No início do século XX, Marcel Duchamp no seu ready-made Fountain inscreve a assinatura R. Mutt, levantando o problema da autoria, autenticidade e originalidade de uma obra, entre outras questões, como o papel do crítico ou do público, problemáticas discutidas ainda hoje. Assim, surge precisamente e polemicamente bem retratada em Grandes Olhos, não os juízos de falso ou verdadeiro, mas a ideia de fraude e autêntico.

“Olhos Grandes” [Big Eyes] conta a história verídica de Walter e Margaret Keane, marido e mulher, personagens fortes, convincentemente interpretadas por Christoph Waltz e Amy Adams. O êxito económico foi a forma de Walter convencer Margaret que os seus quadros se venderiam mais se fosse o seu nome, de figura masculina, a dar a “cara” pelas obras pintadas pela sua mulher artista, que retratam crianças desamparadas, inexpressivas ou perdidas por detrás dos grandes olhos nos enigmáticos rostos magicamente filmados por Tim Burton. Realçando as cores vivas, mas mantendo igualmente um tom esbatido da cidade de São Francisco nas décadas de 50 e 60, encontramos aqui o mesmo universo de um filme anterior do realizador, “O Grande Peixe”. Apropriando-se da autoria dos quadros, Walter constrói um ambiente comercial e publicitário em torno do seu nome, Keane, e de centenas de obras que não pinta.

O espaço-ateliê de Margaret vai ocupando um lugar mais destacado ao longo do filme, dando-lhe uma primazia cada vez maior à medida que a narrativa avança e que se encontra confinado a um espaço sempre pequeno, apertado, fechado, claustrofóbico; é realçado igualmente o espaço expositivo, que cresce progressivamente à medida que Walter estabelece mais contactos para promoção das pinturas.

A mudança e evolução da personagem de Margaret é notável, num crescendo de coragem, lutando contra uma sociedade que esmaga e reprime a mulher. Margaret transpõe todos os obstáculos, culminado a sua luta numa vitória.

Tim Burton critica novamente uma América tradicional e repressiva, contudo bastante afastado das suas fábulas e fantasias, desde o último “Frankenweenie” ou “Charlie e a Fábrica de Chocolate” (2005), até ao primeiro filme, “A Grande Aventura de Pee Wee” (1985), passando pelas deambulações góticas de Gotham City com “Batman” (1989 e 1992), “Eduardo Mãos de Tesoura” (1990) ou ainda a curiosa comédia-ficção científica “Marte Ataca!” (1996). O único filme de Burton que aborda também a biografia de um artista, o fracassado realizador “Ed Wood”, é não surpreendentemente partilhado pelos mesmos argumentistas de “Grandes Olhos”.

Com música original da melancólica Lana del Rey, a estreia do novo filme de Tim Burton merece uma atenção especial, por criar fortes emoções no espectador. “Grandes Olhos” é um filme sobre como Ver. Sobre a Mulher. Sobre a Criação e a Arte.

Realização: Tim Burton

Argumento: Tim Burton

Elenco: Amy Adams, Christoph Waltz, Danny Huston, Jason Schwartzman, Krysten Ritter, Terence Stamp

EUA/2014 – Biografia

Sinopse: No final dos anos 1950 e início dos anos 1960, o pintor Walter Keane tinha alcançado um sucesso inacreditável, revolucionando a comercialização da arte popular com as suas pinturas enigmáticas de crianças com olhos grandes. A bizarra e chocante verdade acaba, no entanto, por ser descoberta: as obras de Walter não tinham sido criadas por ele, mas pela sua mulher, Margaret. Os Keane viviam até então uma grande mentira com a qual enganavam o mundo…

«Olhos Grandes» – A verdade na mentira
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