Convidada do 17º DocLisboa, Sofia Bohdanowicz é uma realizadora e roteirista experimental de Toronto (Canadá) que esteve na capital portuguesa para apresentar toda a sua obra, que inclui 11 filmes, sendo o mais recente “MS Slavic 7” (2019).

Nesta longa de 64 minutos, em que divide realização, argumento, montagem e produção com a atriz Deragh Campbell, Sofia segue a linha de seus trabalhos anteriores ao buscar entre antepassados histórias de mulheres inspiradoras. É cinema de baixo orçamento, com meios limitados, mas singelo em sua ambição.

O título “MS Slavic 7” deriva de uma coleção na Biblioteca Houghton, principal repositório de livros e manuscritos raros da Universidade de Harvad, que inclui correspondências realmente trocadas entre Zofia Bohdanowiczowa, bisavó de Sofia, e o poeta polaco Józef Wittlin, nomeado ao Nobel.

A personagem ficcional Audrey Benac é uma espécie de alter-ego criado por Campbell e Bohdanowicz que surgiu em “Never Eat Alone” e também está na curta “Veslemøy’s Song”. Ela tenta decifrar as entrelinhas das cartas da bisavó e exercer sua responsabilidade como testamenteira literária. Os avós de Audrey eram polacos e emigraram para o Canadá durante a Segunda Guerra Mundial.

Um flashback mostra certa desconexão entre gerações quando Audrey confronta-se com uma tia que a questiona se isso é um hobby ou se ela está interessada apenas no dinheiro.

Sofia, que já declarou ter o cinema de Chantal Akerman e de Barbara Hammer como inspiração, filma materiais tão frágeis, como a letra pequena da bisavó, para mostrar como ela se organiza em torno desse património. É um esforço intelectual tremendo querer se reaproximar da história da família e poderá não chegar numa conclusão. Com isso, Sofia ressalta a importância dos arquivos, dos registos familiares, principalmente em relação às mulheres idosas. Matriarcas, que pouco ouvidas, acabam esquecidas.

«MS Slavic 7» - é preciso contar as histórias das matriarcas
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