7   +   2   =  

Entrando nos anos 90 começamos logo com dois filmes protagonizados pelo futuro ex-governador da Califórnia Arnold Schwarzenegger. O primeiro, de 1990, é mais uma adaptação de um livro de Phillip K. Dick realizada por paul Verhoeven chamada “Total Recall”. A narrativa do filme centra-se na possibilidade de se poderem fazer implantes de memórias que nos permitam sentir como se já tivéssemos vivido alguma aventura ou experiência mais arriscada, mesmo até umas agradáveis férias, sem ter que para isso sair do conforto de casa e perder o tempo de viagem. O problema é que a personagem principal a certo ponto não sabe se aquilo que está a viver são os implantes de memória ou se é mesmo real, criando uma atmosfera de paranóia tanto nas personagens como no espectador. A história do filme não se afasta muito dos arquétipos dos Film Noir e dos Policiais, fazendo com que isso acrescente algo mais ao filme do que apenas os efeitos especiais. Mas alimentando-se mais de efeitos especiais do que “Total Recall” está o famoso “Terminator 2” (“O exterminador Implacável 2”) de James Cameron, também com o actor austríaco num dos principais papéis. Este é de de longe o melhor filme da saga do exterminador, não só por ser o que contém uma melhor narrativa mas também por ser o filme que surpreendeu toda a gente com os seus brilhantes efeitos especiais, que conseguiram dar vida a uma máquina feita de metal liquido, capaz de se deformar e reformar à sua vontade e sempre que necessário. Nunca um filme tinha tido efeitos especiais tão realistas, o que lhe valeu quatro Óscares: Melhor Som, Melhor Maquilhagem, Melhores efeitos especiais e Melhor montagem de Som. Foi graças ás técnicas digitais deste filme que o mundo do cinema pôde um ano depois ter visto “Jurassic park” de Steven Spielberg, o filme que mostrou ao mundo pela primeira vez dinossauros com uma credibilidade nunca antes vista e que ainda hoje não foram ultrapassados em termos de espétacularidade e credibilidade. O filme ultrapassou “ET” na lista dos filmes com maior sucesso de bilheteira e tornou-se num marco para a animação gerada por computador. As técnicas do cinema evoluiram bastante desde que a Disney lançou “Tron” apenas dez anos antes. “O Parque Jurássico” explora as possibilidades da clonagem de dinossauros através do seu ADN encontrado em registos fósseis bem como a impossibilidade de convivência entre os repteis gigantes e os humanos. Depois de “Jurassic Park”, em 1995 são-nos apresentados que mudam bastante de tom em relação aos dois grandes blockbusters americanos; Jean Pierre jeunet lança o seu “La cité des Enfants Perdus” e Terry Gilliam faz uma adaptação da curta metragem “La Jetée” com Bruce Willis e Brad Pitt chamada “12 Monkeys”. Estes dois filmes são muito mais intimistas, feitos com orçamentos muito mais reduzidos mas não deixam de acrescentar algo de novo ao género. O publico já tinha ficado com uma ideia de como seria um filme de Ficção Científica á lá Jeunet com o “Delicatessen” de 1991 mas foi em 1995 que o realizador francês pegou no género e o subverteu á sua estética, criando um filme simples mas grandioso e mágico, tal qual como veio mais tarde a fazer com “Amélie”; quanto a Gilliam, o seu filme é muito mais negro, alertando a temas como testes quimicos em cobaias vivas e a crescente dificuldade na real comunicação entre pessoas graças á tecnologia. O tema da assombração da ideia da morte também é recorrente ao longo do filme, sendo mesmo um dos tópicos principais abordados.

