Cannes 2014 - Dia 2_1

No segundo dia de Cannes, na secção competitiva, foram projectados os filmes “Mr.Turner” de Mike Leigh e “Timbuktu” de Abderrahmane Sissako. Ambos foram bastante bem recebidos pela crítica e pelo público.

O cineasta Mike Leigh, com 71 anos, regressa pela quinta vez a Cannes, tendo já em 1996 ganho a Palma de Ouro por “Segredos e Mentiras”. O realizador regressa ao filme biográfico evocando vinte e cinco anos da vida do pintor britânico, J.M.W Turner (1775-1851). Artista reconhecido, membro apreciado embora indisciplinado da Royal Academy of Arts, e que vive na companhia do pai que também é seu assistente, e da sua dedicada governanta. Frequenta a aristocracia, visita os bordéis e alimenta a inspiração com as suas numerosas viagens. No entanto, o sucesso não o protege das eventuais críticas do público ou do sarcasmo da classe dirigente. Após a morte do pai, profundamente marcado, o Turner isola-se. A vida dele muda quando encontra a Sra. Booth, proprietária de uma pensão de família à beira mar. Interpretado por Timothy Spall, este referiu o seguinte sobre o seu trabalho de preparação na conferência de imprensa: “Para não ser ridículo no ecrã, levei tempo, dois anos, a aprender a desenhar e pintar. Trabalhei sobre as emoções dele. A relação com dele com a mãe deixaram-lhe cicatrizes no coração, ele estava repleto de anomalias emocionais, nomeadamente com as mulheres”Mike Leigh sobre a vida do pintor Turner: “Foi um grande e sublime pintor radical. Foi-me possível fazer um conteúdo interessante graças à vida de um homem tão fascinante. Um realizador deve ter uma empatia para com o tema. A vida de Turner foi dura, senti essa empatia”.

Segundo o The Guardian, “Mr.Turner” é “um filme glorioso, rico e agradável. É engraçado e visualmente impecável. Ele combina intimidade doméstica com uma varredura épico e tem uma lírica de qualidade, misteriosa que perfuma cada cena, seja trágico ou cómico”. No geral, o filme foi mais do que bem recebido com muitos aplausos na sala Lumiere. Os críticos renderam-se às prestações dos atores, ao argumento e ao poderoso visual deste filme biográfico incomum e profundo de J.M.W Turner, paisagista britânico, que colocou a primeira pedra do que se tornaria o movimento impressionista. Um forte concorrente para a Palma de Ouro.

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O segundo filme, é uma estreia absoluta de um filme da Mauritâna na seleção oficial do Festival de Cannes. Com esta quarta longa-metragem, o realizador mauritano escolhe a ficção para testemunhar um assunto da actualidade tristemente quente: o conflito do norte do Mali. O terror exercido pelos “homens vindos de outro lado” reduz as populações da África do Sara ao silêncio. Tombuctu está mergulhada no silêncio, portas encerradas, ruas desertas. Já não há música, futebol nem cigarros. Acabaram-se as cores vivas e os risos, as mulheres tornaram-se sombras. Extremistas religiosos espalham o terror pela região. Longe do caos, nas dunas, o Kidane leva uma vida tranquila com a mulher, a filha e o pequeno pastor Issan. A tranquilidade será curta. Ao matar acidentalmente o Amadou, o pescador que atacou a sua vaca preferida, o Kidane deve enfrentar a lei dos ocupantes determinados em derrotar um islã aberto e tolerante. Face à humilhação e aos maus tratos perpetuados por esses homens complexos, «Timbuktu» conta o combate silencioso e digno de mulheres e homens, o futuro incerto das crianças e a luta pela vida. Abderrahmane Sissako, acerca da génese do seu filme: “O elemento ativador foi a lapidação de um casal numa pequena aldeia do Mali. Não só porque isso ocorreu mesmo, mas sim porque ninguém fala disso”. Sobre a parte de humanidade” dos jihadistas: “Existe uma complexidade em cada ser humano, existe o mal e o bem. Um jihadista também é parecido connosco, mas a sua vida mudou. Quem maltrata pode duvidar. Para mim, existe nele uma humanidade”.

Sempre com um estilo visual muito rico e uma narrativa muito afectiva. Cannes recebeu-a com uma ovação, sendo assim a primeira grande surpresa do certame. A imprensa estrangeira ficou rendida. Para o The Guardian classificou-o de “brilhante” e o The Playlist de “poderosa, persuasiva e profunda” e outros destacaram o seu “estranho sentido de humor” e o “poder das suas imagens”.