Há quem pense que o cinema enquanto género artístico está a desaparecer a cada dia que a indústria cinematográfica anuncia mais inovadoras tecnologias na tela mágica. A fome pelo entretenimento cénico é cada vez mais voraz sacrificando o paladar e a beatitude do cinema pelas emoções fortuitas entre a jovem libido que se encontra secretamente nas salas de cinema e a curiosidade voyeurística de um sábado à noite, devorando as pipocas em compasso com o filme. Mas há, ainda, quem se encontre disponível para amar um bom filme quer em casa ou na sala de cinema.

Contudo, isto é um blogue de cinema e não das nuances etendências sociais. Wong Kar-Wai está entre os melhores e mais líricos cineastas da actualidade ao lado de revelações como Kim Ki-Duk e mestres como Zhang Yimou ou Tsai Ming-Liang. O primeiro chinês a ser eleito para o prémio de melhor realização do Festival de Cannes, nasceu em Xanghai a 7 de Julho de 1956 e “Disponível para Amar”, nomeado para a palma de ouro, é a sua sétima longa-metragem. O filme conta com as participações de Tony Leung, actor com quem o realizador trabalhou em vários filmes, e Maggie Cheung nos papéis principais.

O filme conta a história de dois casais, o casal Chan em que Maggie Cheung é a Sra.Chan, e o casal Chow em que Tony Leung é, respectivamente, o Sr.Chow. Ambos mudam-se para o mesmo prédio no mesmo diapara apartamentos vizinhos. Su Li-Zhen, a Sra.Chan, e Mo-Wan Chow, passam muito tempo sozinhos visto que os respectivos cônjuges trabalham longas horas. Passado pouco tempo de ambos começarem uma pequena relação de amizade SuLi-Zhen descobre que o seu marido a está a trair com a mulher de Mo-Wan, e conta-lhe a situação. Ressentidos pela mágoa encontram conforto um no outro tentando encarnar os seus cônjuges para tentar descobrir como tudo se passou. Embora, ambos não queiram cair na mesma tentação, depressa se apaixonam. Mo-Wan, tenta convencer Su Li-Zhen a esquecer o marido, mas não consegue suportar ter-se tornado também ela infiel e decide separar-se de Mo-wan, vivendo vidas diferentes. Na última cena do filme vemos Mo-Wan segredar ás ruínas de um templo a relação que viveu com vista a esquecê-la, e Su Li-Zhen com um filho, possivelmente de Mo-Wan.

A história trágica de “Disponível para Amar”, uma história de paixões secretas, traição, redenção, integridade e amor é filmada como se a câmara de Kar-Wai fosse um pincel, colorindo o ecrã com uma tela de contrastes fortes de cores quentes e frias, utilizando, por vezes, a profundidade de campo para retocar suavemente a tela. A cor é quase ela uma personagem que integra os desejos secretos das personagens, com os vermelho vivos, os azuis profundos e dramáticos e os amarelos estridentes. O uso de planos aproximados e estáticos funcionam como molduras para uma tela em perfeita harmonia, quebrando-a com ligeiras panorâmicas para planos das personagens capturadas por espelhos ou janelas em sintonia com uma banda-sonora memorável de uma sensualidade singular de Shigeru Umebayashi, misturando canções de Nat King Cole que irão ressoar na mente de qualquer espectador como um tesouro precioso para recordar. É também, necessário destacar Christopher Doyle, o director de fotografia que transformou a visão de Kar-Wai em verdadeiro lirismo cinematográfico.

“Disponível para Amar” é um filme que eleva o cinema ao seu potencial máximo, provando que o cinema não é só a sétima arte, mas também uma arte única e singular que consegue capturar a beleza de todas as expressões artísticas.

Realização: Wong Kar-Wai

Argumento: Wong Kar-Wai

Elenco: Maggie Cheung, Tony Leung

Hong Kong/2000 – Drama

Sinopse: Chow tem um segredo. Um pequeno segredo que estaria na origem da sua doce vingança, mas que acaba por transformá-lo na presa. Lizhen, cujo marido mantinha um caso há já algum tempo com a mulher de Chow, nunca pensou poder chegar tão baixo. Pensava apenas poder provar e depois fugir. Foi aí que se perdeu. A vingança parecia completa, até o gosto amargo da mentira aparecer. Mais uma vez o destino troca as voltas e Chow começa a desejar Lizhen, caindo na sua própria armadilha, tornado-se vítima dos segredos guardados no seu coração. Seguindo a lenda antiga que dizia que quando alguém tinha um segredo e se queria libertar dele, subia a uma montanha e escavava um buraco para nele enterrar o segredo, Chow vai até às ruínas de Angkor Wat. Para se libertar do seu segredo.

«Disponível para Amar» - Um Fresco Cinematográfico
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