O cinema de inquietação de Alain Guiraudie se esmoreceu com Nobody’s Hero

O realizador francês que virou uma coqueluche do cinema arthouse europeu com O Desconhecido do Lago  retorna com uma comédia confusa sobre como terrorismo pode afetar indivíduos dentro de uma pequena comunidade

E falando em maus filmes de abertura, a seção paralela Panorama, que este ano está repleta de filmes violentos e polémicos, deu-se início com o último filme do francês Alain Guiraudie, o muito aguardado Viens Je T’emmène ou Nobody’s Hero, como é chamado em inglês. Apesar de uma filmografia um tanto extensa, foi só com O Desconhecido do Lago (2013) que o realizador virou uma sensação no circuito arthouse, tendo vencido o prémio de realização do Un Certain Regard em Cannes e recebido a Queer Palm de melhor filme de temática lgbt daquele ano. 

O filme conta a história de Mederic (Jean-Charles Clichet), um solitário rapaz que se apaixona por uma prostituta cinquentona, Isadora (Noémie Lvovsky). Para piorar as coisas, Isadora não só é casada mas o marido é ciumento e começa a demonstrar um lado violento quando se apercebe que a paixão de Mederic é correspondida pela esposa. Isso tudo se passa durante o Natal, em Clermont-Ferrand, enquanto um ato de terrorismo acaba de acontecer e transforma a cidade num verdadeiro caos. Como se tudo isso não bastasse, Guirardie introduz um rapaz marroquino, Selim (Ilies Kadri) que aparece com capuz à cabeça e de modos suspeitos à porta de Mederic a pedir um sítio para dormir, justamente minutos após a explosão das bombas. Personagem que o realizador utiliza de forma um pouco leviana para tecer um comentário sobre a percepção e o medo do outro, e uma análise política atrapalhada sobre os dias atuais em França, observando como o impacto de ações terroristas pode afetar indivíduos dentro de uma comunidade.


Mas a salada russa de Guirardie é tão confusa e absurda que arrancou risos nervosos da plateia na sessão para a imprensa. Aliás, corria um boato pelos corredores do festival de que o filme havia sido rejeitado em Cannes e Veneza e por isso, acabou por aterrar em Berlim. Não causa espanto, visto que Berlim sempre foi casa dos marginais de um certo tipo de cinema de autor. Veja-se o caso de Denis Côté, por exemplo, que ano sim ano também, tem os seus filmes em competição no festival alemão e que um dia já fez parte do clubinho de cool kids de Cannes, com o seu filme Carcasses (2009). Quase sempre rechaçado pela crítica e público a cada novo filme, Côté sempre encontrou lugar para os seus filmes em Berlim.
A comparação pode parecer descabida, visto que ambos realizadores vêm de universos completamente distintos. Mas faz um certo sentido, visto que é a cara de Berlim dar abrigo a filmes menores de realizadores consagrados (veja-se o caso do desastroso Petite Maman, em competição o ano passado).
É pena porque depois do seu O Desconhecido do Lago e do belo e incompreendido Rester Vertical (2016), o cinema de Alain Guiraudie parecia querer dar continuação ao progresso das suas obsessões e inquietações. Bem, não foi dessa. E parece que vamos ter de esperar pela sua próxima aventura para poder confirmar se a carteirinha de membro dos A-list ainda continua suspensa ou não.

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