 

O filme que se segue na lista é “Gattaca”, de Andrew Niccol, e de todos os filmes de que aqui escrevo, é aquele que mais se assemelha aos filmes dos anos 50, mantendo um aspecto futurista mas estilisticamente retro, de modo a poder equiparar-se com filmes como “O dia em que a Terra parou”. “Gattaca” é um filme inteligente e que não procura as muletas dos efeitos especiais para contar uma boa história. No universo da narrativa, Vincent, protagonizado por Ethan Hawke é um homem que nasceu sem qualquer tipo de controlo genético numa altura em que todos os pais recorriam a essa técnica para ter os filhos “perfeitos”. Vincent tem uma esperança de vida de apenas 30 e é esperado que comece a desenvolver problemas no coração, coisa que não acontece nos outros homens da sua idade, que o provocam por causa disso. Para cumprir o seu sonho de se tornar astronauta Vincent pede então a ajuda a um homem concebido com controlo genético mas que enquanto jovem teve um acidente de carro que o deixou paralítico, trocando de identidade com ele e recolhendo o seu sangue, urina, e outro tipo de amostras de ADN para que ele pudesse passar como “apto”. O filme foi lançado em 1997, numa altura em que já se começava a pensar nas possibilidades de controlar algumas características dos fetos através de manipulação genética, e lida portanto com a ideia de contrariar a natureza e fazer-mos de “Deus”, controlando a vida a níveis nunca antes imaginados. Hoje em dia, pouco mais de uma década depois de “Gattaca”, é possível controlar pequenas coisas como a cor dos olhos das crianças enquanto elas ainda estão em fase de formação, mostrando que as questões levantadas no filme podem vir a ser ainda mais pertinentes á medida que vamos avançando no tempo.

 

Em 1998 surge Darron Aronofsky com o seu “π” (Pi). Este filme independente com a simples ideia de que a matemática “está em todo o lado” consegue ser um verdadeiro cubo de rubick cinematográfico. A narrativa do filme não é tão forte quanto isso mas o visual de influências Kafkianas e o turbilhão obscuro de acontecimentos dá ao primeiro filme de Aronofsky o enorme respeito de milhares de adeptos do bom cinema independente. Ainda na década de 90 deixo a matemática para entrar novamente no universo virtual, desta vez dos irmãos Wachowski e do seu “The Matrix”.

 

Até este momento houve filmes importantes na história do cinema, houve filmes que serviram como marcos de mudança dentro de géneros e conceitos e mesmo de técnicas; mas foi no entanto “The Matrix” que marcou com uma explosão a mudança para os anos 2000 da melhor forma possível. Critica e publico adoraram o filme e o conceito apesar de não ser novo, foi aqui completamente reinventado. As cenas de acção foram aclamadas, bem como o novíssimo efeito Bullet-Time, conhecido pelo publico como o “Efeito Matrix” copiado e copiado num incontável numero de filmes posteriores. “Matrix” contém referencias a Alice no País das maravilhas e ao cinema de acção de Hong Kong contendo ainda dentro de si ideias que nos fazem lembrar a alegoria da caverna de Platão.

 

Encerra assim a década de 1990 no que toca a Ficção Científica.

A partir de 2000 o boom na Ficção Científica é incrivel, sendo que a partir deste momento é muito mais fácil fazer um filme que precisem de uma pesada dose de efeitos especiais visto a tecnologia ser muito mais acessível, mesmo ao mais independente dos realizadores. Como tal surgem muitos filmes de boa qualidade, alguns com algum tipo de mensagem por trás outros, e por “outros” entenda-se “a maioria” feitos apenas para vender, pondo a qualidade narrativa ou a pertinência dos efeitos especiais de lado. Os filmes adaptados de banda desenhada entram na moda com o surgimento de “X-Men” logo em 2000 fazendo com que quase todos os anos fosse lançado um blockbuster contendo super-heróis. “Cloverfield” trouxe também novamente á ribalta os filmes com aparência de filme caseiro, filmados de forma subjectiva com câmara tremida, sendo que mais tarde o estreante realizador sul africano Neill Blomkamp consegue pegar nessa estética, introduzir elementos de documentário e fazer um belíssimo “District 9” que lhe vale o apreço do publico e o respeito da crítica. Houve também espaço para as comédias de onde destaco o “Idiocracy” de Mike Judge, um filme que nos leva 500 anos para um futuro onde a humanidade ficou tão confortável com a sua tecnologia e tão relaxada com os seus reality Shows e publicidade e falta de exigências intelectuais que acabou por ver a sua média no valor do QI baixar até níveis hoje considerados quase deficientes. O filme apesar de se passar no futuro aponta o dedo a todos os males da sociedade de consumo do presente e da falta de exigências no nosso sistema de ensino e cultural.

