Haverá Sangue – Os Solos Viscosos

There will be Blood (2017, PTA)

Os solos. Não férteis, inóspitos e desolados. Ocres. Porosos. Sem nada sobre eles a não ser o peso do seu afastamento de tudo quanto possa parecer vivo, perene e alimentador. São areia e poeira. Nada sobre nada. A fronteira desse mesmo nada. O limite de onde nada há e de onde tudo pode vir a ser. A forma desse vir a ser é viscosa, líquida e negra. É um solo de óleo e um mal da alma. É valor e é condeno. É bem material e mal espiritual. É fazedor e destruidor. É a riqueza e a fortuna e os seus fantasmas: a solidão e a perda.

São dois os estados, duplos e contraditórios, sempre latentes e viscosos – como o óleo que corre por baixo da terra tórrida e vazia – que hão-de fazer um novo século e novos nomes, novas fortunas e velhas desfortunas, pois onde há procura de riqueza, há sempre esse mal dos homens: o tudo querer, o ainda mais almejar e o não olhar a meios para o obter. Não parece haver muito lugar a outra coisa que não o negrume do pessimismo neste filme de Paul Thomas Anderson. Desprovido de saturação, o espaço é deserto ou planície, é agreste porque é difícil de nele se estar, parece estéril porque assim o é, comprido e vazio, só aqui e ali pontuado por quem tem fés bem diferentes: a fé dos gananciosos e a fé dos puritanos. A daqueles que só avançam pela vontade de tudo possuir e a daqueles que só esperam que a eles algo de maior venha. O poder e a quebra. O assalto e a mansidão. O cálculo e o grito. Na confluência impossível e no choque inevitável dessas duas fés, fez-se um país, um colosso, tão portentoso quanto falível nas suas contradições insanáveis: não há riqueza de um sem a pobreza do outro, não há ascensão de um sem a queda do outro. Não há alma pura que um dia não se corrompa. Não há mão justa que um dia não faça o mal sobre quem não o devia exercer. Também não há alma negra que não ainda mais se enegreça. Não há terra limpa sobre a qual ela não faça ainda mais o negrume irromper.

São quatro os temas que Paul Thomas Anderson explora neste “Haverá Sangue”: ambição, ganância, engano, ilusão. Abaixo dessas terras desérticas e desnutridas, é outra a substância que pode jorrar: o petróleo que há-de criar o capitalismo moderno, as formas da riqueza moderna, os novos titãs, as novas indústrias. Esse óleo não se pode respirar, não pode cobrir a pele, é tóxico. Tão tóxico quanto a ambição e ganância que o procuram e extraem e tão enganador e fazedor de ilusões como aqueles que o buscam e retiram. Paul Thomas Anderson faz incumbir a toxicidade a duas personagens que tanto lutam entre si: Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) e Eli Sunday (Paul Dano), eles que são exemplos – negros e viscosos, mas por tal cristalinos e líquidos nesse negrume que os faz – de um mesmo mal absoluto: o do querer também absoluto, aquele que é corruptor e desmantelador, fazedor de orgulhos e invejas obtusas, de golpes e contragolpes, ataques e humilhações. Daniel pretende a riqueza material, busca prata como busca petróleo e engana os proprietários de terras onde acha haver reservas petrolíferas por valores irrisórios (dado o seu retorno futuro). Eli pretende ser um líder, um condutor de vontades, uma figura e o cruzado de um puritanismo irredutível, invectiva o demónio, grita e esbraceja até ao limite do seu fôlego. Daniel cria a corporação, Eli a congregação. Ambos são enganadores, organizadores de ilusões: a da aspiração monetária e a da glória espiritual. Daniel engana com a promessa de dinheiro a dar, quando é ele que o vai tomar. Eli engana com a salvação, quando é ele que espera um dia lucrar. A ilusão de Daniel é a de que poderia ser um pai para o seu filho adoptivo H. W. Plainview (Dillon Freasier), quando nunca o poderia ser totalmente: mesmo quando o vai buscar à plataforma que já arde e o traz até à messe, no seu caminhar sôfrego, seguido pelo plano-sequência fluido de Anderson e no qual a câmara atravessa todo o espaço de locomoção e assim o recobre na pulsação da distância tida, ocorrida e preenchida. Mas mesmo esse espaço-tempodistância de urgente paternidade é quebrado pela necessidade de se ir saber do petróleo que jorra e arde. O deixar do filho é o chegar junto do valor e do bem comercial, do dinheiro a ganhar. O filho fica para trás, para que outros tomem conta dele. A ilusão de Eli é a da assunção de uma auto-grandeza que não está realmente lá, não é ele o puritano e o puro que se faz parecer, ele é falha e é também ganância, é a negação da sua própria pregação. De nada lhe valem as bofetadas e a humilhação que faz cair sobre Daniel, obrigando-o a gritar bem alto que abandonou o filho. Claro é que Daniel assim grita, tanto como Eli, investido de fervor – mas só aparentemente renegando a sua própria anti-fé espiritual e religiosa , também e somente por engano e ilusão invertida – já que pretende obter a autorização da congregação para mais extrair petróleo das suas terras.

O encontro final entre os dois é um de absolutos corrompidos: Daniel é o milionário que pretendeu ser, estranhando e afastado de um H. W. adulto (Russell Harvard) – a quem disse finalmente a verdade da sua adopção e a quem grita que foi alguém que lhe chegou numa cesta – só e alcoólico. Eli é um evangelista da rádio, educador de almas, mas ele próprio repleto de vícios e dívidas. Quando tenta obter mais dinheiro de Daniel, este devolve-lhe a humilhação: já extraiu todo o petróleo das terras com que Eli pretendia lucrar. Mal contra mal, alma corrompida contra alma corrompida. Daniel mata Eli. O sangue que jorra da sua cabeça é também um solo viscoso, tão negro como o petróleo, não há diferença entre os dois líquidos. As suas toxicidades são as mesmas. Mais nada a dizer tem Daniel do que o bem terminal: “…estou acabado…”. Mas o que ficou feito foi a insalubre e triste corrupção dos ambiciosos. Num filme pessimista – e para lá do Capitalismo que assim se fez – é sobre o imenso mal dos Homens que Paul Thomas Anderson nos avisa.

 

 

© 2022 Luís Miguel Martins Miranda

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