As Escolhas de Sofia

Presente de Morte (2009) – Uma Caixinha de Pandora

Numa época em que se realizam as últimas correrias às prendas, venho falar-vos de “Presente de Morte” cujo título português, infelizmente, revela demais do que o original “The Box” (A Caixa).

O filme tem como realizador Richard Kelly (o mesmo de “Donnie Darko”), que assina também o seu argumento, inspirado pela obra “Button, Button” de Richard Matheson (adaptado nos anos 80 num episódio da série “The Twilight Zone”), podendo incluir-se na categoria drama, suspense, thriller psicológico ou ficção científica, mas que sem dúvida se destina à crítica sociológica.

Também em plena época natalícia do ano de 1976, altura de grande expansão ao nível do conhecimento espacial dos Estados Unidos da América, a família Lewis é surpreendida com um presente inesperado. Norma (Cameron Diaz) é professora, o seu marido Arthur (James Marsden) é engenheiro da NASA e juntos têm um filho – Walter (Sam Oz Stone). Certa noite recebem visita de Arlington Steward (Frank Langella), um desconhecido que lhes deixa uma caixa com um botão e uma proposta tentadora. As regras são simples, se carregarem no botão vermelho, ganham 1 milhão de dólares, em contrapartida uma pessoa (desconhecida) irá morrer. O casal tem 24 horas para tomar uma decisão que pode alterar o rumo da sua condição financeira mas pôr em causa as suas convicções morais.

O que fariam vocês? Colocariam de parte a oportunidade de resolver todos os vossos problemas económicos para impedir que alguém morresse por responsabilidade vossa, sabendo que mesmo assim a mesma pessoa poderia morrer a qualquer momento? Se o fizessem, era pelo dinheiro, por não terem compaixão pela misteriosa vítima ou por não acreditarem que um simples botão tivesse todo esse poder? O pensamento “demasiado bom para ser verdade” alteraria a vossa tomada de decisão?

Arthur e Norma ponderam vários cenários, mas nenhum que lhes permitisse imaginar que as ramificações da sua decisão ultrapassariam de tal modo o seu controle.

Durante todo o filme as personagens são colocadas à prova sendo obrigadas a escolher entre o instinto humano naturalmente egocentrista e a moralidade imposta socialmente. É um filme tenso e incomum ao jeito do realizador, com uma mensagem altamente critica acerca da humanidade. Não é um filme para todo o público por se tornar confuso, mas justamente por assim o ser é um filme para quem admira o enigmático.

Neste filme Kelly incorpora o seu habitual moralismo pessimista e sarcástico, expondo as fraquezas do ser humano em pleno, fazendo a narrativa dançar entre o surreal e o real. Como crítica fica a excessiva exploração do anti-herói que se torna desnecessário e desfaz algum do mistério, valendo apenas pela brilhante atuação de Langella. Longe de ser um “Donnie Darko” o filme tenta misturar as teorias existencialistas com o eterno conflito entre a ciência e o sobrenatural, que se tornam interessantes, ainda que exploradas superficialmente.

"Presente de Morte" (2009)_1