DON'T LOOK UP (L to R) JONAH HILL as JASON ORLEAN, PAUL GUILFOYLE as GENERAL THEMES, MARK RYLANCE as PETER ISHERWELL, MERYL STREEP as PRESIDENT JANIE ORLEAN. Cr. NIKO TAVERNISE/NETFLIX © 2021

“Não Olhem para Cima”: a violência de um cometa sem impacto

O olhar mais optimista perante a convocatória satirizada de Adam Mckay a pedir que Não Olhem para Cima – porventura não haverá entidade transcendente que nos salve, seja essa entidade Deus ou a Ciência -, poderá até encontrar um olhem para o estado da nação aqui retratada nestes tipos. Quem são os tipos, são as personagens-tipo que expressam “o rei vai nu” de uma sociedade pós-moderna e de pós-verdade. Noutras palavras, ficciona-se a vinda de um cometa destruidor do planeta Terra e ninguém parece acreditar. Se desnudarmos esse ‘ninguém’ chegamos aos tipos das personagens, a saber, chegamos às mais claras causas de tamanha descrença e essas causas são: uma Meryl Streep na figura de Donald Trump, um Jonah Hill na figura de Ivanka Trump, e um Mark Rylance na figura de Mark Zuckenberg. Dito por outras palavras, as causas são o controlo e o marketing em que a mercantilização do conhecimento e do poder político caíram, e, consequentemente, a hegemonia do capital tecnológico e digital que ditam a lógica do lucro por oposição à informação e à transparência. Moral da história (não necessariamente a do argumento do filme): tudo é passível de consumo, até mesmo a verdade.

Tais personagens-tipo são, assim, as figuras-causas que encarnam com total evidência o clima social de pós-verdade.

Contudo, na tentativa de construção de um argumento assente na satirização de tais figuras-causas da pós-verdade, essa evidência é tudo menos sinónimo de transparência. O problema deste argumento-sátira é o seu raciocínio circular:  ao tentar satirizar os tipos, o filme torna-se ele mesmo um cliché vazio de reflexividade.

O alerta do filme é por demais urgente, isto é, perante todas as evidências, a sociedade não se limita a desconfiar, a duvidar ou até mesmo a negar os factos, ela desacredita ao ponto de rejeitar formar uma crença que parece fundamentada e, acima de tudo, iminentemente salvadora da humanidade. Sabemos que o que caracteriza a pós-verdade é não definirmos mais a construção da verdade pela descrença, mas também pela assumpção de que a crença (no sentido científico) não conduz determinantemente à verdade, pois que não há Verdade, antes verdade(s).

Estamos longe da implosão epistemológica da dúvida cartesiana, e não havendo nada de estrictamente racional para justificar a falta de adesão aos factos, resta a frustração. Esta frustração é retratada no filme como irritação (e não como fúria, o que seria uma forma cheia e reflexiva de apontar um caminho para fora do alerta que Mckay nos traz). O problema maior é essa irritação estar ao serviço da configuração das personagens femininas, como se, ser mulher fosse símbolo de instabilidade e fraqueza, note-se uma Cate Blanchett (na pele de Brie Evantee) alcoolizada e carente perante a chegada do cometa, e note-se, ainda, uma Melanie Lynskey (na pele de June Mindy) histérica perante a traição do marido cientista e submissa ao perdão de o ter de volta. Note-se, ainda mais, o colapso nervoso de uma Jennifer Lawrence (na pele de Kate Dibiasky) que, perante a incapacidade de transformar o mundo, resigna-se ao anonimato e à fugacidade das relações. 

A frustração consubstanciada nas personagens femininas contrasta, todavia, com a figura de um Leonardo DiCaprio (na pele de dr. Randall Mindy), o homem-cientista que se permite a possibilidade de fama e de ribalta, para só depois reconhecer a essência vital da família nuclear.

Em suma, o filme fica-se pelas causas do mal inerente à nossa sociedade na contemporaneidade, e vagamente, sem nunca perspectivar as reais consequências. Assim sendo, a questão deixou de ser o típico filme americano em que, no fim, o herói (sempre americano) salva o mundo. Mckay aqui tem razão: também vivemos a pós-salvação. Já não há a garantia da salvação, a Ciência pode tentar e deve tentar, ainda que o humano não se reduza mais ao científico e ao fisiológico. Então, que filme poderia ser este sobre a ameaça de um cometa extintor da humanidade, poderia ser aquele que expõe, reflexivamente, as feridas e as fragilidades  da nossa inscrição no mundo perante a possibilidade (probabilidade forte até) de finitude irremediável.

Todavia, acontece que Não Olhem para Cima nem sequer olha para dentro, e muito superficialmente olha para fora, já para não dissertar acerca da incapacidade, neste filme, de olhar o dentro-no-fora, e o fora-no-dentro (que não são meros jogos de palavras). Na escassez de reflexividade e de almejar a reciprocidade, dão-se umas risadas, o cometa sempre chega, dá-se o impacto e a destruição, e nós desligamos do ecrã sem qualquer impacto.

 

Este texto não foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico

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