Passados três anos do momento em que vi o “O Filho de Saul”, tenho ainda a memória viva de ter experienciado um filme que me deu uma sensação de lufada de ar fresco. Existia algo de intrigante e de novo naquela forma de filmar, que me captou imediatamente a atenção. Estava patente nas suas imagens a ousadia que caracteriza todos os grandes artistas. Demorei algum tempo a perceber a câmera que obsessivamente perseguia o rosto do protagonista, transformando aquilo que Gilles Deleuze chamou de “Espaço qualquer” num espaço abstrato, ainda que visível e identificável. Este esvaziamento do espaço exige que se transforme a imagem em afeto, isto é, que os corpos consigam, através da sua imagem, ser uma superfície onde se objectivam e condensam todas as intensidades que se vão manifestando nesse corpo, pelos afetos que ele vai recebendo. Se em “O Filho de Saul” todas essas intensidades vão chegando até nós, infelizmente, em “Anoitecer” elas ficam reféns de uma história que exige um excessivo exercício de intelecção na tentativa de a conseguirmos decifrar, sob pena de ficarmos pelo caminho, sem afetos e sem o fio lógico da narrativa.

A narrativa do filme foca-se em Irisz Leiter (Juli Jakab), que numa Hungria em vésperas da Primeira Guerra Mundial, regressa a Budapeste na tentativa de conseguir emprego como modista numa fábrica de chapéus, que no passado pertencera aos seus pais. Após a sua rejeição por parte do novo proprietário, Irisz confronta-se com informação que a faz iniciar uma busca para desvendar segredos sobre o seu passado.

Existem vários fatores para que este filme não tenha alcançado aquilo que se esperava, depois de assistirmos ao belíssimo “O Filho de Saul”. Toda a génese do filme reside num estilo cinematográfico onde, tanto a câmera como o protagonista, são coisas possuídas por um grande impulso de obsessão. Em “O Filho de Saul”, tudo nos parece dado de um só golpe: por um lado, o espaço confinado do campo de concentração é mais facilmente reconhecível por nós e a abstração do espaço que circunda o protagonista não apaga os signos que precisamos obter para que saibamos onde ele se encontra. Mas, para além de alguns signos mínimos reconhecíveis, é o rosto do protagonista que condensa em si a totalidade do espaço; é ele que nos dá a ver o inferno: ele habita o inferno e o inferno habita, também, no seu interior. Ora, em «Anoitecer» não existe um espaço fechado que historicamente se torne, para nós, facilmente reconhecível. Isto faz com que as aproximações da câmara ao rosto de Irisz oculte mais do que aquilo que nos mostra. Este filme não funciona sem os planos que nos possam mostrar os diferentes espaços por onde a personagem se desloca, uma vez que a heterogeneidade desses espaços se oculta por trás de um rosto que não o consegue traduzir.

O fundo da narrativa é ainda o mesmo do seu filme anterior. A personagem deve estar completamente empenhada na busca de algo. No primeiro filme, a criança concentrava em si todo o poder de ação de Saul. A simplicidade do seu gesto – a vontade plena de fazer um enterro digno à criança – faz com que uma busca lógica pelo desenrolar da narrativa seja abandonada. Na vez dessa lógica do “porquê” surge uma outra lógica, que trabalha a um nível mais direto com a imagem, a lógica dos afetos, pois, dentro de campo de concentração não existe um porquê, existe a presença abismal de um mal que tudo pretende engolir A narrativa complexa de “Anoitecer” não permite que os afetos possam iniciar a sua lógica e apareçam na tela para nos dizer aquilo que na verdade é indizível, talvez porque não haja intensidade suficiente na história para nos ser transmitida pela expressividade do rosto da atriz.

Existe uma expressão que é bastante usada na gíria do cinema, que pode resumir bem o que (não) acontece com este filme: “o filme não sai da tela”. Ouvimos muitas vezes os realizadores nos dizerem que andam à procura, nas suas imagens, dos momentos em que a imagem deixa de ser imagem para passar a ser algo novo, algo que entre em rutura com o fluxo natural da cadência de imagens. É esse acontecimento que esperamos num filme que faz um uso tão contínuo do grande plano, que solte de dentro si toda a matéria transcendente, algo que a história, por si só, não nos consegue dar. Resta-nos esperar que num próximo trabalho, o realizador húngaro faça disparar, novamente, as balas de afetos que colocou dentro do rosto de Saul; desta vez, saí da sala ileso e sem cabeça para ir atrás de uma história em que a sua complexa urdidura me deu mais dores de cabeça do que prazer intelectual.

Realização: László Nemes
Argumento: László Nemes
Elenco: Susanne Wuest, Juli Jakab, Evelin Dobos
Hungria/2019 – Drama
Sinopse
: A vida de uma jovem húngara que se torna uma mulher forte e destemida na cidade de Budapeste, em vésperas do início da Primeira Guerra Mundial.

«Anoitecer» - Quando o filme “não sai da tela”
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