 

O cinema independente também teve bastante “espaço de antena“ e filmes como “Donnie Darko” de Richard Kelly, “The Jacket” de John Maybury e “Butterfly Effect” de Eric Bress e J. Mackye Gruber tiveram relativo sucesso de bilheteira, vindo posteriormente a tornar-se fenómenos de culto. “Donnie Darko” é tambem considerado um dos melhores filmes do género; bastante cerebral e com uma das melhores narrativas baseadas em viagens do tempo já contadas no cinema. Também independente mas bem diferente dos filmes anteriores está “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” realizado por Michel Gondry e que mistura uma narrativa não-linear com os arquétipos do género do Romance  dentro dos moldes da Ficção Científica, criando uma estranha mas agradável experiência ao espectador.

 

Apesar de tudo há filmes saídos nesta década que foram beneficiados pelas enormes produções e orçamentos de Hollywood. Logo em 2001, e seguindo os passos de uma ideia lançada por Kubrick, Steven Spielberg lança “A.I. – Inteligência Artificial” uma adaptação moderna do velho conto do “Pinóquio”. Kubrick tinha começado a imaginar o filme ainda nos anos 70, mas sempre achou que seria preciso a visão de alguém mais virado para o imaginário de um universo familiar e “mágico” para poder realizar. Esperou então uns anos pelos avanços da tecnologia de animação por computador e acabou por sugerir a ideia a Spielberg que aceitou o projecto. Com a sua morte em 1999 Kubrick não pode ver o projecto acabado, mas quando “A.I.” saiu em 2001 a sua influência era perceptível, o que aliado ao estilo de Spielberg fez com que o filme fosse um enorme sucesso entre o publico não conseguindo no entanto gerar consenso entre a crítica.

 

A outra grande aposta de Hollywood da década foi o muito aguardado “Avatar” de James Cameron. O filme saiu em 2009 após mais de dez anos de desenvolvimento e o certo é que mesmo tendo uma qualidade visual incrível, sendo um dos filmes com o melhor 3D que já saiu para os cinemas, não deixa de ser um filme muito fraco em termos narrativos. O filme aborda temas como o anti-militarismo e e os conceitos de imperialismo capitalista e a destruição da natureza sendo que recebeu grandes elogios por isso, no entanto não é nada de que outros filmes nunca tenham falado. “Avatar” foi o filme que mais expectativas criou e como tal foi aquele que mais desiludiu, sendo que para além da inovação em termos do 3D, nada de novo trouxe ao cinema.

Menos espectacular mas muito mais criativa foi a estreia de Duncan Jones na realização com o seu filme “Moon”. O realizador britânico conseguiu fazer um filme bastante minimalista, usando ao todo oito actores sendo que apenas dois (Sam Rockwell no papel do astronauta e Kevin Spacey no papel de GERTY o computador) aparecem ao longo do filme, sendo todos os outros apenas personagens secundárias que praticamente não chegam a ocupar nem dez minutos do filme. O filme centra-se á volta de um astronauta que vive sozinho numa estação lunar onde é responsável pela extracção de Hélio-3, uma fonte de combustível. Após ter um acidente o astronauta descobre que é apenas um clone e que ao fim de três anos, o tempo do seu contrato, ele deve morrer e outro clone é activado no seu lugar. O filme ganhou vários prémios internacionais e chegou mesmo a ser passado durante uma palestra na NASA já que Hélio-3 é algo no qual os cientistas estão verdadeiramente interessados em apostar num futuro próximo. “Moon” mostrou a “Avatar” aquilo para que a Ficção Cientifica serve: um meio para contar algo, e não apenas uma finalidade.

