Neste domingo (4), na 31.ª edição dos Critics Choice Awards, o grande vencedor acabou por ser “Batalha Atrás de Batalha”, uma comédia subversiva sobre política radical que saiu do salão principal coroada com o prémio de Melhor Filme, além das distinções de Melhor Realização e Melhor Argumento Adaptado para Paul Thomas Anderson, consolidando-se como uma das principais vozes da sátira contemporânea.
O curioso é que, se Anderson saiu como o general da noite, Guillermo del Toro não ficou atrás no desfile de medalhas. A sua leitura opulenta e barroca de “Frankenstein” conquistou quatro prémios de peso, entre eles o de Melhor Actor Secundário para Jacobi Elordi, cuja Criatura, mais trágica do que monstruosa, parece ter convencido os críticos de que ainda há um coração a bater por baixo das cicatrizes do cinema de terror.
“Pecadores”, de Ryan Coogler, também se destacou ao arrecadar quatro prémios, incluindo o de Melhor Elenco e Conjunto, categoria inaugurada este ano e atribuída a Francine Maisle. Miles Caton foi eleito Melhor Actor Jovem, Coogler venceu ainda o prémio de Melhor Argumento Original e Ludwig Göransson levou para casa o troféu de Melhor Banda Sonora, compondo um pacote que cheira a consenso crítico.
Ser ou não ser
No campo das interpretações, Jessie Buckley foi distinguida como Melhor Actriz pela sua composição de uma mãe em luto em “Hamnet”, enquanto Timothée Chalamet venceu Melhor Actor ao encarnar um oportunista jogador de pingue-pongue em “Marty Supreme”.
Já o prémio de Melhor Actriz Secundária coube a Amy Madigan, arrepiante como uma bruxa em “Hora do Desaparecimento”, prova de que o terror continua a ser um género de prestígio quando bem servido.
Mais uma vez, a Disney sai de mãos a abanar
A noite abriu também espaço aos fenómenos virais. “KPop Demon Hunters”, de Maggie Kang e Chris Appelhans, sensação da Netflix, foi eleito Melhor Animação, superando produções da Disney como “Elio”, de Adrian Molina, Domee Shi e Madeline Sharafian, e “Zootrópolis 2”, de Jared Bush e Byron Howard.
O filme arrecadou ainda o prémio de Melhor Canção com “Golden”, êxito que já tinha alcançado o topo das tabelas musicais. A canção chegou ao primeiro lugar da Billboard Global 200 e liderou as paradas em mais de 30 países, entre os quais Coreia do Sul, Reino Unido e Estados Unidos, além de ter figurado no top 10 em mais de 20 outros territórios. “Golden” recebeu certificação de Ouro ou superior em quinze países e foi nomeada para quatro Prémios Grammy, incluindo Canção do Ano.
Bridget Jones segue a escrever seu diário
Na parcela do universo televisivo que aqui nos interessa, o prémio de Filme Feito para Televisão foi atribuído a “Bridget Jones: Louca por Ele”, de Michael Morris, quarto título da franquia criada por Helen Fielding. A série acompanha a vida de uma mulher solteira de trinta e poucos anos, desastrada e auto-irónica, que lida com questões de peso, carreira, vícios como fumar e beber e a eterna busca pelo amor ideal, registando tudo no seu célebre diário.
Neste quarto filme, Bridget (Renée Zellweger) enfrenta a viuvez após a morte de Mark Darcy, ocorrida quatro anos antes numa missão humanitária no Sudão. Mãe solteira de Billy, de nove anos, e Mabel, de quatro, vive entre o luto e a reconstrução, apoiada nos amigos de sempre e no antigo amor Daniel Cleaver, usando o humor como forma de sobrevivência.
Cinema brasileiro escreve capítulo histórico
A verdadeira surpresa da cerimónia veio de fora do eixo habitual. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, venceu o prémio de Melhor Filme Internacional, escrevendo um pequeno capítulo da história do cinema brasileiro.
