Double Bill Filmin é uma rubrica quinzenal inspirada no fenómeno da indústria cinematográfica em que as salas de cinema exibiam dois filmes pelo preço de um. Double Bill dá a conhecer dois filmes a ver na plataforma de streaming Filmin. Dois Filmes, uma Filmin.

 

O terceiro episódio do Double Bill Filmin sugere dois filmes interligados pelo conflito familiar, em que a criança é exposta ao mundo frio e violento dos adultos. Duas histórias muito reais, onde os adultos demonstram-se insensíveis e negligentes para com elas. A espanhola Carla Simón e o francês Xavier Legrand assinam as suas primeiras longas-metragens.

Verão 1993 (2017)

Este é um delicado, mas forte primeiro filme da realizadora Carla Simón, que conta a história de Frida, uma criança de seis anos que, após a morte dos seus pais, tem de adaptar-se a uma nova vida com os seus tios no campo. Este filme autobiográfico de Carla Simón é um retrato realista captado pelo olhar de uma criança inocente e, como é de esperar, sem experiência de vida, que pela sua idade a leva a questionar tudo na vida de forma a superar a morte dos pais, a encontrar um lugar onde pertencer e superar a solidão. 

Sublimes prestações das duas crianças, em especial de Laia Artigas, que nos apresenta uma interpretação natural e verdadeira, controlando de forma subtil toda uma forte carga de emoções. Emoções essas que evoluem de forma gradual e que culminam com um choro de libertação dessa dor, do peso da morte da mãe e que de quem aceitou finalmente os seus novos pais, a sua nova família. O choro libertou toda a raiva e tensão dentro dela. Um tema recorrente no cinema, mas raras são as vezes em que o vemos sob o ponto de vista da criança, de quem sofre com a morte e a solidão, evitando sempre cair em sentimentalismos.

Custódia Partilhada (2017)

Enquanto que em “Verão 1993” uma criança aprende a lidar com o sentimento de dor e de perda, em “Custódia Partilhada” ela lida com o medo de viver entre dois pais que a usam como arma de arremesso. O realizador vai direto à questão no inicio do filme. Trata-se de um divórcio que leva a uma audiência legal sobre a custódia do filho (Julien). Apesar do pai (Antoine) ser acusado de violência doméstica por parte da mãe (Miriam), a juíza decide que a custódia deve ser partilhada pelos dois progenitores. Em vez de passar tempo com o filho, Antoine não descansa enquanto não souber onde mora Miriam. Com raiva e machismo, Antoine acaba por descarregar na criança inocente e aterrorizada.

O modo como a narrativa está criada leva-nos a desenvolver uma certa empatia pelo pai, mas à medida que o filme avança começamos a perceber o porquê de todo aquele medo da mãe e da criança. Percebemos as razões da mãe em querer esconder-se a si e ao filho. O filme está construído de forma a manter o suspense até chegar ao momento da bomba-relógio (o pai). Há uma tensão que vai crescendo que se assemelha a um filme de terror. Mas isto é uma história bem real. Como se não bastasse uma criança ter de ultrapassar o processo do divórcio, é ainda submetida a violência psicológica e assiste a violência doméstica. A câmara de Legrand está isenta de artifícios e conhece muito bem o sofrimento de cada personagem, estampado nos seus rostos, sobretudo no da criança. Este drama psicológico é uma estreia em grande para Legrand no papel de realizador, que cria um drama intenso sobre uma história que é um retrato social dos nossos dias.