Querido Diario - Edição Cineclubes

“Querido Diário: Edição Cineclubes” é uma rubrica original dos criadores do Cinema 7ª Arte que remete o leitor para uma viagem de vespa por Portugal fora, numa demanda dos cineclubes ainda ativos. De cidade em cidade, iremos conhecer cada cineclube e os seus nativos que se esforçam por partilhar a paixão pela sétima arte.

 

Guimarães, cidade histórica e berço da nação. Terra de conquistadores. Com um grande património foi em 2012 nomeada Capital Europeia da Cultura (CEC). Antes de mais, obrigado por nos receberem em Guimarães. Comecemos pela fundação do cineclube, em 1958, em pleno regime do Estado Novo.

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(Foto: Cinema em Concerto. Produzido pelo Cineclube de Guimarães e pela Banda Filarmónica de Pevidém)

Legenda: C7A – Cinema 7ª Arte / CCG – Cineclube de Guimarães

C7A: Qual a necessidade da cidade ter criado um cineclube e quais as dificuldades sentidas na altura?

CCG: A criação do Cineclube de Guimarães (CCG), Maio de 1958, como com certeza muitos outros Cineclubes, correspondeu à necessidade de divulgar e promover a arte cinematográfica nesta cidade, onde, à época, existia apenas uma sala comercial com uma programação pouco criteriosa. Também se procurou constituir um grupo cinéfilo, que não existia em Guimarães. 

C7A: O público adere com facilidade à vossa programação? Vocês criam uma programação pensada em exclusivo para o público?

CCG: Dentro do público habitual nas nossas sessões, encontramos diversas opções estéticas em termos de escolhas cinematográficas. A nossa programação não tendo como critério primeiro o público, mas sim os filmes, diferencia a exibição dos mesmos conforme são exibidos às Terças, Quintas ou Domingos. 

C7A: É dificil para vocês criar uma programação de cinema mais independente e com clássicos do cinema, sem que não apareça muito público?

CCG: Como atrás fica dito, nos nossos associados encontramos gostos diferentes, logo escolhas cinematográficas igualmente diferentes. Considerando o grau de popularidade do filme, recente ou antigo, temos mais ou menos público, sem que isto ponha em causa um número considerável em todas as sessões. 

C7A: Costumam passar algum cinema português?

CCG: O cinema português, é na maioria dos casos, exibido quase exclusivamente pelos Cineclubes. Exceptuando, obviamente, os raros fenómenos de popularidade do nosso cinema. 

C7A: Atualmente, em época de muita crise, onde as pessoas tem menos dinheiro para ir ao cinema, como conseguem gerir as contas do cineclube?

CCG: O elevado número de associados tem-nos permitido autonomia financeira no que respeita a aluguer de filmes. Para além dos sócios que frequentam as sessões regularmente, temos muitos outros que, não indo às sessões, continuam fielmente a pagar as suas quotas, o que sabemos ser um reconhecimento da actividade da nossa associação, apesar de raramente dela usufruírem – embora sejam informados através do boletim mensal enviado pelos correios, das vitrinas de rua com a programação e da página na internet. 

C7A: Qual a importância deste cineclube para a cidade de Guimarães e qual a importância dos cineclubes hoje na sociedade?

CCG: A importância do CCG para Guimarães não será muito diferente da importância que todos os outros Cineclubes tem  para as respectivas cidades. Isto é, exibem cinema em contexto cinéfilo, mesmo quando exibem cinema dito comercial, criando deste modo uma atitude em relação à arte cinematográfica bem diferente das salas comerciais, incluindo aquelas que tem uma programação um pouco mais cuidada. 

C7A: Sentem falta de apoios do estado ou das câmaras municipais para os cineclubes?

CCG: Os apoios, no nosso caso a cedência de sala a um custo menor, não suportam a maior parte das despesas da nossa actividade. Consideramos que os cineclubes para serem fortes e o mais autónomos possível devem ter um universo associativo numeroso e fiel. Sendo os outros apoios, da autarquia ou do ICA, meros complementos do seu orçamento.

C7A: Acham que deveria haver uma maior relação de parceria entre outros cineclubes do país?

CCG: Sim. No entanto, a questão é antiga e de difícil resposta na prática dada a exiguidade de recursos financeiros e também a disponibilidade pessoal (porque não profissional) dos dirigentes para promoverem essa aproximação.

