste filme português, fiquei conquistado e hipnotizado com a beleza das imagens. Era portanto um dos filmes que mais aguardava ver este ano e a sua qualidade confirmou-se bastante boa. Vicente Alves do Ó assina argumento e a sua segunda realização, depois de se ter estreado (nas longas-metragens) com “Quinze Pontos na Alma”, que recebeu boas críticas. Acho que está mais do que provado que Alves do Ó é um realizador que veio para ficar, e ainda bem. Esta sua segunda obra é bastante arriscada e podia ter caído no uso de clichés e maneirismos. Um filme sobre uma das grandes poetisas portuguesas, Florbela Espanca, é um grande desafio.

A história passa-se durante o período de crise literária, em que Florbela (Dalila Carmo) deixou de conseguir expressar-se através da escrita, por altura da morte de Apeles (Ivo Canelas), o seu adorado irmão, oficial a Aviação Naval, que morreu num desastre de avião

O filme tem uma grande virtude, que é não ter-se focado na vida completa de Florbela, ou seja, desde a sua infância atá à morte, mas sim em centra-se no período pós-áureo da sua carreira, ou seja, num momento da sua vida em que Florbela já é reconhecida como uma grande poetisa nacional e como uma mulher à frente do seu tempo, mas deixa de escrever, tentando levar uma vida normal, para ser feliz. É durante este tempo que Florbela perde o seu irmão e com este trágico acontecimento ela volta a escrever alguns dos seus melhores poemas e três anos mais tarde morre de desgosto, suicidando-se. Este período é crucial na sua vida e Alves do Ó foi inteligente em o ter escolhido. Pois permite-nos ao mesmo tempo conhecer o passado de Florbela, conhecer melhor algumas personagens, como os pais. Percebemos também todas aquelas histórias que se foram contando ao londo dos anos, sobre a sua complexa vida sexual, tumultuosa, inquieta e sobre a sua possivel insanidade mental. Mas ela era mesmo assim e foi assim que conseguiu escrever alguns dos mais belos poemas portugueses, ou seja, quando era mais infeliz, pois quando tentava ser feliz não conseguia escrever. Tudo isto a afetou bastante, tal como à sua família e amigos próximos.

Há três aspetos negativos que, na minha opinião, prejudicaram bastante o filme. O primeiro é o argumento, que apesar de bem escrito, podia ser muito melhor, se não fossem alguns diálogos que muitas vezes pareciam secos e patéticos. Uma escritora como Florbela acho que merecia melhores diálogos, como respeito a ela e à sua obra. O segundo é o som, este foi para mim o trabalho técnico que menos gostei, na medida em que não houve cuidado com os volumes, há momentos em que temos sons ambientes, sons de fundo e o som dos diálogos todos ao mesmo nível, tornando tudo muito confuso e barulhento. A certa altura não sei a que devo prestar mais atenção se aos diálogos ou se aos sons ambientes. O mesmo acontece com a banda sonora, em que certos momentos está com os volumes demasiado altos. O terceiro aspeto negativo é este mesmo, a banda sonora, que apesar de ser boa e indicada para o filme, acho que o seu uso excessivo foi um grande mal. A música era boa, mas ficou estragada devido ao seu extremo abuso. Em cada cena havia música, ora não é esse o seu papel, a banda sonora deve ser usada com cuidado, pois ela tem o seu papel no filme. Há que respeitar os momentos de silêncio que muitas vezes são mais emotivos que a música.

Quanto à realização acho que Vicente Alves do Ó desempenhou o seu papel muito bem. Criou magníficos planos de sequência, filmou quase sempre de câmara à mão o que torna o filme mais inquieto e tumultuoso, tal como Florbela e isso é fundamental. Quanto à fotografia está soberba, percebe-se que houve especial cuidado com a imagem do filme, pois esse é sem qualquer dúvida uma marca do filme. Efeitos especiais, guarda-roupa e cenários merecem igualmente destaque pelo bom trabalho.

O elenco é pequeno mas nobre. Ivo Canelas e Albano Jerónimo continuam a mostrar as suas excelentes capacidades de interpretação. Dalila Carmo é Florbela, até parece que ela nasceu para este papel, pois serve-lhe que nem uma luva. Sempre a considerei uma excelente atriz, agora confirma-se que é uma das melhores do nosso país. Ainda tão nova, poderá continuar a brilhar noutros filmes futuros. Interpretação soberba, é a estrela deste filme e a grande alma.

“Florbela”, produzido pela Ukbar Filmes, tem estreia marcada para dia 8 de março (dia da mulher) e terá ainda direito a uma série que será transmitida na RTP1.

Não acho que seja uma obra prima do cinema português, mas anda lá perto. Se não tivessem sido cometidos os erros a cima referidos, o filme podia ser uma grande obra do cinema português. De qualquer forma é um filme a ver e a rever e é um filme exemplar, na medida em que filmes destes são muito difíceis de conseguir. Devem-se fazer mais apostas deste género, até porque Portugal é país rico em história, escritores e poetas. “Florbela” é um bom filme que deve ser visto por todos os portugueses, para que abandonem para sempre os preconceitos de que é acusado.

Realização: Vicente Alves do Ó

Argumento: Vicente Alves do Ó

Elenco: Dalila Carmo, Ivo Canelas, Albano Jerónimo

Portugal/2012 – Drama

Sinopse: Num Portugal atordoado pelo fim da I República, Florbela separa-se de forma violenta de António. Apaixonada por Mário Lage, refugia-se num novo casamento para encontrar estabilidade e escrever, mas a vida de esposa na província não é conciliável com sua alma inquieta. Não consegue escrever nem amar. Ao receber uma carta do irmão Apeles, oficial da Aviação Naval e de licença em Lisboa, Florbela corre em busca de inspiração perto da elite literária que fervilha na capital. Na cumplicidade do irmão aviador, Florbela procura um sopro em cada esquina: amantes, revoltas populares, festas de foxtrot e o Tejo que em breve verá o irmão partir num hidroavião. O marido tenta resgatá-la para a normalidade, mas como dar norte a quem tem sede de infinito? Entre a realidade e o sonho, os poemas surgem quando o tempo pára. Nesse imaginário febril de Florbela, neva dentro de casa, esvoaçam folhas na sala, panteras ganham vida e apenas os seus poemas a mantém sã. Por isso, Florbela tem que escrever! Este filme é o retrato íntimo de Florbela Espanca: não de toda a sua vida cheia de sofrimento, mas de um momento no tempo, em busca de inspiração, uma mulher que viveu de forma intensa e não conseguiu amar docemente.

«Florbela» - Alves do Ó veio para ficar. E ainda bem!
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