«Se o Romeu tivesse os olhos de um falcão, provavelmente não se apaixonaria por Julieta, porque os olhos dele veriam uma pele que, provavelmente, não seria agradável de ver. Porque a acuidade visual do falcão – cujos olhos o Romeu teria não mostraria a pele humana tal como nós a vemos.» – José Saramago, in documentário “Janela da Alma” (2001), de João Jardim e Walter Carvalho

Vinte e Cinco ano após a estreia de um dos mais aclamados filmes de animação, renasce hoje, numa versão tão esbatida, que quase nem nos apercebemos da sua existência. Lembro-me de, em criança, acordar mais cedo para ligar a televisão, nos vários canais, onde sabia que iam passar desenhos animados; mais tarde, depois de algumas noitadas de Sábado, acordava mais tarde, e assim que descia as escadas para almoçar, começava a ouvir a inconfundível voz de Eduardo Rêgo a descrever os habitats e a vida das espécies selvagens que os habitam. Quando vi o mais recente “O Rei Leão”, de Jon Favreau, tive a impressão de que, tinha acordado depois de uma noitada de Sábado e que, ao Eduardo Rêgo, na vez de lhe darem o guião de mais um episódio sobre a vida animal, tinham trocado, por acidente, pelo guião criado por Irene Mecchi, Jonathan Roberts e Linda Woolverton.

A minha nostalgia encontrou aí uma barreira intransponível. A minha infância ficou inacessível por essa estranheza que reside entre as imagens hiper-realistas de animais inexpressivos e a constelação de vozes que, supostamente, lhes deviam dar uma vida(com forma humana). É nesse intervalo vazio que a nossa memória é obrigada a trabalhar, sob pena de se destruir toda a magia que existe nas nossas memórias da experiência do filme de 1994. Ao perguntar a mim mesmo sobre a possibilidade de este remake realista agradar aos espíritos mais nostálgicos, não encontro outra resposta senão este filme provocar uma reminiscência, uma lembrança pálida, quase inconsciente, desse velho clássico da animação que marcou uma geração.

Talvez seja um pouco como a nossa procura por ver, de novo, aqueles que já não se encontram entre nós. Por vezes, uma foto, por mais esbatidos que os seus contornos nos apareçam, o nosso cérebro aliado a uma intensa emoção, consegue reconstruir essa imagem desgastada pelo tempo, até nos seus mínimos detalhes. Aqui, a lógica inverte-se. Não que aquilo que vemos seja tão completo e definido que o nosso coração nem necessite de ir buscar memórias à infância; pelo contrário, o excesso de definição pode subverter a nossa memória, corromper a identidade dessas imagens que guardamos com todo o carinho, algures, dentro nos nossos mais preciosos baús da memória, os da infância. O excesso de realismo vem soprar a poeira que se acumulou em cima desses baús piratas, que contêm toda a magia que roubamos de dentro das telas, impedindo-os de projectar em nós todo esse brilho absorvido, como as moedas de ouro que se refletem no olhar de quem os abre. Neste filme, estamos numa outra dimensão e os baús são outros: aqueles onde vão parar as “moedas” que pousamos no balcão da bilheteira. A magia que lembramos reside nos contornos de cada desenho, nos traços antropomórficos de cada personagem. Se a Disney continuar neste processo – que já conta com filmes como “Cinderela”, “Aladdin” ou “A Bela e o Monstro” -, talvez acabemos por ver o seu símbolo máximo, o Rato Mickey, numa versão realista, estampado numa t-shirt ou num estojo. Não tem como esta substituição não nos parecer estranha e absurda.

Querer realismo é inverter o processo de criação. Aqueles que deram origem a todos os desenhos que vemos na animação, tiveram como ponto de partida a mesma realidade que todos experienciamos; porém, a sua originalidade está precisamente em como esses artistas deram uma nova forma aos animais, superaram essa realidade, e lhes deram um novo ser. Neste sentido, o filme de Jon Favreau faz um retrocesso, apagando todos esses traços criativos que davam beleza e vida às personagens. Favreau confiou que, a reminiscência do clássico mais um conjunto de vozes belas, sonantes e competentes poderia fazer esquecer o filme que estamos a ver e dar aos espectadores a sensação de que essa reminiscência é o filme; porém, a reminiscência não é o filme, é um meio material que desperta uma memória que existe em nós, mais ou menos adormecida.

A estética é sacrificada em favor de uma imagem que quer imitar o real. E, com isto, sacrifica-se também a beleza e a magia. Assim, o filme de Favreau foge completamente à essência de qualquer filme de animação: o imaginário, a abstracção da realidade em favor de um outro mundo, que não está submetido a nenhuma das leis do mundo real. Imaginário vem de imaginação, e esta fica amarrada ao realismo dos animais, sem conseguir soltar-se para lá dessa realidade. As bocas que abrem e fecham sincronizadas com vozes humanas não chegam. Mesmo quando o objectivo é tornar real um filme de animação, ele só funcionará se essa essência permanecer: só quando as leis do mundo real e físico são extrapoladas é que pode nascer o mundo imaginário e a fantasia.

A experiência é arruinada por esse desencontro entre imagem e palavra, entre a expressividade e a voz. A emoção fica presa nesse intervalo vazio que impede a fluidez, não apenas das personagens, mas de toda a história, principalmente nos momentos musicais. A realidade é limitadora de um mundo que se quer ilimitado: Scar pode perfeitamente abocanhar Zazu e cuspi-lo, de seguida; Mufasa e Sarabi podem olhar-se com ternura e sorrir perto da sua cria. Tudo isso se perde na ambição realista que leva ao tecnicismo da computação gráfica, quando o mundo infantil é tão simples. O filme torna-se tão só um simulacro vazio, uma sobreposição de realidades, em que, aquela que vemos só pode subsistir se existir ainda algo em nós que possa funcionar como o seu pilar de sustentação. Saí do cinema mais melancólico do que nostálgico, com o meu espírito a pedir para rever o clássico, para esconder um pouco esse silencioso sentimento de tristeza, que se vai, em nós, com o tempo, aprofundando.

Realização: Jon Favreau
Argumento: Jeff Nathanson, Brenda Chapman
Elenco: Donald Glover, Beyoncé, Seth Rogen
EUA/2019 – Animação
Sinopse
: Simba é um jovem leão cujo destino é tornar-se o rei da selva. Tudo corre bem, até ao dia em que uma grande tragédia se abate sobre o seu mundo e altera o seu destino. A nova versão de um clássico dos desenhos animados que marcou a década de 1990 e as gerações seguintes de pais e filhos.

 

 

«O Rei Leão» - Da nostalgia à melancolia
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