O primeiro encontro com o filme de Hirokazu Kore-eda “Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões” (Manbiki Kazoku) é aparentemente o que o título ilustra, mas esta família é profundamente mais densa e complexa do que o mesmo sugere.

Osamu (Lily Franky) e Shota (Jyo Kairi) encontram-se num supermercado para adquirirem os bens necessários para o jantar. Contudo, estas aquisições não se efetuam através da compra, apenas desaparecem no espaço vazio da mochila azul de Shota, isto porque “estes produtos não são de ninguém até serem comprados” e “não é roubo se a loja não for à falência.”

Esta e outras construções ficcionais galardoaram o filme com a Palma de Ouro e transportam-nos para um espaço em que se questionam as crenças e preconceitos sobre o que compõe uma família.

Na verdade, a unidade familiar do filme é o outro lado do espelho de uma sociedade que é bastante mais fria do que ela, porque não resolve o seu problema, nem a mesma espera que o faça. Encontrando a sua própria forma de sobrevivência, suprem a sociedade, porquanto se amam, cuidam e educam num ambiente de interdependência em que se reconhecem como sendo mais fortes enquanto unidade.

Esta inversão de papéis é personificada no resgate, ou rapto, dependendo de que lado da barricada se encontra o espectador, de Yuri, a menina negligenciada que simboliza precisamente essa terra de ninguém que é a família.

É difícil esta análise sem revelar demasiado sobre o filme, mas tal não será necessário; os primeiros minutos do filme desvendam este dilema. Após a cena do roubo no supermercado, Osamu compra croquetes para Shota, comendo-os alegremente na viagem para casa, a qual culmina com o encontro com Yuri e com a partilha do saque diário com a família: a companheira (Sakura Ando), a meia-cunhada (Mayu Matsuoka) e a avó (Kirin Kiki), que sustenta a família.

As personagens são o close-up, são o olhar, são as intenções que revelam através da matreirice da avó ou da empatia de Aki através do espelho de um peep show.

O filme é permeado por cores vivas e quentes pautadas por cores frias e delicadas com uma musicalidade que ilustra a qualidade e o calor dos laços que unem, apesar da presença de um inevitável desabamento familiar.

Existe uma inocência juvenil nos planos em que a câmara segue Shota pelo espaço urbano de Tóquio, captando a contensão tímida de Yuri ou a satisfação relaxada de Osamu, enquanto explica a Aki como detém o coração de Nobuyo, apesar do seu receio de intimidade.

A coreografia dos furtos é realizada com um ilusionismo de montagem que, passo a passo, nos encaminha para uma dança entre o delírio da fuga e o contentamento por um furto bem sucedido.

Por fim, este é um cinema que propõe no retrato do quotidiano uma interrogação da complexidade da vivência humana enquanto coletivo e que procura no storytelling uma reflexão sobre a mesma. 

«Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões» - Sob o Signo da Família
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