“Divina Comédia” poderá estar entre os filmes mais incisivos de Ali Asgari porque transforma a própria impossibilidade de fazer cinema no Irão num gesto cinematográfico. A narrativa acompanha um realizador e a sua produtora que tentam obter autorização para estrear um filme já concluído, mas o que poderia ser apenas um enredo burocrático torna‑se, nas mãos de Asgari, uma espécie de peregrinação desconcertante por Teerão. A cada porta que se abre, surge uma nova regra, uma nova exigência, uma nova contradição. O quotidiano transforma‑se num labirinto onde a lógica é substituída por um sistema que se alimenta da sua própria opacidade.
A cinematografia de Amin Jafari reforça essa sensação de deriva. A câmara observa a cidade com uma clareza quase documental, mas é nos enquadramentos que se revela a dimensão ensaística do filme: personagens comprimidas em corredores estreitos, salas onde a ausência de movimento parece uma forma de violência, ruas que conduzem sempre ao mesmo lugar. A luz crua, sem adornos, expõe a textura real dos espaços, enquanto a composição dos planos introduz um humor subtil, quase involuntário, que nasce do contraste entre a rigidez do sistema e a fragilidade humana das personagens. É um humor que nunca se sobrepõe ao drama, mas que o torna mais agudo, como se o riso fosse a única forma possível de enfrentar o absurdo.
O filme mergulha de forma direta na realidade cultural, social e política iraniana, mas evita qualquer didatismo. A censura surge como um mecanismo quotidiano, feito de funcionários que repetem normas sem convicção, de regulamentos que mudam conforme o contexto, de decisões que parecem arbitrárias mas que revelam uma lógica profunda: a necessidade de controlar a narrativa, de domesticar a imaginação, de impedir que a arte se torne um espaço de liberdade. Asgari filma esse sistema sem caricatura, deixando que a própria repetição dos obstáculos revele a sua violência silenciosa. A presença de Sadaf Asgari, atriz que enfrentou restrições reais por participar em festivais internacionais, acrescenta uma camada de realidade que o filme nunca explicita, mas que vibra em cada gesto, em cada hesitação, em cada olhar.
A carreira de Ali Asgari tem sido marcada por esta atenção às tensões entre vida privada e controlo estatal. O seu cinema é feito de personagens que tentam resolver problemas simples — uma conversa, um pedido, um deslocamento — e que acabam enredadas numa teia de proibições.
“Divina Comédia” prolonga essa linha, mas fá‑lo com uma energia mais abertamente satírica, como se o próprio realizador tivesse decidido transformar a sua experiência de censura num espelho deformante onde o grotesco e o trágico se confundem.
O resultado é um filme que se move entre o riso e a indignação, entre a leveza aparente e a gravidade do que está em jogo. Asgari filma a burocracia como um teatro do absurdo, mas nunca perde de vista o impacto humano dessa engrenagem. Há uma dimensão ensaística na forma como o filme pensa o próprio ato de filmar: cada obstáculo imposto pelas autoridades torna‑se uma reflexão sobre o poder da imagem, sobre o medo que ela desperta, sobre a capacidade do cinema para revelar aquilo que o discurso oficial tenta ocultar.
No fim, o filme deixa a sensação de que a arte continua a existir apesar de tudo, e que cada tentativa de criar é, por si só, um gesto político. Asgari não oferece soluções nem discursos inflamados; oferece, antes, a persistência de um olhar que recusa ser silenciado. E é nessa recusa — discreta, irónica, profundamente humana — que reside a força do filme.

