A primeira longa-metragem da realizadora catalã, Carla Simón, premiada em Berlim com o galardão de Melhor Primeira Longa-Metragem, é um belo poema sobre a infância e as complexas emoções vividas por uma criança, depois de perder os pais.

Frida é uma criança, com 6 anos de idade, que após a morte dos seus pais, é levada para uma zona rural para viver com os seus tios.

O argumento pode resumir-se em poucas palavras, e essa simplicidade está plasmada em todo o filme. Embora a história seja simples, toda a força invisível que a perpassa é bastante complexa. Carla Simón depura a sua obra para que estas forças se revelem ao espectador. Não se trata de narrativa, pois a realizadora não impõe nenhum jogo lógico onde a mente do espectador se regozije ao perceber relações entre causas e efeitos – nem mesmo o acontecimento principal nos é apresentado, só temos o efeito. Não há nenhuma racionalidade a não ser uma fenomenologia dos afectos, que se tornam visíveis pela singular expressividade de Frida.

O próprio discurso cinematográfico da realizadora foge de qualquer vestígio de artifício lógico mas também formal. Não se trata de dar forma a um conteúdo, mas sim de deixar que a força do conteúdo se torne forma. A realizadora tem perfeita noção que, no cinema, a beleza não é algo que se possa forçar, que ela aparece quando estamos dispostos a deixar falar uma voz interior que tem força própria, que se revela a si mesma. Para que esta se manifeste, o realizador deve esculpir mais do que vestir; deve deixar que um conteúdo resplandeça na sua forma própria, no afecto puro que se libertou das próprias formas que lhe foram impostas. Sabemos que nas artes da imagem, existem várias maneiras de fazer com que a experiência seja prazerosa: pela intensidade das cores, pela luz perfeita, pela racionalidade perfeita de uma história, por uma intensa forma dramática, etc. Porém, quando despimos o espectador de todas as suas exigências racionais e formais, sobra algo que possui uma intensidade quase religiosa, uma espécie de toque – “uma espécie” porque fica a questão se será alguma vez possível sair do domínio da representação para termos acesso à pura presença -, de acesso sublime a algo universal que se esconde por trás das formas: o afecto, o embate em nós de algo que vive para lá das nossas limitadas capacidades cognitivas. Penso, por exemplo, nos filmes de Ingmar Bergman ou de Carl Theodor Dreyer, como algo incrível e inexplicável acontece dentro deles, como se, de repente, não precisássemos de qualquer explicação que justificasse o que quer que seja neste mundo, porque através daquelas imagens, tudo estaria, desde sempre, justificado.

Pois bem, de uma forma mais artesanal, o filme da realizadora catalã faz uma aproximação a esta verdade que não se explica, mas que se mostra. A inexpressividade de Frida revela mais do que aquilo que esconde; o seu silêncio torna-se o símbolo máximo de uma dor que ainda não se percebeu a si mesma como dor. Assim, a realizadora dá a ver a trajectória destes afectos que Frida prende dentro de si até que eles deixem a prisão da interioridade para se manifestarem por completo.

Neste filme, com um tom tão contemplativo, é este transito emocional, que vive dentro de Frida, que pressentimos até ele se materializar e se apresentar ao nosso olhar. A forma como as invisibilidades se tornam visíveis e os movimentos se tornam mais intensos do que extensos é algo que se conquista com uma mão extremamente sensível, com um olhar que quer tocar o tempo que vive para lá dos organismos e das subjetividades. Carla Simón criou algo simples, cheio de ternura, que mostra como o cinema pode ser a última morada da esperança, onde uma humanidade perdida se poderá reconhecer e reencontrar, naquilo que todos possuímos em comum: a força dos afectos.

RealizaçãoCarla Simón
ArgumentoCarla SimónValentina Viso
ElencoLaia ArtigasPaula RoblesBruna Cusí
Espanha/2017 – Drama
Sinopse
: Prémio para Melhor Primeiro Filme na Berlinale de 2017, esta é uma pequena pérola autobiográfica da realizadora Carla Simón onde o período da infância é retratado de forma evocativa e tocante. O filme venceu recentemente três prémios Goya da academia espanhola de cinema.

 

 

«Summer 1993» - Por um cinema-ternura
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