“Metal e Melancolia” (1994) é o primeiro documentário, de longa-metragem, realizado por Heddy Honigmann. A cineasta volta à sua terra natal com uma câmara de filmar, depois de numa visita a Lima ter visto as manifestações mais extremas da crise económica que assolava o Peru. Numa entrevista, afirma que a ideia de filmar “Metal e Melancolia” começou ao ver uma criança, na rua, a vender um rolo de papel higiénico. Foi o apelo destas realidades gritantes que levou a cineasta a querer captar as vozes e vidas que por ali vão lutando, de todas as formas possíveis, pela sua subsistência, numa terra que parece ter sido abandonada em algum momento da sua história.

É com um plano do autocolante com a inscrição “Taxi” que a cineasta dá início ao fluxo de imagens que dão vida ao seu documentário. Estes autocolantes são vendidos nas ruas, e com eles, qualquer habitante de Lima pode transformar-se num taxista. Heddy entrevista uma série de taxistas que vão relatando a luta diária das suas vidas. A certa altura, um ator peruano diz: “Um poeta espanhol disse que o Peru é feito de Metal e Melancolia. Metal, porque o sofrimento e a pobreza endurecem como o Metal; Melancolia, porque nós também somos meigos e temos a nostalgia do passado”. Esta afirmação, que dá o nome ao documentário, reflecte o cenário pós apocalíptico em que os habitantes de Lima são forçados a sobreviver: só um ser feito do mesmo ferro daqueles carros, já com várias décadas, pode ter a resistência para aguentar tal forma de vida, onde a alegria possível é acompanhada por lágrimas, gesto que traduz uma confusão de afectos: a constatação de ainda estar vivo, as reminiscências das memórias boas e a luz interior que vive na esperança de um renascimento político que revitalize aquele solo politicamente devastado e esgotado.

É o âmago da vida que a cineasta filma naqueles corpos. É a singularidade das diferentes formas de sentir que expressam os sentimentos mais universais: o amor impossível, cuja última memória ficou no aeroporto e resta apenas a música que faz verter as lágrimas de uma saudade intensa; são as lágrimas dos amores que falharam em algum momento, os valores religiosos que se introduzem na mente de um pai que injustamente julga a sua filha por ser mãe solteira, esquecendo que é ela quem assume, heroicamente, a educação do seu filho, a sua subsistência; são as lágrimas de um pai que luta incansavelmente para pagar os serviços de saúde e os medicamentos para tratar a sua filha que tem leucemia. Porém, nem tudo é tristeza, existe ainda a vontade de dançar e de cantar…

Confesso que este documentário de Heddy Honigmann me arrebatou por completo. Se tivesse que apontar o melhor uso já alguma vez dado a uma máquina de filmar, talvez apontasse para este filme. É uma autêntica biópsia social, onde as mazelas se tornam evidentes, onde a retórica vazia dos benefícios do empreendedorismo se suspende para mostrar com toda a crueza o que é, na verdade, a iniciativa privada – a venda de um rolo de papel higiénico? – a vida mercantil que nasce das condições miseráveis em que um povo foi forçado a viver. A ternura que emana dos diálogos, o carinho que ainda preservam no meio de tal realidade… Num desfile de imagens cheias de gente que sente, num estilo suave, de absoluta simplicidade, vemos, em esplendor, toda a potência do cinema.

Realização: Heddy Honigmann
Argumento: Peter Delpeut, Heddy Honigmann
Elenco: Jorge Rodríguez Paz
Holanda/ 1994 – Documentário/Drama
Sinopse:  No início dos anos 90, em resposta à inflação e a um governo desestabilizado pela corrupção, muitos profissionais da classe média do Peru usavam os seus carros particulares para fazer biscates como taxistas. Metal e Melancolia dáconta de como estes taxistas ocasionais, um professor, um empregado do Ministério da Justiça, um ator de cinema, um polícia, conseguem circular nas congestionadas e esburacadas ruas de Lima em carros decrépitos cujas técnicas de sobrevivência são tão fascinantes como as dos seus proprietários.

«Metal e Melancolia» - Uma câmara nas entranhas do real
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