“Foi só um Acidente”: a coragem de filmar sob o jugo do poder

“Foi só um Acidente” ergue o cinema clandestino como resposta à perseguição e ao medo
Foi só um Acidente Foi só um Acidente
"Foi só um Acidente" (2025), de Jafar Panahi

“Foi só um Acidente”, o novo filme de Jafar Panahi, estreou no ano passado no Festival de Cannes envolto numa aura inevitavelmente política. E não é por acaso. O cineasta foi preso em 2010, acusado de “propaganda contra o regime”, após anos de perseguição pelas autoridades iranianas. Passou meses na infame prisão de Evin, foi condenado a seis anos de detenção e a uma proibição de vinte anos de filmar, dar entrevistas ou sair do país. Ainda assim, continuou a filmar clandestinamente: “This Is Not a Film”, “Táxi” e “No Bears” transformaram a censura em atos de resistência.

Neste novo trabalho, a provocação de Panahi é mais frontal. A história começa com o atropelamento aparentemente banal de um cão, mas rapidamente descamba para uma espiral de tensão moral e política: o condutor do carro, forçado a parar numa oficina, é reconhecido por um mecânico como o seu antigo torturador. O mecânico sequestra-o, cava um buraco para o enterrar vivo e, no auge da vingança, hesita. Será mesmo este o homem certo? Procura então outra testemunha, também torturada, e depois mais uma, mas a incerteza persiste. Juntos, este grupo de ex-prisioneiros, agora vivendo vidas normais, envereda por um jogo de encenação e dúvida — uma espécie de tribunal improvisado onde verdade e justiça são menos objetivas do que se desejaria.

Panahi transforma este thriller de vingança numa comédia de erros, como se quisesse encenar deliberadamente um teatro do absurdo. Por vezes, essa escolha escancara limitações: gestos rígidos, diálogos artificialmente encenados, marcações cênicas excessivamente teatrais.

A despeito disso, é também nesse desconforto que o filme encontra a sua força. O confronto íntimo torna-se alegoria de um país inteiro, e o humor, quase cruel, não suaviza a tensão — ao contrário, intensifica-a. Quando o Estado falha, resta apenas a encenação, e nela a dúvida pesa mais do que qualquer veredito.

A estreia de “Foi só um Acidente” em Cannes reverberou o impacto de “A Semente do Fruto Sagrado”, de Mohammad Rasoulof, apresentado em 2024. Rasoulof, também cineasta dissidente, teve de fugir do Irão poucos dias antes da première, após ser condenado a oito anos de prisão. O seu filme, que narra a angústia de um juiz paranoico diante da revolta das filhas, é uma resposta direta à revolução das mulheres que, após o assassinato de Jina Mahsa Amini pela polícia moral por usar o véu de forma “inadequada”, desafiaram o regime queimando os seus hijabs em praça pública.

Em Cannes, Rasoulof subiu as escadarias do Lumière segurando as fotografias dos seus actores, proibidos de deixar o país — um gesto silencioso e poderoso que falava de ausência, resistência e solidariedade. Panahi, por seu turno, chegou ao festival com menos alarde, embora o seu acto de filmar clandestinamente carregue uma coragem igual ou mesmo maior. Ambos os cineastas, nas suas obras e atitudes, expõem a corrosão das relações mais íntimas sob um regime paranoico, onde o medo dissolve a confiança e transforma a vida quotidiana numa zona de conflito constante.

A memória de Juliette Binoche a chorar numa conferência de imprensa em 2010, ao saber da prisão de Panahi, voltou com força nesta ocasião. Na altura, como presidente do júri, ela representou não apenas empatia pessoal, mas uma história de apoio contínuo ao cinema iraniano. A eventual premiação do filme não seria apenas um gesto artístico, mas também um ajuste de contas com o passado recente do festival.

Dois dias depois da comoção em torno de Panahi, “Woman and Child”, de Saeed Roustaee, estreou sob um ruído muito diferente. Antes mesmo da exibição, o filme fora acusado por cineastas dissidentes de ser “propaganda estatal”, por ter sido produzido com aval do regime. A polémica evidenciou um dos dilemas mais antigos do cinema iraniano: onde termina a arte e começa a colaboração?

A história acompanha Mahnaz (Parinaz Izadyar), uma enfermeira viúva de 45 anos que vive com os filhos Aliyar (Sinan Mohebi) e Neda (Arshida Dorostkar), a mãe (Fereshteh Sadre Orafaee) e a irmã Mehri (Soha Niasti). Mahnaz inicia um relacionamento com Hamid (Payman Maadi), um motorista de ambulância carismático mas manipulador. Preocupado com a desaprovação dos pais, Hamid pede que Mahnaz esconda a existência dos filhos durante o noivado. Relutante, ela aceita, enviando as crianças para a casa do avô paterno (Hasan Pourshirazi).

Paralelamente, Aliyar enfrenta problemas na escola e é expulso pelo seu comportamento rebelde, agravando ainda mais as tensões familiares. Um acidente trágico desencadeia uma série de acontecimentos que levam Mahnaz a confrontar traições e perdas, embarcando numa busca por justiça.

Apesar de ter enfrentado censura com “Leila’s Brothers” em 2022, incluindo uma sentença de prisão de seis meses e proibição temporária de filmar, Roustaee regressa a Cannes sem sinais de recuo.

O novo filme provocou reacções intensas na estreia. Para além de o terem rotulado como propaganda, a IIFMA (liderada pelo produtor Kaveh Farnam, radicado em Dubai) criticou o facto de as atrizes, incluindo a protagonista Parinaz Izadyar, aparecerem de hijab, num momento em que muitas mulheres no Irão abandonaram o véu em protesto.

Para a organização, que representa centenas de profissionais do cinema iraniano — mais da metade ainda a viver no país —, esta escolha foi vista como uma traição ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, nascido após a morte de Mahsa Amini em 2022. Neste contexto, não é de estranhar que a veia feminista dos filmes de Roustaee incomode tanto as autoridades iranianas como parte da diáspora.

Justapostos, “Foi só um Acidente” e “Woman and Child” oferecem um estudo de contrastes: o clandestino versus o oficial, o gesto frontal versus a nuance calculada, o dissidente versus o cúmplice ou talvez o conformado. Mas o que os une talvez seja mais interessante do que aquilo que os separa. Ambos falam de estruturas que esmagam o indivíduo e encenam personagens em busca de uma saída, mesmo que esta seja provisória, ambígua ou francamente desesperada.

Foi só um Acidente
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