O ciclo “Vaiados em Cannes” despede-se esta terça-feira, 12 de Maio, no Sesc Jundiaí, com a exibição de “Sacanas sem Lei” (“Bastardos Inglórios”, no Brasil) (2009), de Quentin Tarantino, uma releitura assumidamente ficcional da Segunda Guerra Mundial.
A sessão decorre às 19h, no Teatro do Sesc Jundiaí, com entrada gratuita. Os bilhetes devem ser levantados uma hora antes, na Loja Sesc. O espaço localiza-se na Avenida Antônio Frederico Ozanan, 6600, junto ao Jardim Botânico.
Iniciado a 7 de Abril, o ciclo reuniu filmes que, apesar de uma recepção controversa no Festival de Cannes, acabaram por se afirmar como referências do cinema contemporâneo. O projecto partiu precisamente desse contraste entre a rejeição inicial e a valorização posterior por crítica e público.
A programação abriu com “Taxi Driver” (1976), de Martin Scorsese, seguindo-se “Não Dês Bronca” (“Faça a Coisa Certa”, no Brasil) (1989), de Spike Lee. Ambos os filmes, inicialmente recebidos com reservas em Cannes, tornaram-se obras fundamentais do cinema norte-americano.
A 28 de Abril foi exibido “Marie Antoinette” (“Maria Antonieta”, no Brasil) (2006), de Sofia Coppola, numa abordagem estética marcada por referências pop e sensoriais.
Já a 5 de Maio, a mostra apresentou “A Festa” (“Festa de Família”, no Brasil) (1998), de Thomas Vinterberg, um dos marcos do movimento Dogma 95, criado na Dinamarca e caracterizado por um manifesto que defendia uma linguagem cinematográfica mais crua, com recurso mínimo a artifícios técnicos.
Sacanas sem Lei
“Sacanas sem Lei” (2009), de Quentin Tarantino, surge como uma daquelas obras que não se contentam em reconstituir a História, antes a torcem, a deslocam e a devolvem ao espectador sob a forma de um exercício assumidamente ficcional.
Trata-se de uma releitura da Segunda Guerra Mundial que não procura rigor documental, mas sim uma espécie de jogo cinematográfico onde a vingança, a memória e a encenação se cruzam de forma deliberada.
No centro do filme estão duas linhas narrativas que acabam por se tocar de forma explosiva. Por um lado, o grupo dos chamados “Bastardos”, soldados judeus-americanos liderados por Aldo Raine, cuja missão passa por aterrorizar e desestabilizar o exército nazi atrás das linhas inimigas.
Por outro, a trajectória de Shosanna Dreyfus, sobrevivente de uma execução inicial, que assume outra identidade em Paris e passa a gerir um cinema, transformando esse espaço num dispositivo de vingança cuidadosamente preparado.
A junção destas duas forças culmina numa sequência final passada numa estreia de propaganda nazi, onde o próprio dispositivo cinematográfico se torna arma e palco de destruição simbólica.
A estreia do filme no Festival de Cannes, em 2009, foi desde logo marcada por uma recepção dividida. Havia quem visse no filme uma ousadia formal, uma liberdade narrativa que reconfigurava o modo como o cinema pode lidar com o passado histórico. Mas também houve quem se mostrasse desconfortável com o tom satírico aplicado a um contexto tão carregado como o Holocausto e a representação do regime nazi. Essa tensão atravessou grande parte da crítica inicial, revelando que a obra não pretendia consensos fáceis.
Com o tempo, porém, essa recepção foi-se estabilizando. O filme acabou por ganhar um lugar sólido tanto junto do público como da crítica, afirmando-se como uma das obras mais discutidas e influentes da carreira de Quentin Tarantino.
Em particular, a interpretação de Christoph Waltz, no papel do coronel Hans Landa, tornou-se central para esse reconhecimento. A sua presença ambígua, simultaneamente cordial e ameaçadora, valeu-lhe um conjunto de distinções importantes, incluindo o prémio de interpretação em Cannes e, mais tarde, o Óscar de Melhor Actor Secundário, além de outros galardões de relevo internacional.
Do ponto de vista comercial, o filme também teve um desempenho expressivo, ultrapassando os 320 milhões de dólares em receitas globais, o que o colocou entre os maiores sucessos da filmografia de Tarantino, apenas atrás de “Django Libertado” (“Django Livre”, no Brasil). Este impacto foi acompanhado por múltiplas nomeações e prémios, reforçando a ideia de que não se tratou apenas de um objecto polémico, mas também de um fenómeno cultural com forte circulação internacional.
O próprio percurso de criação da obra ajuda a compreender essa densidade. O argumento começou a ser desenvolvido em 1998, num momento em que Tarantino já tinha a estrutura da história pensada, mas não conseguia fechar o desfecho. Esse impasse levou-o a adiar o projecto durante vários anos, período em que realizou outros filmes, antes de regressar ao guião. As filmagens decorreram em 2008, na Alemanha, com um orçamento significativo, e o filme estreou em 2009, precisamente em Cannes, antes de chegar às salas comerciais na Europa e nos Estados Unidos.
No plano narrativo, há uma sequência inicial que funciona quase como manifesto do tom do filme: a chegada do coronel Hans Landa a uma quinta na França ocupada, onde a sua cordialidade aparente esconde uma lógica de terror meticuloso.
A partir daí, o filme constrói um mundo em que a violência não é apenas física, mas também discursiva e simbólica, atravessando interrogatórios, infiltrações e encenações que culminam no espaço do cinema enquanto lugar de julgamento final.

