Querido Diario - Edição Cineclubes

“Querido Diário: Edição Cineclubes” é uma rubrica original dos criadores do Cinema 7ª Arte que remete o leitor para uma viagem de vespa por Portugal fora, numa demanda dos cineclubes ainda ativos. De cidade em cidade, iremos conhecer cada cineclube e os seus nativos que se esforçam por partilhar a paixão pela sétima arte.

 

Chegamos aos Açores, em particular à ilha de São Miguel. Congelados pela beleza natural da ilha e pelas suas grandes lagoas fomos depois visitar a capital, Ponta Delgada. Com o objectivo de passar algum cinema alternativo na ilha, foi fundado em 2010 o 9500 Cineclube de Ponta Delgada.

Legenda: C7A – Cinema 7ª Arte / CCPD – Cineclube de Ponta Delgada

C7A: O que motivou a criação de um cineclube na ilha de São Miguel?

CCPD: Com a abertura das salas da Castello Lopes em Ponta Delgada, em 2003, todas as outras salas existentes na ilha de S. Miguel foram encerrando uma a uma. Hoje são igrejas, clínicas ou supermercados…

As últimas a encerrar, em 2009, foram as 2 salas do Cine-solmar que, embora com vínculo contratual com as grandes distribuidoras, resistia por privilegiar uma programação de qualidade. Após o encerramento, a administração do centro comercial onde as salas ficam localizadas, convidou um grupo de pessoas para apresentação de propostas para dinamização cultural de uma das salas com total usufruto do espaço e do respectivo equipamento. A oportunidade de dispor de um espaço com todas as condições para exibição cinematográfica, a existência de um significativo número de pessoas com interesse na área e a necessidade de divulgação e promoção da arte e cultura do cinema numa região com grandes carências estão na génese da criação do 9500 Cineclube.

C7A: São um cineclube muito jovem e no entanto são já um dos mais ativos do país e com melhor programação. Como explicam este rápido crescimento e adesão da população local à vossa iniciativa?

CCPD: A dinâmica da nossa actividade está directamente relacionada com a grande adesão da população local interessada numa oferta de cinema alternativa à existente nas salas comerciais.

C7A: No inicio deste ano os Açores viram os seus cinemas, dos centros comerciais da Sonae Sierra, encerrarem. Os cinemas Castello Lopes encerraram em Ponta Delgada e muitas outras cidades do continente. Uma cidade privada de cinema, pelo menos do cinema multiplex. De que maneira isto tudo afecta o vosso cineclube? Ganharam mais público, por serem os únicos a exibir cinema ou nem por isso?

CCPD: Após o encerramento da Castello Lopes notamos um ligeiro aumento de público que foi desaparecendo com a percepção de que não estava nos nossos objectivos desviar para uma programação com o género de filmes das salas encerradas. Actualmente, as salas já reabriram com a Cineplace.

C7A: O público adere com facilidade à vossa programação? Vocês criam uma programação pensada em exclusivo para o público?

CCPD: A nossa programação é pensada em função dos objectivos do 9500 cineclube de divulgar o cinema e utilizá-lo como instrumento de formação e cultura. O 9500 Cineclube tem um público muito fiel que adere bem à nossa programação.

C7A: É difícil para vocês criar uma programação de cinema mais independente e com clássicos do cinema, sem que não apareça muito público?

CCPD: É cada vez mais difícil programar cinema em Portugal.

C7A: Costumam passar algum cinema português?

CCPD: Sim, em mais de 50% das nossas sessões exibimos obras de cinema português.

C7A: Atualmente, em época de muita crise, onde as pessoas tem menos dinheiro para ir ao cinema, como conseguem gerir as contas do cineclube?

CCPD: O 9500 Cineclube é apoiado por várias entidades locais através da criação de programação de cinema para situações específicas. O facto de dispormos de uma sala sem qualquer custo associado e do trabalho voluntário da equipa facilita o equilibrio financeiro.

C7A: Costumam fazer sessões de cinema em outras ilhas dos Açores, como se fosse uma extensão do cineclube de Ponta Delgada?

CCPD: Já organizamos sessões em 7 das 9 ilhas dos Açores, brevemente iremos às 2 ilhas em falta.

C7A: Qual a importância deste cineclube para a cidade de Ponta Delgada e qual a importância dos cineclubes hoje na sociedade?

CCPD: Os cineclubes retomam a sua posição de outrora e são da maior importância para as pequenas cidades privadas de qualquer tipo de exibição cinematográfica ou com exibição orientada no sentido mais comercial, contribuindo de forma muito significativa para a descentralização deste bem cultural.

C7A: Sentem falta de apoios do estado ou das câmaras municipais para os cineclubes?

CCPD: Os apoios nunca são suficientes para tudo aquilo que pretendemos/devemos fazer…

C7A: Acham que deveria haver uma maior relação de parceria entre outros cineclubes do país?

CCPD: Sim a relação entre os cineclubes nacionais e internacionais deve ser fortemente reforçada. A FPCC tem trabalhado bem nesse sentido.

C7A: Película ou Digital?

CCPD: Sempre no melhor formato possível. Cada vez menos película, quer por motivos de distribuição quer pelos custos associados. Só para transporte de uma cópia em 35mm para os Açores são cerca de 170€!

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Querido Diario - Edição Cineclubes - #6

Próxima paragem: Cineclube de Viana do Castelo

Uma ideia original de

Cinema 7ª Arte

Texto de

Tiago Resende

Revisão de

Eduardo Magueta