«Titane» – Julia Ducournau une amor, punk e náuseas em 2ª longa de horror

Desde o lançamento da sua primeira longa-metragem “Raw”, em 2016, a realizadora francesa Julia Ducournau, de 37 anos, ganhou um fã-clube. Ao ousadamente explorar no cinema o gênero body horror (ou horror corporal), Ducournau é uma das poucas mulheres que estão a destacar-se mundialmente na escrita e na direção desse tipo de história. Isto é, as expetativas para a sua 2ª longa sempre foram altas.

Em “Raw”, ela abordou o canibalismo, ao retratar uma jovem vegetariana que de repente desenvolve um desejo insano por carne. Em “Titane”, que surpreendentemente venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano (tornando-se apenas na segunda mulher a ganhar o prémio), Ducournau aprimora sua abordagem do body horror num nível em que os espectadores não saberão se saem do cinema para vomitar ou se continuam na sala para descobrir o final. A maioria deverá continuar na sala.

A personagem principal chama-se Alexia, e nós a vemos pela primeira vez como uma criança zangada (Adèle Guigue), de sete anos. Ela se fere gravemente em um acidente de carro causado pelo seu pai, e os médicos fixam uma placa de titânio em seu crânio. A pequena Alexia recebe alta do hospital e, em vez de hesitar em se aproximar do automóvel de seus pais, ela o abraça com muito carinho. Esse início de trama é uma das melhores apresentações de personagem já feitas no cinema.

Agora já adulta, interpretada pela incrível estreante Agathe Rousselle (num papel extremamente físico), Alexia trabalha como dançarina em feiras de automóveis. Num plano-sequência belíssimo, ela parece sentir muito prazer ao dançar no capô de um Cadillac ao som do punk rock da banda The Kills. Nesse evento, ela é assediada por homens que querem autógrafos, selfies e outras coisas mais. Quando um desses fãs ultrapassa o limite, Alexia começa a cometer uma série de crimes e encontra como solução, para escapar da polícia, disfarçar-se de um menino cujo rosto estampa cartazes como desaparecido há mais de 20 anos.

O pai perturbado desse menino é o chefe dos bombeiros Vincent (o actor Vincent Lindon, ícone do cinema francês), e ele está tão ansiosamente feliz por ter seu filho de volta que nem mesmo pede um teste de DNA. A relação de amor desse homem carente de meia-idade com a psicopatia da Alexia, que agora transformou-se em Adrien, é a de duas pessoas solitárias em suas vidas – uma que claramente não foi amada quando criança, e a outra incapaz de sofrer o luto da perda.

“Titane” usa o body horror para questionar os papéis de gênero, mas principalmente a masculinidade, o machismo e a homofobia. A conexão fanática entre ser humano e máquina logo remeterá aos filmes do estadunidense David Cronenberg (mais explicitamente ao “Crash”, de 1996), porém, também em algumas cenas, Ducournau faz referência directa ao cinema de Claire Denis, especificamente ao homoerotismo, ao ciúme e ao balé de corpos masculinos do filme “Bom Trabalho” (1999). A realizadora enquadra os bombeiros a dançar em transe, curvando-se para a frente e para trás numa névoa meio erótica, para logo depois filmá-los empurrando uns aos outros num tipo de mosh, como numa roda de punk pós-laboral.

Corpo, família, género, repressão e opressão, sexo… São muitas ideias e reflexões costuradas numa mesma personagem. Como o monstro do Frankenstein de Mary Shelley, o “Titane” de Ducournau com certeza vai gerar desconforto. Será difícil de ver ao mesmo tempo em que atrairá o olhar.

«Titane» – Julia Ducournau une amor, punk e náuseas em 2ª longa de horror
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