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Querido Diario - Edição Cineclubes

“Querido Diário: Edição Cineclubes” é uma rubrica original dos criadores do Cinema 7ª Arte que remete o leitor para uma viagem de vespa por Portugal fora, numa demanda dos cineclubes ainda ativos. De cidade em cidade, iremos conhecer cada cineclube e os seus nativos que se esforçam por partilhar a paixão pela sétima arte.

 

Obrigado por nos receberem em Faro, a capital do Algarve. Virada para o continente africano é uma das regiões mais quentes do país e por sua vez uma das maiores atrações turísticas durante o verão. O Cineclube de Faro é por sua vez o cineclube mais a sul de Portugal. Fundado em 1956, assume-se como um dos mais antigos cineclubes do país, que continua ainda em atividade.

 

Legenda: C7A – Cinema 7ª Arte / CCF – Cineclube de Faro

C7A: Como nasceu o cineclube?

CCF: O CineClube de Faro, rezam as crónicas, teve a sua primeira exibição pública a 6 de Abril de 1956, com o filme Faina Fluvial Douro, de Manoel de Oliveira, e o Regresso Eterno de Jean Delannoy. É esta a data de referência no que diz respeito ao nascimento do CCF, embora, na verdade, tenha sido um sonho e projecto acalentados e preparados pelos seus fundadores durante largos meses.

C7A: O público adere com facilidade à vossa programação? Vocês criam uma programação pensada em exclusivo para o público?

CCF: A programação do CCF tem sempre em conta o público mais afecto e as suas preferências, mas no entanto tentamos conjugá-la também com uma vontade de o surpreender com propostas mais desafiadoras e arrojadas de quando em vez.

C7A: É difícil para vocês criar uma programação de cinema mais independente e com clássicos do cinema, sem que não apareça muito público?

CCF: O espaço que o cinema independente, os clássicos do cinema e o cineclubismo ocupam nas sociedades actuais é cada vez mais reduzido. A realidade com que o CCF se confronta é de uma diminuição bastante significativa do seu público, principalmente depois de na década de 90 ter havido um pico extraordinário a esse nível e no de número de sócios. As exigências e os problemas hoje são hercúleos, mas acreditamos que estes fenómenos são cíclicos. Neste sentido, sim, é difícil programar e perspectivar muito público em contextos em que as referências do público em geral para essas mesmas obras sejam poucas ou nulas. No entanto há surpresas e creio que é necessário hoje ser mais inventivo na programação. No fundo, fazer um esforço muito maior na divulgação, na diversificação das ferramentas de divulgação, na contextualização das obras e na mensagem da importância e especificidade de cada obra.

C7A: Costumam passar algum cinema português?

CCF: Claro, não fosse o Cinema Português um reflexo notável das idiossincrasias do nosso povo e não fosse a cinematografia Portuguesa hoje objecto de inúmeras e exaltadas retrospectivas por esse mundo fora. Este ano de 2013 contamos já com 28 obras portuguesas exibidas ou programadas, apesar de a produção portuguesa ter sido praticamente decapitada com a política cultural medieval do actual governo.

C7A: Atualmente, em época de muita crise, onde as pessoas tem menos dinheiro para ir ao cinema, como conseguem gerir as contas do cineclube?

CCF: A gestão financeira do CCF é feita com um esforço inimaginável, ao cêntimo. Com o contributo admirável dos sócios e amigos do CCF, mas também e necessariamente passou por uma redução das despesas e de alguma actividade paga, que ainda assim, não se traduziu numa redução da actividade do CCF, pelo contrário.

C7A: Qual a importância deste cineclube para a cidade de Faro e qual a importância dos cineclubes hoje na sociedade?

CCF: O CCF é desde há muito uma das principais forças culturais da cidade de Faro. Apesar das quebras de público e de algum afastamento  que cremos circunstancial, o CCF é hoje em dia, e consequência do enormíssimo trabalho das direcções anteriores, um marco cultural no Algarve. Uma sede com uma biblioteca e videoteca que dispõe de mais de 4000 títulos e vários equipamentos disponíveis para o público em geral e para a cidade de Faro. Inúmeros protocolos e parcerias com entidades regionais e locais e uma actividade intensíssima para uma associação (é de uma associação local com uma direcção composta por 5 elementos de que falamos).

O cinema e a divulgação cinematográfica são feitas exclusivamente pelos cineclubes/associações culturais, fora dos grandes centros urbanos. Para não falar no papel que os cineclubes têm tido na formação e literacia cinematográficas, na construção e desenvolvimento do olhar, de um olhar crítico, reflexivo e sustentado e que necessariamente não se esgota no domínio das imagens em movimento, mas também na forma como as mais novas gerações olham e reflectem sobre a sociedade. O papel dos cineclubes, em virtude da demissão política do Estado, é fundamental para uma sociedade plural e consciente.

C7A: Sentem falta de apoios do estado ou das câmaras municipais para os cineclubes?

CCF: É mesmo necessário dar uma resposta?

C7A: Acham que deveria haver uma maior relação de parceria entre outros cineclubes do país?