A cena foi digna de crónica. Kleber concedia uma entrevista no tapete vermelho quando foi informado da vitória, anunciada antes mesmo de a transmissão televisiva começar. O realizador não escondeu o espanto e a internet, fiel ao seu papel, não deixou passar a estranheza do momento, questionando a coreografia pouco ortodoxa do anúncio.
Muitos espectadores reagiram com indignação, uma vez que este momento é central tanto para o reconhecimento artístico como para a visibilidade internacional e a divulgação do filme. Vários perguntaram por que razão a vitória não foi anunciada durante a apresentação televisiva. A explicação é simples. A cerimónia tem um tempo de transmissão rigidamente estabelecido e, devido ao elevado número de categorias, não há espaço para que todos os vencedores subam ao palco. Por isso, a organização opta por revelar alguns prémios antecipadamente, limitando-se a mencioná-los ao longo da gala.
O Brasil voltou ainda a subir ao palco com Adolpho Veloso, distinguido com o prémio de Melhor Fotografia por “Sonhos e Comboios”, também entregue fora da transmissão principal, num daqueles raros instantes em que a técnica, tantas vezes relegada para segundo plano, recebe o seu merecido aplauso em foco fechado.
O encerramento da noite foi marcado por um momento de subtil ironia. No final da cerimónia, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura subiram ao palco para anunciar o vencedor de Melhor Filme. O realizador aproveitou a ocasião para agradecer à associação de críticos pela distinção, num gesto que pareceu escapar ao protocolo, ainda que ficasse claro que aquele não era o espaço nem a exposição que o filme e a sua equipa mereciam.
Já Wagner Moura trouxe leveza ao momento. Ao apresentar a categoria, referiu-se ao prémio como Melhor Filme — “ou Melhor Filme Internacional, como lhe chamamos no Brasil” —, observação que arrancou risos da plateia e funcionou como um fecho bem-humorado para a cerimónia.
Vencedores da 31ª. edição do Critics Choice Awards:
Melhor Filme: “Uma Batalha Após a Outra”
Melhor Realização: Paul Thomas Anderson, por “Uma Batalha Após a Outra”
Melhor Actor: Timothée Chalamet, por “Marty Supreme”
Melhor Actriz: Jessie Buckley, por “Hamnet”
Melhor Actor Secundário: Jacob Elordi, por “Frankenstein”
Melhor Actriz Secundária: Amy Madigan, por “Weapons”
Melhor Argumento Original: Ryan Coogler, por “Pecadores”
Melhor Argumento Adaptado: Paul Thomas Anderson, por “Uma Batalha Após a Outra”
Melhor Jovem Artista: Miles Caton, por “Pecadores”
Melhor Elenco e Conjunto: Francine Maisler, por “Pecadores”
Melhor Comédia: “Aonde É que Para a Polícia?”, de Akiva Schaffer
Melhor Longa-metragem de Animação: “KPop Demon Hunters”, de Maggie Kang e Chris Appelhans
Melhor Design de Produção: Tamara Deverell e Shane Vieau, por “Frankenstein”
Melhor Cinematografia: Adolpho Veloso, por “Train Dreams”
Melhor Figurino: Kate Hawley, por “Frankenstein”
Melhor Edição: Stephen Mirrione, por “F1”
Melhor Cabelo e Maquilhagem: Mike Hill, Jordan Samuel e Cliona Furey, por “Frankenstein”
Melhor Som: Al Nelson, Gwendolyn Yates Whittle, Gary A. Rizzo, Juan Peralta e Gareth John, por “F1”
Melhor Efeitos Visuais: Joe Letteri, Richard Baneham, Eric Saindon e Daniel Barrett, por “Avatar: Fogo e Cinzas”
Melhor Banda Sonora: Ludwig Göransson, por “Pecadores”
Melhor Canção Original: Ejae, Mark Sonnenblick, Ido, 24 e Teddy, por “Golden”, de “KPop Demon Hunters”
Melhor Filme Internacional: “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho
Melhor Filme para Televisão: “Bridget Jones: Louca por Ele”, de Michael Morris

