Óscares 2027: Academia abre categoria internacional, muda regras para actores e trava IA

Com novas regras, filmes internacionais ganham nova via de acesso, IA enfrenta restrições e actores poderão ter dupla nomeação nos Óscares
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O diretor Sean Baker segura parte da premiação de 'Anora' no Oscar. Longa venceu cinco categorias, incluindo a principal da noite, de Melhor Filme. Foto: Angela Weiss / AFP

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou, esta sexta-feira (1), uma extensa revisão do regulamento dos Óscares, introduzindo mudanças estruturais que afectam algumas das categorias mais relevantes da premiação. As novas regras entram em vigor já no ciclo da 99.ª edição, cuja cerimónia está marcada para 14 de Março de 2027, no Dolby Theatre, em Hollywood.

Entre as alterações mais significativas estão a criação de uma nova via de elegibilidade para Melhor Filme Internacional, o endurecimento dos critérios relativos ao uso de inteligência artificial e uma mudança histórica nas categorias de interpretação, permitindo que um mesmo actor possa ser nomeado duas vezes na mesma disputa.

A reforma representa uma tentativa clara da Academia de adaptar o prémio às transformações recentes da indústria cinematográfica, pressionada pela globalização do mercado audiovisual, pela expansão de cinematografias fora dos Estados Unidos e pelo impacto crescente da IA nos processos criativos.

Melhor Filme Internacional deixa de depender apenas de escolhas nacionais

A mudança mais simbólica, e talvez a que pode mexer mais com a corrida aos Óscares, está na categoria de Melhor Filme Internacional.

Durante muitos anos, essa disputa foi regida por regras bastante restritivas e dependia fortemente das escolhas internas de cada país. Cada nação só podia inscrever um filme por ano, o que levava várias obras aclamadas pela crítica e distinguidas em festivais importantes a ficarem de fora simplesmente por não terem sido seleccionadas pela comissão nacional responsável.

A partir dos Óscares de 2027, esse sistema continua a existir, mas deixa de ser o único caminho. Os países ainda poderão indicar oficialmente um título, só que filmes falados maioritariamente em língua não inglesa também poderão entrar automaticamente na disputa se vencerem certos prémios em seis festivais internacionais considerados estratégicos pela Academia.

Na lista estão o Urso de Ouro, do Festival de Berlim; a Palma de Ouro, de Cannes; o Leão de Ouro, de Veneza; o prémio de Melhor Filme do Festival de Busan; o Grande Prémio do Júri da competição internacional de Sundance; e o Platform Award, do Festival de Toronto.

Na prática, isto muda bastante o jogo. Pela primeira vez, pode haver mais de um filme ligado ao mesmo país elegível no mesmo ano, algo que antes era praticamente impossível.

A nova regra tira algum peso das decisões políticas internas, valoriza o circuito de festivais e abre espaço para obras que já chegavam reconhecidas internacionalmente, mas acabavam barradas no processo de selecção nacional. É uma forma de tornar a categoria mais aberta e mais próxima da realidade do cinema mundial actual.

A mudança também reacendeu um velho debate em Hollywood e fora dela: quantos filmes importantes ficaram pelo caminho por causa das regras antigas? Com o novo sistema, vários casos do passado provavelmente teriam tido outro destino.

No caso brasileiro, o exemplo mais lembrado é “Tropa de Elite” (2007), de José Padilha. O filme venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2008, tornou-se um fenómeno cultural e gerou enorme repercussão dentro e fora do país. Ainda assim, não foi escolhido como representante brasileiro aos Óscares.

Na altura, a opção oficial recaiu sobre “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, que acabou por não chegar à lista final de nomeados. Pelas novas regras, “Tropa de Elite” teria entrada automática na corrida graças à vitória em Berlim.

Outro caso frequentemente citado é o de “Anatomia de uma Queda”, de Justine Triet. Em 2024, mesmo depois de conquistar a Palma de Ouro em Cannes e de se afirmar como um dos filmes mais elogiados do ano, a obra não foi seleccionada por França para disputar a categoria de Melhor Filme Internacional.