CCF: A FPCC tem feito o seu trabalho na representatividade e na tentativa de construção de uma rede de cineclubes. Compreendemos as naturais dificuldades desse trabalho e acreditamos que será possível melhorar. O cineclubismo e as relações de parcerias entre cineclubes têm evidentes constrangimentos geográficos, agravados pelas crises que enfrentamos. Mas a disponibilidade e a necessidade do estabelecimento dessas relações é premente e no caso particular do CCF é um dos aspectos em que temos de fazer mais; nós e o movimento cineclubista em geral.

C7A: Com tanto sol, durante quase todo o ano, fazer sessões de cinema ao ar livre deve ser um hábito em Faro. Fale-nos um pouco da Mostra de cinema ao ar livre que realizam todos os anos em julho.

CCF: A mostra de cinema ao ar livre é um evento que realizamos desde o início da nossa fundação, tendo o CCF ocupado a cine-esplanada (a maior da Península Ibérica à época!!) nos meses de Verão ao longo das décadas, durante o fascismo, em que tal espaço esteve aberto na cidade. Pós 25 de Abril, o cinema ao ar livre continuou, esparsamente na cidade e bastante por essas terras algarvias afora, carregando projectores e filmes em 16mm. É já na década de 80 que as Mostras regulares de cinema ao ar livre são retomadas de uma maneira mais regular, de novo, na cidade, o que veio a resultar numa parceria com a Câmara Municipal, a partir dos anos 90, em que o CCF passou a ocupar o Museu Municipal ou outros locais da cidade. Neste contexto tem sido hábito nos últimos anos, durante duas semanas, exibirmos no belíssimo cenário que os claustros do Museu Municipal de Faro oferecem, uma mostra de cinema com uma oferta alargada desde algumas propostas mais mediáticas a outras menos convencionais. Na edição deste anos, exibimos um total de 20 filmes em 10 dias, entre curtas e longas metragens, filmes com o “Tabu” (Miguel Gomes), ou “Os Amantes Passageiros” (Almodôvar) ou o “Post Tenebras Lux (Carlos Reygadas), e, no domínio das curtas metragens, destaque para uma selecção da Ana Catarina Pereira, uma das autoras do livro “Geração Invisível – Os novos cineastas portugueses” a quem convidámos também para fazer uma apresentação do livro nesta mostra. Paralelamente à mostra, decorre também um feira do livro organizada por nós no mesmo espaço, centrada precisamente no cinema.

C7A: A época alta para a região do Algarve é sem dúvida o Verão, onde hóteis, restaurantes e praias estão cheios. Já o resto do ano a situação inverte-se, levando o Algarve a um enorme vazio de população. Durante o resto do ano as sessões do cineclube contam com muito público ou nem por isso?

CCF: Durante o resto do ano o público do CCF é menos diverso, mas ainda assim fiel. Regra geral contamos com uma média de espectadores que ronda as 60 pessoas/ sessão, nas sessões de carácter mais tradicional que promovemos às terças-feiras no auditório do Instituto Português da Juventude.

C7A: Com 57 anos de existência como cinceclube, sente pressão ou alguma responsabilidade pelos anos que esta instituição tem?

CCF: O passado de uma instituição com 57 anos de voluntarismo em prol do cinema não é um peso fácil de se conviver, principalmente tendo em conta as dificuldades actuais, os enormes desafios que temos pela frente e, diga-se também, o legado absolutamente extraordinário que herdámos das direcções anteriores. No entanto, mais do que assustar ou pressionar, é para nós factor de motivação em prosseguir e trabalhar na construção da nossa parte da história do CCF, para Faro e para o Cinema.

C7A: O cineclube só vive da dedicação e trabalho dos voluntários?

CCF: Essencialmente sim. Contamos actualmente com a contribuição de duas colaboradoras mais próximas, uma delas que tivemos oportunidade de contratar ao abrigo do programa Impulso Jovem.

C7A: Película ou Digital?

CCF: Digital? Quem nos dera… uma das principais dificuldades do CCF prende-se precisamente com as dificuldades inerentes à evolução para o DCP e com a falta de uma sala de exibição própria e devidamente equipada que nos permita acompanhar esta profunda transformação. Esse será um dos (senão o…) maiores desafios a curto/médio prazo para os cineclubes na generalidade, principalmente para os que como nós não têm equipamentos municipais compatíveis com uma sala de cinema nem capacidade para os perspectivar no futuro mais próximo. O digital, para quem se esconde atrás das rotativas, não tem piada nenhuma.

C7A: Um dos principais objetivos de um cineclube é o de discutir e refletir sobre cinema. Acha que os cineclubes hoje tem cumprido essa missão, para além da simples exibição?

CCF: Os cineclubes não têm vida fácil actualmente, principalmente porque é complicado motivar o público em geral para contribuir para esse tipo de missões. Mas, lá está, parece-nos essencial que os cineclubes não percam essa marca identitária do movimento cineclubista, que a assumam e a cultivem.

Mais uma vez, um muito obrigado ao Cineclube de Faro!

logo faro

Querido Diario - Edição Cineclubes - #9

Próxima paragem: Cineclube de Torres Novas

Uma ideia original de

Cinema 7ª Arte

Texto de

Tiago Resende

Revisão de

Eduardo Magueta