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As Escolhas de Sofia

A Viagem de Chihiro (2001) – Para Crianças, até as Crescidas

Ainda no rescaldo das férias, foi com grande tristeza que recebemos a notícia do encerramento (aparentemente temporário) do famoso Estúdio Ghibli, devido a insustentabilidade económica.

Este é o estúdio de animação japonês fundado em 1985, de que já vos falei a propósito do filme “O Túmulo dos Pirilampos”. Ghibli, cujo nome se refere ao vento mediterrânico, pretendeu sempre trazer novos “ares” à animação. E conseguiu. A animação Ghibli é mundialmente aclamada e não vai ser facilmente esquecida.

Os filmes de Miyazaki, um dos fundadores do Estúdio, usam, recorrentemente, temas como a relação da humanidade com a natureza e a tecnologia, o pacifismo, a ausência de vilões, e o feminismo, sendo muitos deles protagonizados por fortes meninas e mulheres, um padrão que contraria os papéis de género comuns na animação e ficção japonesa. “A Viagem de Chihiro” (“Sen to Chihiro no kamikakushi” (original) / “Spirited Away”), com argumento e direção de Miyazaki, é exemplo disso.

O único filme de língua não inglesa a ganhar o Óscar da Academia para Melhor Filme de Animação, conta a história da família Ogino na sua mudança para uma nova cidade. Os pais, Akio (voz de Takashi Naitô) e Yuko (voz de Yasuko Sawaguchi) estão bastante empolgados, mas o mesmo não se pode dizer da sua filha Chihiro (voz de Rumi Hiiragi), de dez anos de idade, que ficou muito transtornada por ter de abandonar a sua escola e os seus amigos. Durante a viagem o pai de Chihiro engana-se no caminho e chegam a uma gruta que constituí a passagem para uma misteriosa cidade que julgam ser um antigo parque de diversões.

No Japão, reza a lenda que existe uma cidade onde os espíritos, os deuses e os monstros descansam depois das suas tarefas, e onde a presença dos humanos é proibida e castigada com feitiços ou trabalho a favor dos deuses.

É neste mundo que começa a verdadeira viagem de Chihiro. Os seus pais tentados pelas maravilhas gastronómicas reservadas aos deuses são transformados em porcos (representantes da cobiça e da ganância) e Chihiro vai ter que trabalhar e esforçar-se para conseguir salvar a sua família.

Com a ajuda de Haku (voz de Miyu Irino), um misterioso rapaz que se torna seu amigo, consegue trabalho junto de Yababa (voz de Mari Natsuki), a bruxa que cuida dos banhos públicos onde os deuses se refugiam para relaxar.

Este local é alusivo aos banhos públicos que se tornaram populares no período Edo (período da história do Japão que foi governado pela da família Tokugawa, desde 1603 até 1868) que atraiam homens à procura de companhia feminina para banho e relações sexuais. Assim, de uma forma muito subtil o diretor e guionista japonês aborda e critica a questão do crescimento da indústria do sexo na era moderna.

Yababa exige que Chihiro deixe de usar o seu nome, trocando-o por “Sen”, desprovendo-a de identidade e rasgando as amarras com a sua história passada, oferecendo-lhe um novo eu, com um papel imposto por si. Isto acontece com muitas prostitutas que constroem uma personagem aquando o exercício da sua profissão, começando por atribuir-lhe um nome que não o seu, distanciando a sua identidade pessoal da sua identidade profissional.

No exercício da sua profissão Sen é submetida a vários afazeres, envolvendo essencialmente a limpeza de clientes bastante sujos. Um deles é um deus imundo de quem todos fogem. No entanto, Sen determinada em superar-se a si própria abraça a tarefa e descobre que este é na verdade o deus das águas, que está sujo por toda a poluição do mundo contemporâneo.

As suas vivências com monstros, espíritos e lendários seres do passado conduzem-na a extraordinárias aventuras, tornando-a uma sobrevivente, num mundo em que não existem vilões mas onde o bem e o mal habitam juntos.

O tema central de “A Viagem de Chihiro” é o crescimento e sobretudo o desenvolvimento desta menina que aprende a ser mulher. Chihiro que no início do filme é uma criança moderna, mimada e desinteressada vai ter que usar a sua coragem e lutar pelos seus objetivos.

Ao mesmo tempo, não deixa de referir-se ao conflito de gerações, procurando inspirar os mais novos a redescobrirem a beleza e pureza das tradições e das lendas do passado. Estão presentes temas variados como o preconceito, demonstrado pelos monstros em relação aos humanos, uma visão inteligentíssima do autor para criticar o olhar de superioridade que a raça humana lança aos outros animais e muitas vezes entre si.

Ainda assim, podemos encontrar simbolismo em qualquer uma das personagens do filme, em especial nas maravilhosas criaturas que habitam a cidade. Muitas se referem aos estados de espirito que exibimos ao longo do dia, outras a características de personalidade. No entanto, de entre estas uma se destaca. “Sem-Rosto” é uma das personagens mais enigmáticas de toda a película por ser um deus (aparentemente) sem personalidade, sem rumo, sem objetivo. Contudo, é nesta característica minimalista que se encontra todo o seu encanto, uma vez que acaba por refletir a personalidade de quem o encara. Conduzindo-nos à ideia de que somos o reflexo do que os outros são connosco, mas também da globalidade do ser, uma vez que ninguém é inteiramente bom, mas também ninguém é inteiramente mau.

Miyazaki refere que, na sua opinião, um filme só é verdadeiramente bom se 20 ou 30 anos depois continuar a marcar as pessoas como na data da estreia. Eu acredito que “A Viagem de Chihiro” é um filme verdadeiramente bom.

“A Viagem de Chihiro” (2001)_2