Em vez disso, o país optou por submeter “O Sabor da Vida”, de Tran Anh Hung. A decisão gerou forte controvérsia, tanto no meio cinematográfico como na imprensa especializada.

A polémica aumentou quando o filme seguiu forte noutras categorias do próprio Óscares. Recebeu cinco nomeações, incluindo Melhor Filme, e acabou por vencer o prémio de Melhor Argumento Original. Ou seja, era reconhecido pela Academia como uma das obras mais relevantes do ano, mas continuava impedido de competir justamente na categoria destinada ao cinema internacional.

Não por acaso, nos meios especializados norte-americanos, a nova regra já começou a ser tratada informalmente como “regra Anatomia de uma Queda, numa referência directa ao caso que expôs as contradições do modelo anterior.

Na edição deste ano, “Foi Só um Acidente”, do realizador iraniano Jafar Panahi, que há anos enfrenta repressão no seu país, não foi seleccionado pelo Irão. Coube à França assumir a submissão aos Óscares, por ter participado no financiamento da produção.

O prémio deixa de pertencer ao país e passa a pertencer ao filme

A Academia aprovou ainda uma mudança de forte peso institucional na maneira como passa a lidar com a categoria de Melhor Filme Internacional.

Até à cerimónia de 2026, a estatueta era oficialmente atribuída ao país vencedor, e não propriamente ao filme. Ou seja, embora a obra e os seus criadores estivessem no centro das atenções, o reconhecimento formal recaía sobre a nação que a submetia. Quando “Tudo Sobre a Minha Mãe” venceu os Óscar em 2000, por exemplo, o prémio foi oficialmente creditado a Espanha, e não directamente a Pedro Almodóvar ou à equipa artística do filme.

A partir de agora, isso muda. O galardão passará a ser entregue directamente ao próprio filme, alinhando a categoria com a lógica das restantes áreas competitivas dos Óscares. Na prática, quem sobe ao palco para receber a distinção será o realizador, em representação da equipa criativa responsável pela obra.

Também haverá mudança na própria inscrição da estatueta. Em vez de destacar apenas o país vencedor, a placa oficial passará a trazer primeiro o título do filme, seguido do nome do cineasta e, quando fizer sentido, do país ou região associado à produção. Num caso como “Tudo Sobre a Minha Mãe”, a referência principal passaria a ser o filme e Pedro Almodóvar, com Espanha mencionada de forma complementar.

Pode parecer apenas um detalhe protocolar, mas o gesto tem significado. A decisão retira algum peso diplomático que historicamente cercava esta categoria e reforça a ideia de que o reconhecimento deve recair antes de tudo sobre a criação artística. É uma forma de afirmar que os Óscares está a premiar cinema, e não delegações nacionais.

Academia endurece regras sobre inteligência artificial

Outro eixo central da reforma prende-se com o uso de inteligência artificial, tema que dominou os debates recentes em Hollywood e esteve no centro das greves de argumentistas e actores.

Segundo as novas regras, a Academia clarifica que ferramentas de IA poderão continuar a ser usadas durante o processo de produção, mas estabelece limites claros quanto à elegibilidade para prémios. Em termos práticos, isso significa que recursos tecnológicos poderão auxiliar tarefas como correcção de imagem, rejuvenescimento digital, clonagem de voz autorizada ou apoio técnico na pós-produção, desde que não substituam a autoria humana essencial.

Nas categorias de interpretação, apenas desempenhos realizados por seres humanos poderão ser considerados. Personagens ou actores criados integralmente por inteligência artificial ficam excluídos. Se um estúdio lançasse um filme protagonizado por uma figura digital gerada por IA e sem actor real por trás da performance, esse trabalho não poderia disputar os prémios de representação.

Além disso, a organização determina que apenas papéis creditados oficialmente e realizados com consentimento poderão concorrer. A regra responde ao receio de recriações digitais de actores falecidos ou ao uso não autorizado da imagem e da voz de artistas vivos.

Nas categorias de argumento, os guiões terão de apresentar autoria humana. Um texto integralmente produzido por sistemas automáticos, sem contribuição criativa substantiva de um argumentista, ficaria fora da disputa. A Academia reservou-se ainda o direito de solicitar documentação adicional para avaliar o grau de intervenção tecnológica em qualquer obra submetida.

