Trilogia da Incomunicabilidade em tempos de pandemia

Michelangelo Antonioni, cineasta italiano conhecido pelos êxitos “Blow-Up- História de um fotógrafo” de 1966 ou “Zabriskie  Point-Deserto de Almas” de 1970, não iria imaginar que ainda hoje houvesse tanto interesse sobre a trilogia que condenou.

Falemos dos filmes que compõem esta classificação: “L’Avventura- A aventura” de 1960, “La Notte-A noite” de 1961 e por fim “L’Eclisse- O eclipse” de 1962, sendo que pelo realizador sempre achou que “Il deserto rosso- O deserto vermelho” de 1964 (primeiro filme a cores do mesmo) deveria também fazer parte deste ciclo. O nome da trilogia foi dado pela crítica, ao perceberem o percurso que o realizador estava a tomar, o que até então não era comum nos seus contemporâneos. O interesse pelo íntimo das personagens, os longos planos, os silêncios dolorosos e a agonia gritante eram transversais nas suas histórias tais como a actriz Monica Vitti que entrou nos seus três filmes. Ambos mantiveram uma relação de cerca de 10 anos que coincidiu com o período destas filmagens e com uma das mais belas parcerias no cinema (teremos sempre neste registo também John Cassavetes e Gena Rowlands).

Em “L’Avventura – A aventura” encontramos um grupo de amigos burgueses que viajam de barco pela Sicília. Tudo se desmorona quando uma das tripulantes desaparece e se desenrola uma busca incessante que aproxima o marido da mesma da sua melhor amiga. Um filme com personagens perdidas e vazias que no meio do caos tentam estabelecer ligações constantemente quebradas pelo barulho do mar ou do vento nos extensos planos. Inicialmente não foi bem aceite pois marcava claramente uma crítica às classes altas italianas, caracterizado por uma desigualdade social onde os actores estabelecem relações materialistas no abismo da sua solidão e na incapacidade de resolver o passado.

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“La Notte – A noite”, voltamos ao charme discreto da burguesia, aqui cheios de classe com uma magistral Jeanne Moreau e um eterno Marcello Mastroianni, ambos magníficos mas que não consegue comunicar. O filme desenrola-se durante uma festa em que o casal através da relação com as outras personagens tenta encontrar respostas para a crise do seu casamento de 10 anos. Nessa noite ambos se tornam vulneráveis, ambos caminham em direcções diferentes, ambos estão mais sozinhos do que nunca. Durante esta festa cruzam-se com Valentina interpretada por Monica Viiti, a mulher que provoca a tentação, mas que também procura encontrar o verdadeiro amor, e a mulher confidente do casal durante a noite. Aliás uma das cenas mais bonitas do cinema é exactamente quando esta muma fotografia a preto e branco com a luz certa diz “Vocês acabaram comigo esta noite!”. Um plano longo, com a música a tocar ao fundo, uma madrugada a querer aparecer e a cumplicidade do silêncio inquietante após a confissão de Lídia (Jeanne Moreau). Durante praticamente todo o filme o casal parece não comunicar desde que chegam à festa, mas é neste enredo que nos fica a frase de Valentina, hábil a julgar e deserta de ser amada “Sempre que tentei comunicar com alguém, o amor foi embora”. Este filme é o elogio do amor, a esperança de continuar a querer amar enquanto o casal se afoga nas suas inseguranças, quem sabe, com salvação ainda possível.

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Terminamos com “L’Eclisse – O eclipse”, onde Antonioni começa com um relacionamento terminado de Vittoria e Riccardo e em que ambos já não conseguem olhar um para o outro. Vittoria (Monica Vitti) tenta esconder mais uma desilusão amorosa mas entretanto conhece o jovem Piero interpretado por Alain Delon, uma paixão que a faz retrair mas que ao mesmo tempo não consegue negar. Ambos fúteis, marcados pela infelicidade e raiva que às vezes preferem não amar por não conseguirem amar melhor. Perdidos tentam encontrar a felicidade, um porque acabou de perder dinheiro e outro porque terminou um namoro. Procuram a atenção e preencher o vazio e a escuridão que os caracteriza, como que jogando ao gato e ao rato numa cidade vazia também até se ver o eclipse. Não sabem amar, renunciam o porquê de uma relação e constantemente se perguntam a si próprios de que vale ter um relacionamento quando encontram neles um labirinto de lacunas de sentimentos. Uma Vittoria perdida que poderia ter tudo e o mesmo ser nada, procurando desesperadamente apenas encontrar-se com ela própria outra vez.

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Três filmes intemporais que nos dias de hoje questionam como nós próprios nos relacionamos e como nos podemos encontrar connosco e com os outros perdidos numa realidade que nunca julgámos viver. O que é o amor? Sabemos estar sozinhos? Estamos numa relação por medo de estarmos sozinhos?  Somos todos efémeros? Acima de tudo, sabemos relacionar-nos com a nossa solidão interior? Estas histórias do realizador não nos procuram dar respostas mas sim fazer-nos pensar, aliás, no meu ponto de vista ele mostra a realidade pela negação das suas personagens. Todos procuramos silenciosamente algo que nem sabemos definir. Ainda assim é o amor que nos salva sempre.