«O Artista» – É de ficar sem palavras, literalmente!

Nunca imaginei que algum dia pudesse assistir a um filme mudo e a preto e branco no cinema, muito menos nos dias de hoje em que o 3D, o CGI e os blockbusters dominam as salas de cinema. “The Artist” (“O Artista”) é o filme mudo mais falado do ano e desde a sua estreia no Festival de Cannes 2011 (onde acabou por ganhar apenas o Prémio de Melhor Ator) não pára de arrecadar prémios por onde quer que passe. São já quase 50 prémios obtidos, entre eles Producers Guild, Directors Guild e Screen Actors Guild Awards e três Globos de Ouro. Está ainda nomeado para 12 categorias dos BAFTA e soma dez nomeações para os Óscares. Assume-se claramente como o favorito na corrida aos Óscares que certamente os irá conquistar.

Escrito e realizado por Michel Hazanavicius, esta produção francesa leva-nos até Hollywood de 1927 onde George Valentin (Jean Dujardin) é uma das maiores estrelas do cinema mudo. Um dia conhece Peppy Miller (Bérènice Bejo), uma jovem e ambiciosa figurante, por quem fica fascinado. Mas com a chegada dos filmes sonoros a carreira de George é arruinada, dando espaço para novas estrelas como Peppy.

Esta obra prima, que se passa num dos períodos áureos do cinema, fala-nos sobre a mudança mais radical que o cinema sofreu até hoje, do mudo para o sonoro. Foi em 1927 com a estreia de “O Cantor de Jazz” (o primeiro filme cem porcento falado) que se deu a maior inovação tecnológica que mudou para sempre o curso do cinema. De um dia para o outro as estrelas de “ontem” deixaram de brilhar. É o caso de Douglas Fairbanks, Mary Pickford e Buster Keaton, por exemplo, que foram grandes estrelas do cinema mudo e que num espaço de um ano ficaram desempregadas pois não conseguiram adaptar-se ao sonoro. Muitos artistas fizeram tentativas, mas o público quando ouviu as suas vozes, eles foram ridicularizados. Foram muito poucos os que conseguiram adaptar-se ao sonoro, é o caso de Charles Chaplin, que continuou a fazer filmes mudos, até ao “O Grande Ditador” (1940).

Todo o filme nos faz lembrar, certamente, “Serenata à Chuva” (1952) de Stanley Donen e Gene Kelly, que se passava também exatamente na passagem do cinema mudo para o sonoro. A personagem de Kelly assemelha-se bastante à de Dujardin, pois ambos interpretam a decadência do ator, a ruína da sua carreira. Há ainda outro filme que não pode ficar de lado, pois as semelhanças são bastantes, é “Crepúsculo dos Deuses” (1950) de Billy Wilder, que conta a história da grandeza e da decadência de Norma Desmond (Gloria Swanson, também um estrela do mudo esquecida). Voltando a falar de Chaplin, há um pouco de Calvero (protagonista de “Luzes da Ribalta” de 1952) em George Valentin.

A brilhante realização de Michel Hazanavicius permitiu criar uma clássico nos tempos modernos. Realiza um filme a preto e branco, com um formato de 4:3, com transições e efeitos usados no cinema dessa época e mudo. Praticamente mudo, pois há breves momentos em que existe som, que apenas vendo o filme se poderá compreender o seu objectivo e importância.

O grande elenco, composto por atores franceses e americanos, é magnifico. Jean Dujardin interpreta na perfeição o galã e estrela do cinema mudo. Notamos uma evoloção na sua personagem, George Valentin, que passa de um Douglas Fairbanks para um Fred Astaire. Aliás a cena final do filme faz-nos lembrar bastante “Chapéu Alto” (1935) com Astaire e Ginger Rogers. Dujardin merece sem qualquer dúvida o Óscar para Melhor Ator, qual Clooney qual quê! É Dujardin quem merece o prémio. Também a sua companheira, Bérènice Bejo, está fantástica com excelentes expressões. Ela também merece o Óscar de melhor Atriz Secundária, mas tem forte concorrência. O trabalho desta dupla é perfeito e sertamente irá ficar para a história como uma das melhores duplas do cinema. Uggie (o parceiro canino do protagonista) é outro soberbo ator secundário que merecia estar nomeado, se desse para nomear animais.

O filme não precisa de som, não é por acaso que se diz que “o silêncio é de ouro” e de facto está mais do que provado. Daí o papel da banda sonora, soberbamente composta por Ludovic Bource, ter um papel muito importante, sendo quase como uma personagem secundaria, é a “voz” do filme.

O que torna este filme tão interessante é que não foca apenas o recordar do passado, mas também em lidar com emoções universais, como o amor e lições de vida. Consegue fazer-nos rir e emocionar, com bastantes lágrimas.

A experiencia de ver um filme como este é única e deveria ser repetida. É algo maravilhoso, como se de repente estivéssemos nos loucos anos 20 a ver um filme com uma orquestra a tocar a banda sonora. É mágico! Certamente não será um filme que o público em geral irá querer ver, o que é de lamentar, pois deveria dar uma oportunidade a este belo filme e colocar de lado os preconceitos com o preto e branco e o mudo.

“O Artista”, que merece todos os Óscares para que está nomeado, é como uma homenagem ao cinema mudo, às suas raízes, como um hino de amor à sétima arte. Torna-se assim num clássico, numa obra-prima!

Realização: Michel Hazanavicius

Argumento: Michel Hazanavicius

Elenco: Jean Dujardin, Bérènice Bejo

França/2011 – Comédia

Sinopse: Hollywood, 1927. George Valentin é uma das maiores estrelas do cinema mudo. Certo dia conhece Peppy Miller, uma jovem e ambiciosa figurante, por quem fica fascinado. Mas a chegada dos filmes sonoros marca o fim da carreira de George, e faz de Peppy a nova grande estrela da nova indústria.

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