Estreado em Cannes 2014, onde recebeu o prémio Un Certain Regard, este é o primeiro dos cinco filmes do cineasta húngaro, Kornél Mundruczó, a chegar ao circuito comercial português. Um misto de melodrama familiar, de thriller e de terror, “Deus Branco”, é ao mesmo tempo uma violenta e bela parábola, que nos comove e inquieta, deixando uma evidente crítica à sociedade e uma sátira política.

“Deus Branco” conta a história de Lili, uma rapariga de 13 anos, e do seu adorado rafeiro Hagen, que são deixados a viver com o pai da jovem. Foi criada uma lei que exige o pagamento de um imposto para quem possua um cão que não seja de raça pura. Por essa razão, muitos donos abandonam os seus animais, levando à sobrelotação dos canis e ao consequente abate de milhares de animais. O pai de Lili, que não tem uma boa relação com a filha, abandona Hagen no meio da rua. Lili procura-o desesperadamente dias e noites. Hagen, desamparado e com raiva sobre os humanos, origina, juntamente com todos os cães abandonados, uma revolta contra os que lhe fizeram mal.

O filme explora temas como a perda da inocência e a vingança, mas sobretudo pretende ser moralista e dizer-nos de uma forma fria e crua que devemos tomar uma atitude. Parece evidente que a questão das raças caninas não terem puro-sangue serem marginalizadas é uma forte referência ao nacionalismo, aos ideias nazis, que abraçam a tese de uma raça pura. São ideais que atualmente continuam a ganhar alguma força na Europa e que o realizador húngaro pretende chamar à atenção para que possamos agir contra estes ideias. O realizador consegue de forma criativa e realista passar essa mensagem usando os animais (cães) para parabolizar, sendo “Os Pássaros” de Hitchcock uma referência clara. O espectador é manipulado até ao fim, mas quer goste ou não ficará sempre incomodado com a realidade aqui fantasiada.

O filme pretende inquietar e reflectir sobre a desigualdade e as injustiças entre raças e ao mesmo tempo sobre os maus tratos aos animais. Sempre em constante movimento, a câmara raramente estabiliza, criando um ritmo acelerado que é acompanhado por uma agradável banda sonora. “Deus Branco” tornou-se numa surpresa agradável a estrear nas salas portuguesas, que não será facilmente esquecido por quem o vir.

Realização: Kornél Mundruczó

Argumento: Kornél Mundruczó

Elenco: Lili Horváth, Sándor Zsótér, Szabolcs Thuróczy, Zsófia Psotta

Hungria/2014 – Drama

Sinopse: Um conto premonitório sobre as relações entre uma espécie superior e o seu inferior caído em desgraça. Banido e traído, “o melhor amigo do homem” revolta-se contra o seu antigo mestre.

«Deus Branco» - Uma violenta e bela parábola
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