C7A: Em 2008 o cineclube assinalou o 50º aniversário de existência. Este ano comemoram 55 anos. São hoje um dos cineclubes mais antigos do país. Sente pressão ou alguma responsabilidade pelos anos de experiência que esta instituição tem?

CCG: O CCG não tem sido um espectador passivo do seu “envelhecimento”, pelo contrário, procura transformar essa antiguidade em saber que permita uma gestão inteligente e atenta do seu próprio espaço e tempo

C7A: Em 2012, a vossa atividade ficou marcada por ser o ano da Capital Europeia da Cultura (CEC). Qual a importância do CEC para o cineclube e o que mudou depois disso?

CCG: A convite da autarquia elaborámos, em conjunto com o Rodrigo Areias, a candidatura da área de cinema para ser apresentada em Bruxelas. Na sequência dessa participação, ao que nos foi dito satisfatória, integrámos o conjunto de instituições locais que trabalhou directamente com as áreas de programação de Guimarães 2012. Poder-se-á dizer, sem imodéstia, que o papel do Cineclube foi amplamente reconhecido quer pela Fundação Cidade de Guimarães, quer pela comunidade vimaranense em geral. O Cineclube, obteve assim um maior reconhecimento do que já possuía. Todavia, o balanço sendo no geral positivo, foi claramente manchado pelo não cumprimento da promessa de ser entregue ao Cineclube o projector digital de cinema adquirido pela Capital Europeia da Cultura. Este facto associado ao custo de sala que passamos a ter em 2013, são inequivocamente contraditórios com o que publicamente é elogiado o nosso papel.

C7A: A música, em especial o Jazz, esteve sempre ligado ao cineclube de Guimarães. Como surgiu, e porquê, a iniciativa “O Jazz no Cinema”?

CCG: O Jazz no Cinema constituiu um desafio da Associação Convívio ao qual o Cineclube acedeu com todo gosto, retomando os seus ciclos mais ou menos frequentes associados à temática musical. A nossa colaboração ainda que não constante com o Guimarães Jazz já vem dos primórdios deste festival. 

C7A: O cineclube só vive da dedicação e trabalho dos voluntários?

CCG: O CCG, ontem como hoje, vive exclusivamente da dedicação, do trabalho voluntário dos seus dirigentes e de outros sócios. 

C7A: Película ou Digital?

CCG: Tecnicamente, temos a tecnologia disponível para o digital e para a película (35 mm ou 16mm). O importante é sempre a qualidade da cópia. Obviamente o digital não tem o desgaste da película.

C7A: Um dos principais objetivos de um cineclube é o de discutir e refletir sobre cinema. Acha que os cineclubes hoje tem cumprido essa missão, para além da simples exibição?

CCG: A reflexão e a discussão estão a ser progressivamente arredadas da prática social. O CCG tenta resistir a esta tendência generalizada (e alimentada…) criando as suas pequenas tertúlias cinéfilas, que procuramos estimular recorrendo também com alguma regularidade a convidados para apresentar alguns dos filmes dos nossos ciclos. 

C7A: Espaço “Mensagem do Presidente”: (este espaço é oferecido ao presidente do cineclube para deixar uma pequena mensagem aos sócios/voluntários/público em geral. É um espaço livre e da inteira responsabilidade do presidente.)

CCG: O cineclubismo é uma das formas possíveis de associativismo. E este é o principio de que temos que partir quando se constitui um cineclube. A sua força vem do número de sócios e da qualidade da sua prática cultural. E esta última poderá ser posta em causa se não for sustentada num comunidade cinéfila forte, unida e crítica ( para dentro e para fora). Neste tempo de resistência cultural ( e não só…) devemos pugnar pela afirmação clara e inequívoca de que também é pela cultura que conseguimos um real progresso da sociedade. Não há sociedades desenvolvidas que não sejam obrigatoriamente cultas. É fundamental que os cidadãos, organizados associativamente ou não, não se deixem remeter a um mero papel de espectadores/consumidores do que outros decidem. Por isso, o cineclubismo e o associativismo em geral podem garantir quer no plano social e afectivo um enquadramento de participação que garanta condições de dignidade aos cidadãos. 

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Querido Diario - Edição Cineclubes - #5

Próxima paragem: Cineclube de Ponta Delgada

Uma ideia original de

Cinema 7ª Arte

Texto de

Tiago Resende

Revisão de

Eduardo Magueta