«Je Suis Karl» – Um guia de fascismo para totós

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Existe algo pior que um filme fascista? Sim, existe, um filme incompetente!

Um sentimento atroz perante essa inaptidão que é transpor temáticas ou ideologias (conforme elas sejam), e “Je Suis Karl”, de Christian Schwochow (por detrás de alguns episódios da série “The Crown”), é um exemplo disso mesmo. Com a escalada dos novos partidos de extrema-direita europeus, cada vez focados na camada jovem apelando-os através da empatia (redes sociais e outros recursos que auxiliam essa mesma aproximação) e com um discurso cheio de saudosismos disfarçados e estigmatização de “quem vem de fora” (a já batida cantiga dos “refugiados” como ameaça à nossa “identidade europeísta”), esta é a novela possível que tenta discursar para massas com uma linguagem leviana e romantizada para pré-adolescentes. O que acontece é que nem mesmo essa facilitação de dialeto traz consistências nas suas palavras.

“Je Suis Karl” resolve ideologias como fossem uma espécie de cultos satânicos ou de qualquer natureza que vão culminar numa atmosfera apocalíptica, é um alarmismo sem envergadura nem astúcia para pensá-la e refleti-la. Nesse ponto de vista, esta abordagem anti-extremismo “direitolas” não é tão diferente do discurso politizado dos mesmos, ou seja, faccioso e reacionário. E o próprio filme, na sua imposição fílmica e narrativa, comete erros fulcrais quanto à sua veracidade. A primeira, tendo em conta o impulsor que um ataque terrorista obtém na consciência da protagonista, é a revelação precoce do autor do mesmo, nunca deixando o espectador cavalgar nos passos da ideologia com que culto/partido nos traz, automaticamente repudiando este mesmo mundo que nas suas escolhas formais ou relacionais deseja seduzir-nos.

Depois, a falta de desconstrução para com esta máquina propagandista ou manipulatória, assim como fez o bem simpático “Die Welles – A Onda” (Dennis Gansel, 2008), ou de um jeito mais discreto e indireto, Michael Haneke no seu “O Laço Branco” (2009). Mas de uma forma resumida, é injusto condenar “Je Suis Karl” pela sua aproximação com a inconsequência dos mais jovens, mas é perfeitamente digno de uma sentença quanto à sua incapacidade de resolver exatamente isso. No fundo, a mensagem se perde e os exageros aí indiciados são motivos para uma recusa desta jornada “infantiloíde”, condescende e formalmente televisa.

«Je Suis Karl» – Um guia de fascismo para totós
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