Os 5 filmes italianos favoritos de Luca Guadagnino

O realizador, produtor e argumentista italiano Luca Guadagnino partilhou os seus cinco filmes italianos favoritos com a A.frame
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Foto: Joel C. Ryan/Invision/AP

Na Itália dos anos 60, uma nova geração de realizadores, oriundos dos anos 30, despontou sob o fascínio da Nouvelle Vague francesa, encontrando afinidade com os ideais da juventude radical que moldaria os acontecimentos de 68.

Em suas criações, o amor, a sexualidade, as relações pessoais e os embates entre gerações assumiam um papel de destaque, sobrepujando frequentemente as narrativas politicamente convencionais, embora a crítica às instituições, especialmente à família, fosse profundamente enraizada.

Seus filmes frequentemente apresentavam personagens que refletiam suas próprias vivências – descendentes da burguesia em conflito com seu meio, numa representação muitas vezes interpretada como uma rebelião contra suas próprias raízes familiares.

À vista disso, figuras como Marco Bellocchio e Bernardo Bertolucci consideravam-se “autores” por desejarem manter controlo absoluto sobre a produção cinematográfica, o que os levava a recusar contribuições de argumentistas e editores especializados. Com o declínio da revolta juvenil, essa tendência também se dissipou. Apesar disso, os seus principais representantes continuaram a produzir filmes, resultando numa mistura de sucessos e fracassos.

Recentemente, o realizador, produtor e argumentista italiano Luca Guadagnino partilhou os seus cinco filmes italianos favoritos com a A.frame. A lista de Guadagnino oferece um breve panorama não só desta nova geração italiana, mas também da anterior e de sua sucessora.

Luca Guadagnino

Guadagnino viu a luz do dia em Palermo, capital da Sicília, mas passou os primeiros anos da sua vida na Etiópia, onde o seu pai lecionava literatura italiana. Foi apenas aos seis anos que regressou à Itália. Foi então que o jovem Guadagnino se deixou encantar pelo cinema, iniciando a sua própria aventura cinematográfica com a câmara Super 8 da mãe.

Realização

A sua estreia como realizador ocorreu com “The Protagonists” (1999), um thriller protagonizado por Tilda Swinton, que narra a história de uma equipa de filmagem italiana a realizar um documentário em Londres.

Contudo, foi apenas com a sua “Trilogia do Desejo” que ele alcançou o estrelato internacional. Esta trilogia é composta pelos filmes italianos “Eu Sou o Amor” (2009), “Mergulho Profundo” (2015) e “Chama-me Pelo Teu Nome” (2017).

Este último, em particular, marcou um ponto de viragem em sua carreira, garantindo-lhe a sua primeira nomeação ao Óscar de Melhor Filme, além de um prémio de Melhor Argumento Adaptado para James Ivory.

Além disso, o filme foi reconhecido com indicações nas categorias de Melhor Música Original para Sufjan Stevens e Melhor Ator para Timothée Chalamet.

Estados Unidos

Nos últimos anos, Guadagnino dirigiu sua atenção para os Estados Unidos, apresentando “Ossos e Tudo” (2022), um filme de terror romântico estrelado por Taylor Russell e Timothée Chalamet, além do eletrizante “Challengers”, que mistura comédia esportiva com drama psicossexual no mundo do tênis.

Em “Challengers”, Zendaya encarna Tashi Duncan, uma ex-tenista talentosa que se transformou em uma treinadora de enorme sucesso. Sua principal meta é treinar seu marido, um antigo campeão que enfrenta uma série de derrotas.

Porém, o rumo dos acontecimentos se altera drasticamente quando o casal se depara com o antigo melhor amigo e ex-namorado de Tashi. Todavia, tudo se transforma quando o casal se depara com o antigo melhor amigo e ex-namorado de Tashi. A partir desse momento, as tensões e os dramas aumentam, criando um cenário imprevisível.

Assim como “Chama-me Pelo Teu Nome”, o filme conquistou uma legião de fãs na internet.