 

Quanto a 2010, a Ficção Científica manteve-se em alta com os lançamentos de “Inception” de Christopher Nolan, “Tron: Legacy” a sequela do visionário filme da Disney, desta vez realizado por Joseph Kosinsky e ainda o outsider “Monsters” de Gareth Edwards.

 

Quanto ao “Inception”, seria de esperar algo “em grande” por parte de Nolan já que ele desde sempre que mostrou predisposição para fazer bons filmes, sólidos a nivel de narrativa e sem caír em clichés, e ultimamente isso tem sido aliado á atenção que ele tem recebido por parte da industria de Hollywood o que lhe permite fazer grandes filmes sem nunca fugir muito á sua ideologia (para comprovar isso basta ver o “The Prestige” de 2006). Quanto a “Tron: Legacy” este era a há muito aguardada continuação para a aventura digital da Disney. Apesar da história ter ficado aquém das expectativas o filme não defraudou em dar um show visual bastante bom, aliando o agora muitíssimo melhorado visual futurista do primeiro filme com a nova tecnologia 3D, sendo um dos poucos filmes que valem realmente a pena o dinheiro extra gasto no bilhete. O sucesso do filme apesar de generoso não foi tão elevado quanto isso, mas mesmo assim foi o suficiente para que a Disney pense já na realização de uma segunda continuação da saga. Já em relação a “Monsters”, este filme britanico de baixo orçamento fez aquilo que “Distrct 9” tinha feito uns anos antes: mostrar que é possivel contar uma boa história sem ser preciso um grande investimento, pois nos dias que correm a tecnologia necessária para um filme com criaturas estranhas e naves espaciais é perfeitamente acessível a um preço razoável.

 

Já neste ano, 2011, a aposta na Ficção Científica tem sido regular embora não tenha sido propriamente digna de se referir, tirando talvez os casos de “Thor” de Kenneth Branagh, que veio dar alguma dignidade aos filmes de super heróis e de “Source Code” de Duncan Jones, que apesar de ser um bom filme para se ver na tela de cinema, pouco acrescentou ao género. Contudo ano ainda vai a meio e já temos algumas promessas de bons filmes a caminho, particularmente o novo de Lars Von Trier, “Melancholia” cuja temática aborda o fim do mundo e ainda “Super 8” de J.J. Abrams que, segundo o próprio realizador, irá tentar captar a magia dos clássicos filmes de Ficção Cientifica feitos pelo Steven Spielberg nos anos 70, 80 e 90.

 

Em jeito de conclusão, o género da Ficção Científica pode ser descrito como o género que acompanhou toda a evolução do cinema desde o seu inicio. Se é certo que o cinema começou com os pequenos documentários dos Irmãos Lumiére, que colocavam a câmara em pontos estratégicos de modo a poder filmar alguns acontecimentos rotineiros e mostra-lhos depois ás pessoas que neles participavam, depressa evoluiu para os estúdios do Mèlies onde se filmavam foguetões a partir em direcção á Lua ao encontro de seres nunca antes vistos. Daí até ter-mos filmes passados inteiramente em planetas distantes com criaturas o mais diferente possível de nós foi apenas um “pequeno” passo, que embora demorado, não se tardou em afirmar como uma das mais lucrativas formas narrativas. Em relação ao futuro do género, este parece estar assegurado e havendo ideias frescas, não faltarão filmes do bom e velho sci-fi para ver na grande tela.

 

Assim termina este especial sobre o género Ficção Científica.