As Escolhas de Sofia

“Mas quem é a Sofia? E porquê é que interessa o que ela escolhe? A Sofia é uma amante da sétima arte, com formação em psicologia, que nos trará semanalmente uma análise idiossincrática de um filme da sua preferência. Opinião sincera e repleta de curiosidades, acerca de filmes, muitas vezes ignorados pelas luzes da ribalta, mas que de alguma forma merecem protagonismo, pelo interesse do ponto de vista psicológico, da análise do comportamento e da personalidade, e dos benefícios de os visionar. Esperamos que não fique indiferente a esta nova rubrica, e que torne as escolhas da Sofia suas escolhas também!”

O Menino de Cabul (2007) – Emoções Antagónicas Também São Emoções

“O Menino de Cabul” (The Kite Runner) é um filme baseado no best seller de Khaled Hosseini, realizado por Marc Forster (também responsável por “WWZ – Guerra Mundial” e “À Procura da Terra do Nunca”), e com argumento de David Friedman (que também escreveu o argumento de “Tróia”, “X-Men Origens: Wolverine” e mais recentemente episódios da série “Guerra dos Tronos”). Por aqui percebemos logo que é impossível não ser um filme de grande qualidade.

A verdade é que nem sei como me veio parar “às mãos”, e quando comecei a ver torci o nariz, por não ser um filme em inglês, mas mantive a mente aberta e uns segundos depois estava, como habitualmente se fica quando o material é bom, colada ao ecrã.

Este é um filme simples, que não depende de grandes estrelas, efeitos especiais ou propaganda para fascinar o público e ser acalmado pelos espetadores e pela crítica.

Inicialmente apresenta a história de Amir e Hassan, dois inseparáveis amigos, que gostam de voar papagaios de papel na cidade de Cabul em 1978, antes de a guerra tomar conta do Afeganistão. Amir (Zekeria Ebrahimi) é uma criança rica, que cresceu sobre a alçada do seu pai, Baba (Homayoun Ershadi), a quem tenta desesperadamente agradar. Hassan (Ahmad Khan Mahmoodzada) é filho do empregado da família, Ali (Nabi Tanha) que serve a família há vários anos. Estas diferenças de estatuto social pouco importam para os dois rapazes que fazem tudo juntos e constroem uma relação de grande amizade e cumplicidade.

Um dia tudo muda quando Amir trai o seu amigo ao faltar-lhe a coragem para o ajudar a enfrentar Assef (Elham Ehsas) e outros bullies que o atormentam, optando por esconder-se. Apesar de manter a sua cobardia em segredo, a culpa que sente de ter falhado para com alguém tão leal transforma-se em raiva, e vai envenenado a sua relação com Hassan, e que culmina no afastamento de ambos.

A segunda parte do filme decorre cerca de vinte anos depois, quando Amir (Khalid Abdalla), que vive agora nos Estados Unidos da América, recebe uma chamada de um velho amigo da família, Rahim Kahn (Shaun Toub) que lhe pede encarecidamente que volte ao Afeganistão para curar as feridas do passado. Amir aceita e viaja até ao Afeganistão controlado pelos Talibã, para reparar os erros que cometeu em criança e que não mais o deixaram de atormentar, procurando, de certa forma, encontrar conforto e redenção.

Não existe neste filme uma divisão entre o bom o mau, e daí o retrato tão real da humanidade de cada personagem. Todas têm características positivas e negativas que desde logo nos fazem apaixonar pelo enredo. Os atores são brilhantes, principalmente as crianças, e os cenários são fantásticos, mesmo que muitos tenham sido, na realidade, filmados na China.

É certo que ser fiel a um livro é sempre complicado, principalmente quando se trata de um best seller, contudo, acredito que esta é uma boa adaptação ao cinema da história de Amir, que apesar de sofrer as habituais modificações no decurso original, consegue manter viva a essência da sua trajetória.

Tanto o livro como o filme são fascinantes e oferecem uma visão diferente sobre as questões da religião, da guerra, da amizade e do amor. Emociona-nos mesmo sem sabermos bem porquê, e acabamos por ser assaltados por emoções tão antagónicas que temos dificuldade em perceber se estamos a gostar da história pela raiva, pela tristeza, ou pelo carinho que acabamos por construir em volta das personagens.

Fica a recomendação, para quem quiser ver um filme realmente bom, diferente do habitual, e para quem tiver mais coragem, procurar mais detalhe e emoção, o livro. Afinal, os melhores romances não são as histórias de amor entre príncipes e princesas, são aqueles que melhor espelham a realidade.

O Menino de Cabul (2007)_1