Confira o top 5 de Guadagnino e suas impressões

1) “Viagem à Itália” (1954), de Roberto Rossellini

“Este pode ser um dos meus filmes favoritos de todos os tempos – de todos os lugares, de todos os tempos. Sinto que este é um dos maiores retratos do que realmente significa ter um relacionamento com outra pessoa. Achei surpreendente a maneira como Rossellini reuniu o conceito de amor e luxúria – e o conceito de paisagem. Neste caso particular, a paisagem das almas de duas personagens reflecte a paisagem de Nápoles e, em geral, do Sul de Itália. E, no entanto, há algo que não consigo entender sobre como ele conseguiu isso”.

2) “Luna” (1979), de Bernardo Bertolucci

“ “Luna” é provavelmente o filme mais italiano de Bertolucci. A forma como Bertolucci sempre se interessou pelo tabu, no sentido freudiano da palavra, tem sido constantemente fonte de forte inspiração e revelação. Neste caso, o tabu é a relação entre mãe e filho. Acho que o filme foi condenado quando foi lançado e foi esquecido. O filme foi considerado muito elevado no melodrama e muito provocativo na representação da relação mórbida entre mãe e filho. Acho que estamos circulando agora, mais de 40 anos depois, na maneira como atualmente abordamos o sexo de forma provocativa. É por isso que acho interessante propor agora. Realmente merece ser visto por seu grande senso de drama mental nesse tipo de relacionamento. E o desempenho de Jill Clayburgh é simplesmente incrível”.

3) “Adwa” (1999), de Haile Gerima

““Adwa” é um excelente documentário do mestre cineasta etíope Haile Gerima. É uma coprodução com a Itália. Haile Gerima é um dos maiores cineastas da história do cinema, mas tem sido constantemente mantido numa condição de marginalidade, especialmente nesta parte do mundo. Provavelmente é porque ele tem uma ideia lúcida da tentativa de colonização da Etiópia pelo regime fascista da Itália nos anos 30 e do que isso significou. “Adwa” é realmente a palavra final sobre a luta feroz contra o fascismo e o nacionalismo por parte do povo da Etiópia. Fui criado na Etiópia desde o meu nascimento até aos 6 anos de idade, por isso sinto fortemente que este título é importante não só pela sua profundidade em relação ao tema descrito, a Batalha de Adwa, mas também para a minha vida pessoal”.

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Via: IMDb

4) “Sicilia! (1999), de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub

“Jean-Marie Straub e Danièlle Huillet são franceses e alemães, mas trabalharam muito na Itália e viveram muitos anos em Roma. Lembro-me da epifania que tive quando, aos 19 anos, os conheci na Sicília, onde cresci, e como uma conversa que tive com os dois me levou a compreender que não deveria ter seguido o meu caminho no cinema. através de uma escola de cinema, mas através da aprendizagem e compreensão do trabalho de outros cineastas como eles. Então, eles tiveram uma influência muito forte e direta na minha formação e no meu trabalho. “Sicília!” é um grande retrato da minha terra natal, porque nasci na Sicília e voltei para a Sicília depois da Etiópia. É realmente a ideia de vivenciar a visão de dois grandes autores de um lugar tão complexo como a Sicília”.

5) “Tre volti della paura” (1963), de Mario Bava

“Mario Bava é o padrinho de todas as grandes emoções pelas quais passamos como público. Sem Maria Bava não existiria Dario Argento, não existiriam grandes cineastas como John Landis ou Joe Dante ou mesmo Jonathan Demme. Mario Bava tem sido uma das maiores influências do cinema para o gênero de terror e fantástico. A sua capacidade de inventividade e o seu maravilhoso sentido de cinema ainda são uma grande lição para quem quer abordar o cinema pelos valores da linguagem do próprio cinema. “Tre volti della paura” é uma coleção de contos que vai emocionar quem se aproxima”.

 

*texto de abertura construído a partir de informações do Cinescuola

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