“Antes que o Diabo Saiba que Morreste”, o último filme realizado por Sidney Lumet, conta a história de dois irmãos que põem em prática um plano para assaltarem a joelharia dos seus pais, mas algo não programado e que lhes foge ao controlo faz desencadear uma série de problemas e ações sem precedentes.

O filme começa bem, com intensidade, mas rapidamente cai de forma abrupta, sem justificação. Tem a característica de recorrer bastante à analepse de forma a tornar a história mais apelativa e manter o suspense até ao final do mesmo. Esta forma de contar o filme leva-nos a ter, de certa forma, a perceção e a visão de cada uma das personagens centrais da história.

Os momentos altos são muito bons, mas os momentos baixos tornam-se aborrecidos, até mesmo enfadonhos, em alguns casos, com pouca ou nenhuma dinâmica. Muitas vezes isto é apenas suportado pelo teor da história e pelas personagens. São estes os pilares que sustentam o filme. No que toca ao argumento, o filme é provido de temáticas que tornam a experiência mais rica e mais interessante. Um argumento extremamente interessante, com uma ideia perversa, que faz emergir toda e qualquer emoção que se encontrava encoberta pelo controlo racional: um homem que não olha a meios para atingir os seus fins; o seu irmão que não pensa pela própria cabeça e que é facilmente influenciável; e um pai que, após perder a mulher num assalto, completamente transtornado, deixa-se levar pela ira e pela fúria. Absurdo, mas ao mesmo tempo, real.

Com isto surge uma questão pertinente da qual é merecida uma reflexão: quão perto estamos nós da loucura? Para além desta, resultam outras: que atitudes podem ser desencadeadas quando caímos no desespero? Em que se baseia o conceito de racionalidade e qual seu limite? Ou ainda, como lidamos com o facto de não conseguirmos controlar as emoções no meio de tudo isto?

Existe um véu, muito leve, ao contrário do que se possa pensar, que cobre as emoções e, de um momento para o outro, com um pequeno sopro, esse mesmo véu levanta-se e ficam ao descoberto todas essas emoções que nos podem levar a tomar atitudes nunca antes pensadas. Como um filtro que se rompe e perde a sua essência e o seu propósito.

O estimular desta reflexão é sobretudo suscitado devido à qualidade do argumento, escrito por Kelly Masterson, mas também à interpretação por parte dos atores. As personagens estão extremamente bem construídas, cheias de conteúdo, ao que advêm extraordinários desempenhos por parte de todos. Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Marisa Tomei encabeçam um elenco fabuloso que comporta ainda as presenças de Albert Finney, Michael Shannon e Amy Ryan.

A realização é cuidada, não fosse de Sidney Lumet, embora sem surpreender, sem rasgos de imaginação, sem grande criatividade, em nada ajudada por uma banda sonora chata, aborrecida, desagradável. Insípida, quase sempre maçadora, a obra composta por Carter Burwell não faz jus à qualidade que já tinha apresentado em “Fargo” e, posteriormente, em “Três Cartazes à Beira da Estrada”. Já a fotografia, apesar de morna, vem atenuar as fragilidades que se fizeram sentir noutras partes técnicas, conseguindo até sobressair em alguns momentos do filme.

Cruel, desumano, atroz, corrosivo, fatídico, fulminante, “Antes que o Diabo Saiba que Morreste” é tudo isto. Em suma, a última longa-metragem do realizador nascido na cidade de Filadélfia fecha bem uma filmografia longa que comportou altos e baixos, mas que sempre revelou dedicação e seriedade por parte do cineasta.

«Antes que o Diabo Saiba que Morreste» – A passos largos em direção ao abismo
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