«A Viagem de Monalisa» – quando a maior das odisseias nasce dentro de nós

Não se trata daqui da evidência de outra Priscilla, a Rainha do Deserto, mas sim da história de superação (à sua maneira) de Monalisa, aliás, de Iván, dramaturgo e performer chileno que num certo dia partiu para Nova Iorque em busca de um “lugar” que lhe “cabe” por direito.

Mas o porquê de mencionar Iván, visto que o próprio o declara como uma peça do passado longínquo e sem direito, assumindo-se então a fisicalidade e espiritualidade de Monalisa, e com isso resistir para emancipar essa figura como sua fluída identidade? Não será esta invocação do passado, uma desvalorização de todo o ativismo interiorizado da protagonista? Não por uma somente questão de “génese”, nem de afronta à natureza desta, mas foi através do tal heterónimo masculino, repreendido e incompreendido donde surgiu o arrojo e a coragem para se libertar das amarras sociais que o detém. Para falarmos de Monalisa, devemos abordar e nunca esquecer Iván, e é nele que devo começar por referir, como lagarta antes da crisálida.

O fascínio de Iván pela sua própria identidade, em construção durante a sua vivência num Chile de Pinochet, é o impulsor à sua luta. O entender que não basta dizer-se o que é, há que sê-lo e é no protagonista que deparamos nessa, como parecer soar, excentricidade na constante descoberta do seu ser. E como qualquer excêntrico, a vaidade é um requisito, nesta feita preenchida com a cumplicidade da sua ex-colega de faculdade, Nicole Costa (aqui na sua primeira longa-metragem), que o(a) persegue sob autorização, captando retalhos, confissões e recortes, preenchendo páginas de um diário visual e falado.

Mas se pensam que é a identidade, a transexualidade o tema e o exclusivo tratado desta … digamos viagem … enganam-se, até porque Iván, agora transformada em Monalisa, é um(a) provocador(a) e essa mesma provocação (como todas as provocações dignamente classificadas) não é consensual. Para sermos exatos, Monalisa é uma drag queen convertida ocasionalmente a trabalhadora de sexo, e com isso uma desafiadora do comummente aceite, seja dos ideais defendidos do conservadorismo castrador, seja do muito pensamento libertário (com alas à esquerda em xeque) que continuam a olhar para o território sexual como um manto patriarcal ou um campo de somente desiguais jogos de poder.

Mas como o jugoslavo / sérvio Dusan Makavejev citava no seu (ainda) não consensual “W.R. – Os Mistérios do Organismo” (1971) [ler artigo], ecos mais tardes transportados para os recentes trabalhos de José Filipe Costa (“Prazer, Camaradas”) ou do galardoado Radu Jude (“Bad Luck Banging or Loony Porn” [ler crítica]), a revolução social não pode acontecer sem a existência de uma revolução sexual. Nesse sentido, e como o sexo ainda é uma disputa na esfera social, política e até cientifica, “A Viagem de Monalisa” valoriza-se pela sua presença em resgatar essas lutas por vias da confiança e expressão do nosso(a/x) protagonista, onde as suas batalhas pessoais (em particularmente contra o sistema binário dos cartões de identidade) são pontos de fuga para que o espectador relacione com os seus dilemas identitários.

E porque há lutas internas a serem desferidas no externo, e assim, vice-versa, esquematizando a maior viagem de todas, a da nossa afirmação, o filme de Nicole Costa parte do intimismo para nos concentrar uma história global. Até certo ponto é a dicotomia Iván / Monalisa, mas no fundo é a universalidade a sua força vectora.

«A Viagem de Monalisa» – quando a maior das odisseias nasce dentro de nós
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