Martin Scorsese é um nome que faz parte da linguagem cinematográfica, faz parte da história, faz parte da cultura mundial. São já quase trinta longas-metragens, entre ficção do documentário, só lhe falta a animação. Em grande parte da sua extensa obra o realizador explorou, melhor do que ninguém, a identidade italo-americana, em ambientes de violência e de crime. Os seus filmes não são propriamente filmes para crianças, devido à extrema violência visual que é usada, por exemplo, em “Gangs de Nova Iorque” (2002). Scorsese tem afirmado, em muitas das suas entrevistas recentes sobre o seu mais recente filme “Hugo”, que fez este filme para que a sua filha mais nova pudesse ver. E assim foi, “Hugo”, adaptado do best-seller “A Invenção de Hugo Cabret”, de Brian Selznick, que se inspira na verdadeira história do cineasta Georges Méliès, é um filme mágico e familiar que pode e deve ser visto por todos.

A história passa-se em Paris, nos anos 30, onde um órfão, Hugo, vive por entre as paredes da estação de comboios, cuidando dos relógios da estação. Sobrevive assim Hugo, que se tenta manter no anonimato, guardando para si alguns segredos. Um dia conhece uma rapariga, Isabelle, que adora mistérios e aventuras, que vive com o seu velho tio, dono de uma loja de brinquedos. É então que Hugo vai, juntamente com Isabelle, desvendar o maior segredo de todos, acabando por viver a aventura da sua vida.

É curioso que no mesmo ano tenham estreado duas obras sobre o cinema, que o homenageiam. Mas enquanto “O Artista” se passava e homenageava a transição do mudo para o sonoro, “Hugo” vai às origens do cinemas, às suas raízes mais profundas. O cinema nasce com os irmãos Lumiére em 1895, mas é com Georges Méliès que começa a nascer aquilo a que hoje chamamos de cinema, uma arte de contar histórias. Méliès, um famoso ilusionista francês, viu na invenção dos Lumiére, o Cinematógrafo, uma oportunidade para poder praticar e melhorar os seus truques de magia, contando histórias, muitas vezes de fantasia. Méliès cria efeitos mágicos que maravilharam o público da altura e mesmo hoje continuam a maravilhar, como o famoso foguetão que vai contra o olho da lua, em “A Viagem à Lua” (1902). Realizou dezenas de filmes, sendo que grande parte deles se foi perdendo com o tempo. E assim estamos a ter uma lição de cinema e de história, mas “Hugo” é também uma Lição de vida. Uma lição de vida, pois todos temos um propósito na vida, todos existimos por alguma razão e todos precisamos de alguém, que em conjunto façam parte de nós. Tal como Hugo precisava desesperadamente do autómato, pois já não tinha mais ninguém, daí andar numa procura incessante em arranjar a máquina mistério que o pai lhe deixou.

O trailer do filme apresenta-o como um filme cheio de efeitos especiais e como um filme comercial, sendo completamente enganador. O trailer não tem nada haver com o filme. O filme é bastante mais calmo, dando tempo para que as coisas aconteçam quando for necessário. Na primeira parte do filme até nem existem muitos diálogos, transformando algumas cenas em cenas de filmes mudos, onde os olhares e expressões são essenciais.

Scorsese torna a realizar brilhantemente e desta vez usando, melhor do que ninguém, a tecnologia do 3D, que sinceramente, é o melhor filme em 3D que já vi. Este é daqueles filmes que tem de ser visto em 3D, pois caso contrário irá perder toda a experiência visual do filme. A nível gráfico, efeitos especiais e direção artística está perfeito, com uma fotografia viva e brilhante. Não nos podemos esquecer da bela banda sonora que Howard Shore compôs, criando um sorriso na cara ao viver aquelas história em Paris.

O elenco secundário é magnifico, mas mais ainda é o jovem protagonista, Asa Butterfield, o ator de “O Rapaz do Pijama às Riscas” (2008), que já deu mostrou os seus incríveis dotes de interpretação nesse filme e torna a confirma-los em “Hugo”. Grande parte do talento deste filme provem deste jovem ator.

Este é portanto um filme que não veio provar nada de novo sobre Scorsese, apenas que ele é um dos maiores cineastas vivo da atualidade, que consegue fazer outro tipo de trabalho, tornando o seu espólio de filmes, digamos, mais completo.

Um filme que irá facilmente mexer com as suas emoções, rir, chorar e sonhar. É uma experiência que não deve perder. Vale a pena ver por tudo isto e repito, é uma lição de história de cinema. Certamente irá ser usado no futuro, como objeto de estudo, nas escolas de cinema. É um filme que merece todos os Óscares para que está nomeado (onze no total) e certamente que irá levar bastantes, mas “O Artista” é um peso pesado que também merece. Será uma luta renhida de dois pesos que merecem ganhar tudo e mais alguma coisa. “Hugo” é diferente, é mágico é magnifico. Um dos melhores filmes do ano!

Realização: Martin Scorsese

Argumento: John Logan

Elenco: Asa Butterfield, Ben Kingsley, Chloe Moretz, Christopher Lee, Jude Law, Sacha Baron Cohen

EUA/2011 – Açao/Aventura

Sinopse: A história de um órfão que vive em segredo nas paredes de uma estação de comboios de Paris. Com a ajuda de uma rapariga excêntrica, ele procura a resposta para uma misteriosa ligação entre o pai que perdeu recentemente, o mal-humorado dono da loja de brinquedos que vive por baixo dele e uma fechadura em forma de coração, aparentemente, sem chave.

«Hugo» - Uma lição de história
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