Criar uma lista com as melhores estreias cinematográficas do ano é difícil; sobretudo para alguém que não esteve tão atento ás estreias nacionais como devia estar. Mas posso ainda assim fazer uma lista dos filmes que mais me agradaram dentro daqueles que vi e que estrearam no nosso país este ano. Que apesar de tudo ainda foram alguns e infelizmente só posso escolher alguns. É importante referir que alguns filmes nesta lista nada têm a ver uns com os outros, e que tentar compara-lhos seria injusto, no entanto dentro dos meus gostos e critérios pessoais, estes são os filmes que eu escolhi.

 

10º – A Melhor Despedida de Solteira (Bridesmaids) de Paul Feig (EUA)

Não é de todo o filme mais obvio para constar nos melhores do ano, estou ciente disso, mas tenho também a convicção que este filme merecia mais amor por parte do público. “Bridesmaids” pode ser uma comédia romântica – o típico chick-flick se preferirem – mas é também um filme neurótico, desconfortável e, acima de tudo engraçado. O elenco é muito bom, o argumento é sólido, enfim, é um filme que me surpreendeu bastante pela positiva em quase todos os aspectos e que mostra que comédias românticas podem sim ser excelentes filmes quando tratados de forma digna e honesta.

 

9º – Assim é o Amor (Beginners) de Mike Mills (EUA)

A relação entre um pai e um filho; a relação entre um homem e uma mulher, e um cão. – que eleva a palavra “querido” a todo um outro nível – Alguns dos argumentos que usei com o filme anterior podem ser usados também com este “Beginners” sendo que este filme é muito mais agridoce e deambula bastante entre o drama – o filme aborda temas como a repressão sexual e a perda de um pai – e a comédia sem nunca se acomodar muito num dos lados, tendo também o seu romance à mistura. Mike Mills fez um excelente trabalho de realização o que aliado ao bom trabalho de um elenco – liderado por Ewan Mcgreggor e Christopher Plummer – já rendeu ao filme alguns prémios e nomeações que atraíram a atenção do publico. No nosso país o filme passou um bocado ao lado, mas não deixa por isso de ser uma das minhas estreias favoritas deste ano nas salas nacionais.

 

8º – Indomável (True Grit) de Joel e Ethan Coen (EUA)

Que bem que me sabe colocar um Western na minha lista dos favoritos do ano! Não é um género que abunde em quantidade/qualidade hoje em dia mas este filme que estreou em Portugal no já “longínquo” mês de Fevereiro é daqueles que tão cedo não se esquece. O já mítico Jeff Bridges e a jovem Heilee Steinfeld fizeram um trabalho impecável e os irmãos Coen mais uma vez mostraram que são certeiros nos filmes que fazem – e na forma como os fazem – “True Grit” divertiu-me no cinema como há muito não acontecia. O ritmo do filme não nos permite ter momentos mortos e o argumento inspirado na obra homónima de Charles Portis consegue ser bastante atractivo na forma como aborda a situação daquela perseguição pelo Oeste selvagem americano. Este filme marcou sem dúvida nenhuma o ano cinematográfico.

 

7º – A Toupeira (Tinker Tailor Soldier Spy) de Tomas Alfredson (Reino Unido)

Uma operação corre mal e chega-se à conclusão que existe um espião dentro dos serviços secretos britânicos. Que comece a caçada. Filmes de espionagem nem sempre me agradam e por isso tenho tendência a ser um bocado “esquisito”  com este tipo de filmes, contudo “Tinker Tailor Soldier Spy” não só é um filme de um realizador que me caiu nas boas graças – Alfredson é o realizador do filme sueco “Deixa-me Entrar” – como tem ainda a participação daquilo que eu considero um elenco de sonho composto, entre outros, por Tom Hardy, John Hurt, Gary Oldman, Benedict Cumberbatch e Colin Firth. Não tenho como recusar uma proposta destas e depois de ver o filme não tinha como não gostar dele. Referi este filme várias vezes como sendo “um filme sobre pessoas a falar” e apesar de parecer, não o digo de forma negativa; o filme é interessante do inicio ao fim e o seu argumento deveria servir de exemplo para outros filmes do mesmo género. É um filme que não cansa e se vai mantendo fresco ao longo dos minutos.

 

6º – Submarino (Submarine) de Richard Ayoade (Reino Unido)

O motivo que me leva a gostar deste filme é que ele contem uma série de elementos das quais é difícil de gostar. A personagem principal, Oliver Tate, não é propriamente um miúdo agradável ou heróico no sentido que a personagem principal costuma ser; o alvo dos afectos de Oliver também não é de todo a mais desejável das raparigas. Os pais do Oliver também não são as personagens mais afáveis que se poderiam arranjar. Mas no entanto tudo isto funciona e faz com que fiquemos a torcer para que tudo corra bem a este grupo de pessoas. Esse é para mim o principal apelo do filme: a vulgaridade de todo este microcosmo de pessoas imperfeitas – tanto física como mentalmente – que se atraem de forma fria, quase que mais por obrigação do que propriamente por afecto. Pontos extra também para Ayoade que na sua estreia como realizador de uma longa-metragem consegue criar uma visão cinematográfica que mesmo sendo um pouco crua consegue ser um tanto quanto original – embora se encontrem alguns pontos em comum com Wes Anderson – e perfeitamente capaz de servir os propósitos de um argumento que se afasta de quase todos os outros filmes cujas personagens principais têm menos de 30 anos.

