As Escolhas de Sofia

“Mas quem é a Sofia? E porquê é que interessa o que ela escolhe? A Sofia é uma amante da sétima arte, com formação em psicologia, que nos trará semanalmente uma análise idiossincrática de um filme da sua preferência. Opinião sincera e repleta de curiosidades, acerca de filmes, muitas vezes ignorados pelas luzes da ribalta, mas que de alguma forma merecem protagonismo, pelo interesse do ponto de vista psicológico, da análise do comportamento e da personalidade, e dos benefícios de os visionar. Esperamos que não fique indiferente a esta nova rubrica, e que torne as escolhas da Sofia suas escolhas também!”

Uma Pequena Vingança (2004) – Nem Tudo é o que Parece

O bullying é um fenómeno crescente em Portugal e que, cada vez mais, ganha contornos graves e de grande agressividade. Contudo, as últimas notícias que envolvem o tema dão conta de que, apesar de tudo, esta é uma realidade à qual se continua a fechar os olhos e a considerar de forma branda o sofrimento que daí advém.

Define-se como uma forma de afirmação de poder através da violência, seja ela de índole psicológica ou física, incluindo intencionalidade e repetição. As consequências tendem a comprometer o desempenho escolar, social e emocional dos jovens vítimas, mas também ofensores e testemunhas. Na verdade, em cerca de 20% dos casos os agressores são também vítimas deste tipo de violência.

Este drama, escrito e realizado por Jacob Aaron Estes, que estreou em Portugal em 2005, conta a história de Sam (Rory Culkin) um tímido adolescente vítima de bullying por parte de George (Josh Peck), um rapaz grande, forte e mimado que domina o recreio escolar. Ao confidenciar o sucedido ao seu irmão mais velho – Rocky (Trevor Morgan) – resolvem organizar uma pequena vingança. Assim, juntamente com Clyde (Ryan Kelley) e Marty (Scott Mechlowicz) decidem levar George num passeio de barco no rio, com a ideia de o deixarem voltar para casa sozinho e sem roupa. O plano inicial vai caindo por terra quando Millie (Carly Schroeder), que descobre posteriormente as intenções dos colegas, se revolta, e os restantes se vão apercebendo que também George tem as suas fragilidades por detrás da mascara de durão que enverga.

No entanto, aquilo que seria, em princípio, uma partida “inofensiva” acaba por ganhar imprevisíveis contornos trágicos conduzindo o grupo num dilema sobre o certo e o errado, ao qual a audiência não consegue tornar-se indiferente, qualquer que seja o ponto de vista que privilegie.

Jacob Aaron Estes não se fica por aqui neste filme, ao proporcionar grande profundidade às personagens, brilhantemente interpretadas pelos jovens atores. “Uma Pequena Vingança” consegue demonstrar os dois lados da moeda, promovendo a empatia pelas personagens e a preocupação com o que lhes pode acontecer, ao mesmo tempo que nos causam repulsa pelos seus comportamentos. Além disso, não cai no cliché da existência dos “bons” que merecem o bem, e dos “maus” que devem ser castigados, que tantas vezes vemos em filmes com adultos. Explora o significado do poder da liderança e da necessidade de aceitação pelo grupo, principalmente nestas idades, mas também das questões da moralidade, da violência gratuita, das consequências dos atos e do que está na base das nossas atitudes e comportamentos.

Este é um filme extremamente envolvente e perturbador, que se desenvolve a um ritmo mais lento, mas que promove uma boa reflexão moral e ética, e uma visão elaborada da psicologia humana.

“Uma Pequena Vingança” (2004)_1