Há dias em que um homem olha para o céu e vê apenas previsão de chuva. E há dias em que olha e vê um arco-íris. A diferença entre as duas coisas, suspeito eu, não está propriamente na meteorologia, mas na disposição de espírito.
Outro dia fiquei a pensar numa hipótese improvável: e se um arco-íris não fosse apenas um fenómeno óptico, essa explicação que aprendemos na escola e que eu, tristemente, tive de rever na graduação em Geografia, cheia de refrações e ângulos, mas o rasto luminoso de alguém que acabou de viajar no tempo? Uma espécie de cicatriz colorida no céu, deixada por um visitante apressado a saltar de um século para o outro. A ciência talvez franzisse o sobrolho, mas a imaginação agradeceria.
Foi mais ou menos esse pensamento que me ocorreu depois de ver “Arco”, o filme de animação do francês Ugo Bienvenu. E devo confessar que saí da sessão com aquela sensação rara de que alguém, em pleno século XXI, época em que o futuro costuma ser apresentado como uma mistura de apocalipse climático e notificações no telemóvel, resolveu ter um gesto de optimismo.
O filme começa num futuro distante, mas curiosamente não é um futuro deprimente. Há casas suspensas nas nuvens, famílias que viajam no tempo como quem faz turismo cultural e crianças que ainda têm curiosidade suficiente para estragar planos cuidadosamente organizados pelos adultos. O pequeno Arco, que tem dez anos e uma saudável incapacidade de ficar quieto, decide fazer o que qualquer criança faria se tivesse acesso a um fato de viagem temporal: roubá-lo e sair à procura de dinossauros.
Naturalmente, a coisa corre mal.
Em vez de aterrissar no Cretácico, o rapaz acaba numa floresta do nosso presente, que, comparado com o seu futuro arborizado nas nuvens, parece um lugar um pouco mais cansado. É aí que conhece Iris, uma rapariga da sua idade que vive com uma babá robô chamada Mikki, enquanto os pais aparecem apenas sob a forma de holograma, como se fossem participantes eternos de uma chamada de vídeo.
A amizade entre os dois começa como começam as melhores amizades da infância ressoando quase como “É tão bom” de Sérgio Godinho: sem protocolo nenhum. Um olha para o outro com curiosidade, como quem descobre um animal raro. Em pouco tempo já estão a ensinar coisas um ao outro. Arco mostra como imitar o canto dos pássaros; Iris ensina como não levantar suspeitas quando se é, tecnicamente, um rapaz vindo do futuro.
Pelo meio, há uma gema misteriosa na testa do rapaz que permite viajar no tempo, um vizinho desconfiado e até um trio de irmãos excêntricos que passam a vida a tentar provar a existência de “pessoas do arco-íris”. Confesso que tenho alguma simpatia por esses teóricos da conspiração de aldeia: são os únicos conspiradores que parecem movidos mais pela curiosidade do que pela paranoia.
Visualmente, o filme tem aquele encanto sóbrio das animações desenhadas à mão. Não é um espectáculo de fogos-de-artifício digitais; é antes uma espécie de caderno ilustrado que ganhou movimento. Em certos momentos lembra as fábulas ecológicas de Hayao Miyazaki, sobretudo “Ponyo”; noutras recorda a imaginação cósmica de “Moebius”, de Jean Giraud. Há também ecos sentimentais dos filmes de Makoto Shinkai, como “Your Name”.
Para além das referências, alegra-me saber — em tempos de IA — que tudo isto foi concebido por um humano. Não sou o único, aliás, a manter um pé atrás em relação a esse artifício contemporâneo. Em entrevista recente concedida a Roberto Sadovski, do UOL, Ugo Bienvenu criticou o uso de inteligência artificial e apontou riscos para a imaginação.
Bienvenu afirmou que a ferramenta pode prejudicar o ofício e, paradoxalmente, tornar o trabalho mais caro e demorado quando exige correcções posteriores. Na sua visão, “é melhor fazer certo à primeira” do que regressar continuamente a etapas que deveriam já estar resolvidas.
O realizador também argumenta que a imaginação é uma capacidade humana que precisa de ser exercitada e que o uso excessivo de IA tende a enfraquecer esse processo. Para ele, a própria ficção está ligada a esse exercício constante de “treinar e construir” a imaginação.
Bienvenu comparou ainda o debate sobre a inteligência artificial com a forma como encara a animação em 2D e 3D. Disse preferir trabalhar com aquilo a que chamou as “qualidades dos erros humanos” e declarou ver a IA como “um caminho muito mau para a humanidade”.
Além disso, o que realmente me ficou foi outra coisa: a ideia, simples e quase ingénua, de que o futuro não depende apenas de tecnologia ou de grandes decisões históricas. Depende também de pequenos actos de confiança entre pessoas. Ou, neste caso, entre duas crianças que não nasceram sequer no mesmo século.
Há um momento em que Arco tenta explicar a Iris que o mundo dela, cheio de incêndios florestais e problemas ambientais, não é o fim da história. Que, algures mais à frente, a humanidade aprende qualquer coisa e constrói um lugar melhor. Ele não pode contar tudo, claro, porque os viajantes do tempo têm sempre essas regras misteriosas. Mas deixa escapar o suficiente para que ela imagine.
E talvez seja essa a função secreta de certas histórias: não explicar o futuro, mas tornar plausível a ideia de que ele pode melhorar.
Aliás, o próprio nome dos protagonistas parece brincar com isso. Arco e Iris juntos formam “arco-íris”. Uma coincidência linguística que funciona como metáfora perfeita: duas cores diferentes que, quando se encontram, produzem um fenómeno que ninguém consegue ignorar.
O filme estreou no Festival de Cannes e ganhou depois uma versão inglesa com vozes de gente famosa como Natalie Portman, Will Ferrell e Mark Ruffalo. Mas, para ser honesto, a versão original, com as vozes de Oscar Tresanini e Margot Ringard Oldra, tem uma inocência que dificilmente se traduz.
Talvez porque certas histórias precisam de soar um pouco frágeis para funcionar. No fim da sessão, saí para a rua e olhei para o céu, hábito que, convenhamos, não praticamos com grande frequência quando estamos ocupados a olhar para ecrãs. Não havia arco-íris nenhum. Apenas um céu perfeitamente banal.
Mesmo assim, fiquei a pensar: se algum dia aparecer um arco-íris inesperado, talvez não seja apenas chuva e luz a brincar uma com a outra. Talvez seja alguém a atravessar o tempo com demasiada pressa.
E se for isso, espero que seja uma criança curiosa. São quase sempre elas que trazem as melhores notícias do futuro. Talvez porque ainda saibam aquilo que os adultos esquecem com demasiada facilidade. O presente é apenas uma semente lançada na terra do tempo. Como escreveu Gonzaguinha na canção “Semente do Amanhã”, hoje é semente do amanhã.
Talvez seja por isso que não valha a pena temer tanto a passagem dos dias. O tempo continua a trabalhar em silêncio, como quem prepara uma manhã nova. A atitude sensata talvez seja essa. Não desesperar, não deixar de sonhar, levantar os olhos para o céu e acreditar que ainda há luz suficiente para iluminar o caminho que vem depois.
Afinal, como sugere a mesma canção, é preciso manter alguma fé na vida, nas pessoas e no que ainda está por vir.