A pressão para uma tomada de posição intensificou-se após a divulgação de projectos que utilizam recriações digitais de actores falecidos.

Um dos casos mais comentados envolveu As Deep as the Grave”, filme que recorre a uma performance digital autorizada pela família de Val Kilmer, actor norte-americano que morreu em 2025.

Embora o uso tenha sido legalmente autorizado, a situação reacendeu discussões sobre consentimento póstumo, fronteiras éticas e eventual reconhecimento artístico de interpretações criadas tecnologicamente.

Mudança histórica nas categorias de representação

Pela primeira vez na história moderna dos Óscares, um mesmo actor poderá receber duas nomeações na mesma categoria no mesmo ano, desde que por filmes diferentes e desde que ambas as interpretações estejam entre as cinco mais votadas pelos membros da Academia.

Na prática, passa a ser possível que um intérprete surja duas vezes em Melhor Actor ou duas vezes em Melhor Actriz, algo que até agora não era permitido. No modelo anterior, caso isso acontecesse na contagem final, apenas a performance mais votada seguia para a lista de nomeados, enquanto a outra era automaticamente excluída.

Importa distinguir esta novidade de uma situação que já era possível anteriormente: a de um artista concorrer no mesmo ano em categorias diferentes, como Melhor Actor e Melhor Actor Secundário, ou Melhor Actriz e Melhor Actriz Secundária. Isso já ocorreu com nomes como Fay Bainter, Teresa Wright, Barry Fitzgerald, Jessica Lange, Sigourney Weaver, Al Pacino, Holly Hunter, Emma Thompson, Julianne Moore, Jamie Foxx, Cate Blanchett e Scarlett Johansson. Ou seja, o que muda agora não é a possibilidade de dupla nomeação no mesmo ciclo, mas sim a hipótese de duas nomeações dentro da mesma categoria.

O sistema antigo era frequentemente criticado por incentivar estratégias de campanha. Para evitar divisão de votos, estúdios deslocavam candidaturas entre protagonista e secundário, muitas vezes com base mais em cálculo eleitoral do que na natureza real do papel desempenhado. A nova regra tende a reduzir esse tipo de manobra e poderá alterar profundamente a forma como as campanhas serão conduzidas durante a temporada de prémios.

A alteração também levou muitos analistas a revisitar temporadas passadas e imaginar como certas corridas poderiam ter terminado de forma diferente. Kate Winslet, em 2008, é um dos casos mais lembrados. A actriz foi amplamente elogiada tanto por “Revolutionary Road”, de Sam Mendes, como por “O Leitor”, de Stephen Daldry, filme que lhe valeu o Óscar de Melhor Actriz. Na altura, houve intenso debate sobre qual interpretação deveria concentrar a campanha principal. Com o novo regulamento, poderia ter sido nomeada pelas duas.

Leonardo DiCaprio surge como outro exemplo recorrente. Em 2006, destacou-se simultaneamente por “Diamante de Sangue”, de Edward Zwick, e “The Departed – Entre Inimigos”, de Martin Scorsese. Muitos consideram que, num sistema mais flexível, poderia ter ocupado duas vagas na mesma corrida interpretativa.

Jessica Chastain também é frequentemente citada. Em 2011, teve um ano particularmente expressivo, somando papéis de relevo em sete filmes e afirmando-se como uma das grandes revelações da época. Esse percurso valeu-lhe uma nomeação ao Óscar de Melhor Actriz Secundária, ao lado de Octavia Spencer, por “As Serviçais”, de Tate Taylor, mas poderia facilmente ter rendido uma segunda candidatura por “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick ouProcurem Abrigo”, de Jeff Nichols. À luz das regras actuais, teria sido uma das intérpretes mais beneficiadas por essa multiplicidade de trabalhos.

No caso de Alicia Vikander, a discussão é ainda mais evidente. No ano em que venceu por “A Rapariga Dinamarquesa”, de Tom Hooper, também recebeu elogios expressivos por “Ex Machina”, de Alex Garland. Com a nova regra, poderia ter aparecido duas vezes entre as nomeadas.

