100 Anos de Charlot - banner 1

“Uma pequena silhueta patética e mal vestida, um chapéu de coco amolgado, umas calças largas, um botão de bigode, uns sapatos enormes e uma bengala pretensiosa”. Falo de Charlot, o vagabundo, uma complexa personagem que é parte patife, parte figura patética, parte herói, parte romântico, parte crítico social, parte cavalheiro, parte poeta, parte sonhador. Este, é o meu Charlot!

Autor do texto: Sofia Santos, blogguer (Girl on Film)

Charlot & Eu: #3_1

“Ao Serviço da História”

Ao longo da minha vida académica, foram várias as vezes em que as aulas de História se cruzaram com a Sétima Arte. La Guerre du Feu (A Guerra do Fogo) ilustrou a vida quotidiana de um grupo de hominídeos e o seu domínio sobre o fogo. The Grapes of Wrath (As Vinhas da Ira) de John Ford ilustraram a Grande Depressão de 29 e A Man for All Seasons (Um Homem para a Eternidade) de Fred Zinnemann mostrou um “episódio religioso” que alterou para sempre, o rumo e a história da Europa Moderna, etc. Os exemplos prolongam-se por anos de escolaridade e por épocas histórias.

No entanto, nenhum destes filmes teve (para mim) tanto impacto na apreensão da História como The Great Dictator (O Grande Ditador) e Modern Times (Tempos Modernos) do “mestre” Charles Chaplin.

The Great Dictator (1940) foi realizado pelo próprio Chaplin. É uma sátira crítica e cómica sobre os regimes totalitários e ditatoriais de Hitler e Mussolini. Na data do seu lançamento, os Estados Unidos da América ainda não tinham entrado na Segunda Guerra Mundial e estavam em paz com a Alemanha nazi. É o primeiro filme falado de Chaplin e está cheio de metáforas e de críticas subentendidas, sendo o discurso de Adenoid Hynkel ou Barbeiro judeu (a personagem de Chaplin) – no fim do filme – uma das cenas mais poderosas e didáticas do argumento. No discurso são abordados os valores máximos dos Direitos Humanos:

“Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos. (..) Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Queremos viver pela felicidade dos outros, não pela miséria dos outros. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. (…)” (tradução livre)

Modern Times tem The Tramp ou Charlot (na Europa) como personagem principal do filme. The Tramp é um homem pobre, distraído, mas sempre educado e cavalheiro. Também realizado por Charles Chaplin, aborda a “modernidade”, a Revolução Industrial, o Capitalismo, o Fascismo e o Fordismo. É um apontar de dedo à exploração laboral, à substituição de homens por máquinas e sobre o consequente aumento da pobreza e da criminalidade.

Seja com o seu peculiar bigode, a sua cartola, bengala e forma curiosa de andar, seja como outra personagem qualquer, Charlie Chaplin continua, ainda hoje, a maravilhar os aficionados da História e do Cinema. E tal como ele, também as suas palavras são eternas:

“Creio que não se pode fazer nada de grande na vida

 se não se fizer representar o personagem que existe dentro de cada um de nós.”

Charlot & Eu: #3_2Charlot & Eu: #3_3

Obrigado, Sofia Santos, pela colaboração.

100 Anos de Charlot - banner 4