A aproximação do 10.º aniversário da chegada de Moon – O Outro Lado da Lua aos cinemas revela-se uma desculpa tão boa como qualquer outra para a revisitação do filme de ficção científica que marcou a inauguração de Duncan Jones como realizador de longas-metragens, até então apenas conhecido por meia dúzia de anúncios publicitários, mas, particularmente, pelo laço de parentesco que partilhava com David Robert Jones, para a maioria simplesmente David Bowie.

O filme principia com um anúncio publicitário da empresa fictícia Lunar Industries Ltd (Duncan Jones possivelmente ainda continuava ligado às raízes) que esclarece de que forma a energia retirada do solo lunar serve para 70% das necessidades do planeta. Um prefácio expositivo que, feito com criatividade, arruma logo com o assunto e abre espaço aos novos eventos dispensando novos despejos de informação. Sam Bell (Sam Rockwell) trabalha na base lunar situada na face oculta da lua, a findar um contrato de 3 anos passados “sozinho”, apenas na companhia de GERTY (voz de Kevin Spacey), um computador inteligente, ainda que não tão avançado e autónomo como HAL 9000, por exemplo. Possivelmente Duncan Jones não quis arriscar em demasia os avanços científicos num filme onde até não chega a haver referência ao ano em que decorre (é confirmado por Jones na faixa de comentários que a acção se passa em 2035, portanto, atualmente a pouco mais de 15 anos de distância). De volta à sinopse, um quase desespero causado pela ausência de contacto humano leva Sam a cometer alguns erros que culminam num acidente numa saída da base. A trama, mais leve até então, adensa-se a partir desse ponto.

Géneros, em cinema, são aquelas palavras ou termos com que pretendemos categorizar e agrupar filmes, colocando-os perto dos seus semelhantes para uma mais fácil comparação e hierarquização daquilo que nessa categoria já foi criado anteriormente, quando, na verdade, apenas servem para não deixarmos que o filme brilhe por aquilo que é sem a necessidade de classificações. Qualquer cineasta que experimente o género de ficção científica tem o fardo, provavelmente mais do que nos restantes géneros, de estar sujeito às comparações com as obras seminais desse grupo. Dizia Danny Boyle, aquando da estreia do seu filme “Missão Solar”, dois anos antes de “Moon”, quequalquer local para onde nos viremos, eles estão lá, qualquer ideia imaginativa que acharmos que possa surgir, eles já o fizeram. “Moon”, no entanto, não esconde as suas influências, desde um punhado de imagens e referências ao já comentado “2001: Odisseia no Espaço”, “Solaris”, “Blade Runner: Perigo Iminente” ou até à “Space Oditty”, de David Bowie, com que Duncan Jones provavelmente cresceu. O realizador britânico consegue reconhecer que (palavras do próprio) não se pode fugir às referências do género, não as considerar seria não ser sincero, só nos resta aceitá-las e abraçá-las.

Ainda assim, “Moon” consegue arranjar algo de novo para exprimir, ou, pelo menos, uma nova forma de o fazer no género da ficção científica, por vezes até jogando com expectativas já enraizadas, algo que lhe dá acesso a um lugar, ainda que num plano mais recuado, no meio de outras grandes referências não só da classe de ficção científica (sempre dependente da tecnologia da altura para que se possa dizer que é ficção), mas também do cinema moderno. Não investe, contudo, as fichas todas no capítulo dos efeitos especiais que, fruto de um pequenino orçamento de cerca de 5 milhões de dólares, chegaram apenas para cumprir o objectivo. e embora “Moon” esteja a celebrar já dez anos de vida e não seja correcto proceder a comparações da tecnologia da altura com a actual, é de lembrar que no mesmo ano estreou “Avatar”. Produções de diferentes dimensões, é verdade, mas fica a anotação.

O filme de Duncan Jones não foi uma estreia grandiosa em 2009, não se preocupou com futuras vendas de merchandising nem com a ideia de mediatismo. A sua grandiosidade reconhecida posteriormente adveio da existência de um conceito que despertou a curiosidade dos novos espectadores para se debruçar numa crítica a uma sociedade onde vale tudo e em que o alvo primordial é a contenção de custos e a maximização do lucro. Pode ser vista, no fundo, como uma crítica a um regime capitalista mascarada de filme de ficção científica, que até nem precisa de o ser, por não ser o âmbito lunar do filme que cria o drama, mas sim os conflitos internos com que Sam se vai deparando e que são inerentes ao ser humano. “Moon” tem o efeito de colocar o espectador a responder a perguntas difíceis, mas nem necessita de o questionar explicitamente. Todos nós estamos presos, seja numa nave espacial ou na rotina criada por nós. A libertação começa com o questionamento.

Em última instância, “Moon” apresenta-se como um pequeno passo para o Homem conseguir perceber algo que, se milhares e milhares de anos não chegaram, possivelmente outros muitos milhares não serão suficientes, mas não custa tentar. Resta continuar a questionar: o que é que nos faz ser humanos?

Realização: Duncan Jones
Argumento: Duncan Jones
Elenco: Sam Rockwell, Kevin Spacey, Dominique McElligott
EUA/2009 – Ficação Cientifica
Sinopse
: A 950 mil milhas de casa, o mais difícil de encarar somos nós próprios… Num futuro próximo, o Astronauta Sam Bell é enviado numa missão de três anos para o outro lado da Lua com o objectivo de vigiar uma mina de Helium-3, um químico que se tornou a principal fonte de energia no planeta Terra. A sua base lunar perdeu a comunicação com a Terra, deixando-o completamente isolado. Felizmente, o seu contrato está quase a acabar e em breve regressará a casa para junto da sua amada mulher Tess e da pequena filha Eve. Mas Sam sofre um estranho acidente e descobre um segredo que coloca o futuro em questão.

«Moon - O Outro Lado da Lua» – Aprender a conviver com o passado
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