Mais recentemente, Sebastian Stan passou a ser mencionado nos bastidores após ganhar força em duas campanhas distintas no mesmo ciclo de prémios: por “The Apprentice – A História de Trump”, de Ali Abbasi, que lhe valeu uma nomeação a Melhor Actor pela interpretação do presidente Donald Trump, e por “A Different Man”, de Aaron Schimberg, ilustrando como a mudança responde a situações cada vez mais comuns numa indústria em que actores acumulam trabalhos relevantes no mesmo ano.

O debate mostra como ajustes aparentemente técnicos podem alterar trajectórias inteiras. Não por acaso, a última revisão de peso semelhante nas categorias de representação remontava a meados da década de 1940, o que dá a dimensão histórica da decisão agora tomada pela Academia.

Melhor Elenco ganha mais estatuetas

A nova categoria de Melhor Elenco, introduzida recentemente, também foi revista.

Depois de estrear com um máximo de duas estatuetas, a Academia decidiu aumentar esse número para três, ampliando o reconhecimento às equipas responsáveis pela selecção artística dos filmes.

Outras mudanças técnicas e administrativas

O pacote de mudanças anunciado pela Academia não se limita às categorias mais visíveis e discutidas. Há também uma série de revisões técnicas e administrativas que, embora menos mediáticas, podem ter impacto directo no funcionamento interno da votação e no reconhecimento de determinadas áreas do cinema.

Na cinematografia, por exemplo, a categoria passará a contar com uma shortlist fixa de 20 títulos. A medida procura dar maior previsibilidade ao processo e ampliar a visibilidade de trabalhos que, muitas vezes, acabavam ofuscados pelas campanhas dos filmes mais fortes da temporada.

Na área de maquilhagem e penteados, os membros do ramo terão de participar em sessões específicas para manter o direito de voto. A intenção é garantir que os eleitores acompanhem de forma mais próxima os trabalhos concorrentes e avaliem tecnicamente as nomeações com maior conhecimento de causa.

Algo semelhante acontecerá em efeitos visuais. Antes da ronda final de votação, os votantes deverão assistir a apresentações técnicas dedicadas aos projectos seleccionados. Trata-se de uma tentativa de valorizar o lado artesanal e tecnológico da categoria, permitindo que os membros compreendam melhor os processos criativos por trás de cada nomeado.

Outra mudança importante atinge directamente as campanhas promocionais dirigidas aos membros da Academia. A partir de agora, esses materiais terão de incluir informações sobre acessibilidade e adaptações destinadas a pessoas com deficiência. É um sinal de que a instituição procura incorporar padrões mais inclusivos também nos bastidores da corrida aos Óscares.

Datas oficiais da corrida aos Óscares 2027

A Academia também divulgou o calendário principal do próximo ciclo de premiações, definindo as datas-limite para submissão de obras nas diferentes categorias. O primeiro prazo será a 13 de Agosto de 2026, reservado às curtas-metragens e aos documentários, áreas que tradicionalmente iniciam mais cedo o processo de avaliação.

Depois, a 17 de Setembro de 2026, encerra-se o período de inscrição para as categorias gerais, para animação e para Melhor Filme, núcleo central da temporada e aquele que costuma concentrar maior atenção da indústria.

Já a categoria de Melhor Filme Internacional terá um prazo próprio e ligeiramente posterior: 30 de Setembro de 2026. A separação mantém a especificidade do processo desta secção, que envolve candidaturas organizadas por países e agora também os novos critérios de elegibilidade anunciados pela Academia.

Concluída a fase de inscrições, a votação final decorrerá no início de 2027, quando os membros da instituição escolherão os vencedores da próxima edição.

A 99.ª cerimónia dos Óscares está marcada para 14 de Março de 2027. Um ano depois, a Academia celebrará um marco histórico: a 100.ª edição dos prémios, agendada para 5 de Março de 2028, data que deverá transformar a gala num evento de especial simbolismo para Hollywood e para a própria história do cinema.