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«Time can tear down a building or destroy a woman’s face Hours are like diamonds, don’t let them waste.»

«Northern Exposure»: quando não importa, quer seja Cinema ou Televisão

Faz sentido nos dias de hoje distanciar o conteúdo cinematográfico daquele que está presente nas séries de televisão? Que características intrínsecas a cada um fazem com que estes se aproximem ou afastem? Actualmente, o seu público-alvo é composto por indivíduos de um largo espectro e com fácil acesso à informação (para não dizer culto ou inteligente). Consequentemente, o acesso aos produtos audiovisuais – comercialmente falando – é abrangente e não se limita às salas de cinema e aos ecrãs de televisão, respectivamente. Mais, é real a possibilidade de acede-los através de dispositivos móveis, em qualquer lugar, dispensando assim um local fixo para a sua visualização.

Como qualquer forma de arte – seja a literatura, as artes visuais ou a música – o audiovisual foi, desde sempre, uma forma de culto. Como tal, há quem o pregue – os autores – um conjunto de crentes – espectadores – que busca a sua representação material – filmes e séries – num determinado local onde têm total liberdade para se abstrair nas suas doutrinas e nos seus objectos de adoração. No entanto, recentemente, a noção de culto foi ocupada por um consumismo absorvente e voraz, que não faz caso nem do tempo nem do modo, nem do local. Assistimos à sua dessacralização. Assim, neste contexto os dois encontram-se muito próximos, e ambos perdem parcialmente a sua identidade.

Falemos da sua estrutura. Não serão os filmes, hoje, um seriado condensado num determinado período de tempo, e as séries de televisão um filme estendido até à exaustão? Ao longo dos anos, os programas televisivos sofreram mutações e atingiram diferentes morfologias. Abandonaram progressivamente os formatos episódicos e de sitcom, entre outros, concentrando-se em géneros mais próximos do Cinema, como o thriller, a crónica de costumes, e a aventura em larga escala. Por outro lado, desde sempre – mas nunca tão frequentemente como nos dias de hoje – os produtores e os actores vão saltando de um formato para o outro, do grande para o pequeno ecrã, e vice-versa. A ‘televisão’ vem-se assumindo, inclusive, como porta de entrada para que jovens criadores independentes demonstrem o seu valor e, camaleonicamente, girem entre formatos. São os casos de Lena Dunham («Tiny Forniture», «Girls») e Josh Radnor («Foi Assim que Aconteceu», «Happythankyoumoreplease», «Liberal Arts»). De notar que o vencedor do Oscar da Academia para Melhor Actor Principal protagonizou e co-produziu, juntamente com Woody Harrelson – também ele actor das lides cinematográficas – um dos seriados mais elogiados do ano – «True Detective».

Hierarquicamente, Steven Spielberg («Falling Skies»), JJ Abrams («Lost», «Fringe») e Alfonso Cuaron («Believe») representam hoje a inovação que Alfred Hitchcock («Alfred Hitchcock Presents», «The Alfred Hitchcock Hour») nos trouxera na década de sessenta, e Michael Mann («Crime Story», «Acção em Miami») nos anos oitenta. É no final desta década e no inicio da próxima que são dedicados maiores cuidados com as séries de televisão. Neste contexto surge «Northern Exposure – No Fim do Mundo» (1990-1995). Joel Fleischman, um médico recém-formado, judeu e nova-iorquino, vai ocupar a vaga de médico de clínica geral num pequeno lugarejo no Alasca e sofre com as diferenças em relação à sua cidade-natal.

Embora episódica e hoje relativamente datada, esta série concentra os seus melhores atributos na escrita da dupla Joshua Brand/ John Falsey. A riqueza original das personagens, a caricatura social de uma localidade muito especifica, a descontextualização do protagonista e o seu discurso – critico e inconformista – fazem recordar um Woody Allen no seu melhor – a referência a Nova Iorque, ao Judaísmo e ao cariz distinto da personagem não parece ocasional.

Embora Joel se encontre noivo, não vai conseguir resistir, progressivamente, aos encantos de Maggie O’Connell, também comprometida. Tal como na filmografia de Allen, um dos valores de «Northern Exposure» reside no facto de o espectador estar ao corrente das premissas que regem uma cena, sequência ou perfil de uma personagem. A surpresa não reside na acção per si mas sim na forma como as personagens se comportam ao longo do tempo. Assim, sabemos perfeitamente que, embora noivos, os dois se sentem atraídos e, no entanto, negam-no.

Aqui encontramos das personagens mais interessantes e variadas: Maurice Minnifield, um ex-astronauta e yankee inveterado, Chris Stevens, o locutor da rádio local, escultor e filósofo das coisas banais da vida, Shelly Marie Tambo, jovem apaixonada pelo dono do pub local – muitos anos mais velho – e viciada nos canais de Tv que chegam por satélite, e Ed Chigliak, indio mestiço e cinéfilo com o sonho de se tornar num cineasta.

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Concluindo, a análise e a comparação entre Cinema e Televisão é possível e não deve ser estigmatizada. Com o avançar dos anos e do progresso, revela-se difícil estancar conceitos e modelos de produção, quer ao nível da criação, quer ao nível da técnica. As salas de cinema já não são, definitivamente (e, permitam-me, lamentavelmente), um templo. A definição de ‘grande ecrã’ é residual, quando os dispositivos de reprodução se apresentam na forma de tablets e de computadores pessoais.

01 - Northern Exposure

01 – Northern Exposure

Próxima publicação (16 de Abril): «Cannibal Girls» (1973) de Ivan Reitman