“Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta” – esta vingança serve-se quente!

Finalmente, o filme como foi projetado. Uma avassaladora obra-prima em formato de ‘revenge movie’, em 4h e meia de puro deleite e cinema de género.
"Kill Bill - Toda a Obra Sangrenta", de Quentin Tarantino "Kill Bill - Toda a Obra Sangrenta", de Quentin Tarantino

Feitas as contas, passaram quase 23 anos desde a estreia original de “Kill Bill: Volume 1”. E que tire o cavalinho da chuva quem achar que se trata ‘apenas’ de uma revisitação que junta os dois Volumes e adiciona uns extras. Nada disso, esta versão integral, nos seus 247 minutos, devolve-nos o melhor Tarantino, em toda a sua grandiosidade.

Originalmente lançada em duas partes, precisamente interrompida com um cliffhanger insustentável – ‘mas sabem que ela tinha uma filha?’ – e que só seria retomada no filme seguinte – ‘será que ela sabe que a filha está viva?’ – ganha agora vida nova ao ser apresentada numa magnífica (e longa) versão restaurada, apenas com uma pequena pausa de quinze minutos. É que ver de seguida todo este ‘bloody affair’ não só nos liga de novo com este poderosíssimo épico de vingança, como também nos aproxima da mais profunda homenagem ao cinema de género acarinhado por Quentin Tarantino.

Aliás, o filme mantém a sua essência de ação estilizada, servida por diálogos afiados e uma narrativa não linear, oscilando habilmente entre o passado e o presente. Sim, agora, também com um prolongamento da sequência de anime, elevando ainda mais toda a dimensão estética e tornando-a muito mais fluida. Também a narrativa se apresenta muito mais coesa, permitindo-nos
acompanhar a jornada maldita da Noiva, interpretada brilhantemente por Uma Thurman.

Aliás, a Noiva (aka Kiddo) é uma mulher que busca vingança pela destruição da sua própria vida, mas que não deixa igualmente de ser uma homenagem à força feminina, delineada por uma Thurman em esteroides, combinando ferocidade e vulnerabilidade de uma forma magistral, afirmando a sua performance como uma das maiores mulheres de ação da história do cinema.

De resto, “Toda a Obra Sangrenta” mantém a fidelidade à recriação das cenas de ação, em particular, a magnífica coreografia da batalha no clube, onde Kiddo (a Miúda) enfrenta O-Ren Ishii (Lucy Liu) e dezenas de samurais. Agora com o esplendor cromático acrescido do restauro de cor para a fotografia de Robert Richardson, definitivamente, um passo adiante de quem apenas viu os dois Volumes há mais de 20 anos, ou apenas os descobriu nas limitadas versões em DVD.

Ainda assim, talvez uma das descobertas mais saborosas será mesmo perceber como toda a narrativa se desenrola de uma forma gradual, pausada, como que acentuando a sua dimensão profundamente humana – evoluindo justamente ‘do massacre à ternura’. Embora com os flashbacks que acompanham o desenvolvimento das personagens, facilitando também a compreensão das motivações e dilemas, tornando-os mais do que simples vilões ou heróis. E é bom saber como o filme reflete ainda as perdas de grandes colaboradores: como Sally Menke, a editora de Tarantino, ou atores como Sonny Chiba (2021) e, claro, David Carradine (2009).

Resumindo, “Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta” é mais do que uma simples soma das sua partes, trata-se antes de uma experiência de genialidade reforçada de Tarantino, devolvendo-nos toda a potência da sua obra, unificada nesta obra-prima unificada que se constitui como uma das mais convincentes referências ao cinema de ação e vingança. Finalmente, a poder ser vista na forma como foi idealizada. Sim, “Kill Bill – Toda a Obra Sangrenta” é Tarantino vintage!

"Kill Bill - Toda a Obra Sangrenta", de Quentin Tarantino
“Kill Bill: Toda a Obra Sangrenta” – esta vingança serve-se quente!
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