 

5º – A Árvore da Vida (The Tree of Life) de Terrence Malick (EUA)

Até agora tenho gostado do trabalho do Malick; não ao ponto de me considerar um “fã” do realizador mas ao ponto de gostar de me sentar e ver aquilo que ele tem para me mostrar. E aquilo que me Malick me mostrou neste filme foi toda a condição da Vida representada no microcosmos que é a típica família americana dos anos 50, mais precisamente numa das crianças dessa família e nos dois vectores que a motivam a continuar e que a puxam a fazer parte de todo um ciclo que começou há biliões de anos atrás e que só parará quando…quando parar. A dualidade criada entre a simplicidade, a beleza e a fragilidade do lado materno e a vontade de lutar e vencer inspirada pelo conservador lado paternal afectam a vida de Jack, que têm que saber absorver ambos os lados para poder crescer e seguir em frente – e tornar-se num Sean Penn algo perdido e confuso entre memórias do passado e um trabalho algures num edifico moderno de uma grande cidade – Mas são todas estas possibilidades de pensamento que o filme nos permitem que fazem de “A Árvore da Vida” um dos melhores filmes do ano e se calhar mesmo até um dos melhores do panteão cinematográfico.

 

4º – O Discurso do Rei (The Kings Speech) de Tom Hooper (Reino Unido)

Inevitável esta presença na minha lista dos favoritos do ano. É sem duvida o filme do ano, pelo menos a nível de industria. Ganhou quatro estatuetas nos Oscars dentro de um total de 12 nomeações e conquistou o grande público bem como a crítica. Mas não existiriam lucros sem que houvesse um mínimo de mérito e este filme tem-no de sobra. Começando pelo realizador, Tom Hooper, homem no qual deposito grande confiança depois de ter visto “The Damned United” e a mini-série televisiva “John Adams”. A sua experiência televisiva aliada ao esporádico trabalho no cinema deram-lhe uma boa mestria para guiar um filme até bom porto. “O Discurso do Rei” é exemplo dessa mestria. Quanto á narrativa em si, a forma como a família real é retratava é bastante agradável, mostrando falhas e defeitos e emoções e ambições, Colin Firth esteve muito bem no seu papel, tal como Helena Bonhan Carter e Geoffrey Rush. Certamente este filme merece os prémios que ganhou e deverá tornar-se na medida de comparação para os próximos vencedores de Oscar de melhor filme.

 

3º – Drive (Drive) de Nicolas Winding Ref (EUA)

Este filme foi uma meia-surpresa para mim. Conheço já ha algum tempo o estilo de Refn por isso já contava com algo bom. Mas entretanto veio todo o alarido em Cannes por causa de “Drive” e as expectativas começaram a crescer ainda mais, fazendo também crescer o medo de uma desilusão. No entanto já na meta final do ano o filme estreia em Portugal e pude vê-lho na grande tela, e simplesmente adorei o filme. “Drive” não é um filme consensual dentro da critica, e o seu publico é um publico alvo bastante especifico, por isso compreendo que haja quem não goste nem um pouco deste filme. Mas não posso deixar de me erguer como um defensor do mais recente filme de Refn, não posso deixar de adorar o trabalho de Ryan Gosling – que entretanto é o actor fetiche em Hollywood – e não posso deixar de adorar toda a banda sonora, os silêncios, o ambiente e o espirito que envolve o espectador ao longo de pouco mais de hora e meia de filme. É por causa de filmes como “Drive” – e como o primeiro classificado desta lista – que eu adoro o cinema!

 

2º – Melancolia (Melancholia) de Lars Von Trier (Dinamarca)

Um filme sobre desespero e tristeza. Eu alinho! Visualmente sublime, a musica escolhida para os momentos pontuais onde ela é necessária é incrivelmente eficaz, os silêncios têm uma força abismal e o desempenho de Kristen Dunst é seguro e capaz de arrastar consigo e dar força a todas as outras personagens principais. Noto também que Lars Von Trier, após um filme como “O Anticristo”, onde não existe uma única réstia de esperança pelas suas personagens, parece encontrar agora uma forma mais calma e bela de lidar com os seus próprios demónios interiores; talvez “Melancholia” seja m anuncio de uma mudança de espirito por parte do realizador, o que a ser e a ver por este filme, parece vir por bem, tanto para ele como para a sua arte.

 

1º – Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris) de Woody Allen (EUA)

A haver um filme que me tenha apaixonado “Meia Noite em Paris” é sem duvida o que o fez de forma mais forte. O filme mais “Feel Good” do ano. Numa altura em que tinha perdido qualquer esperança no Woody Allen – sejamos sinceros, havia anos que ele não fazia um Bom filme – eis que ele se sai com esta “carta de amor” ao cinema – e mais do que isso, a Paris – e anuncia ao mundo que afinal o bom e velho Sr. Allen ainda tem alguma coisa para dar. Da forma como Paris é filmada até á construção das personagens, passando ainda pela banda sonora, nada neste filme escapa ao pormenor. Owen Wilson mostra que a escolha de casting foi perfeita ao interpretar Gil Pender da forma romântica e neurótica que só uma personagem de Woody Allen consegue ter. “Meia Noite em Paris” é diversão pura com a eventual lição de vida ou aviso que só alguém com a idade de Allen se sente na posição de dar ao seu público; é a forma perfeita de passar o tempo numa sala de cinema e é a forma perfeita de perceber que entre o “ontem” e o “amanhã” existe o “hoje”, e convém olhar para ele de vez em quando para poder perceber que ele ainda vale a pena.