Peppermint Frappé

“Peppermint Frappé”: o homem enquanto criador da figura feminina

Peppermint Frappé (Ideia Fixa, 1967) estreou sob o regime do General Franco, em Madrid, a 9 de Outubro de 1967. No ano seguinte, em Cannes, François Truffaut e Jean-Luc Godard, em conjunto com outros cineastas, tentaram impedir o screening do filme no festival como protesto a favor das revoluções estudantis de Maio de 1968 em França. Rapidamente, o realizador Carlos Saura juntou-se a eles e, pouco tempo depois, a comissão organizadora decidiu encerrar aquela que se tornou a edição mais política do festival.

O filme relata a história de um médico, Julián (José Vázquez) que se apaixona pela mulher do seu melhor amigo de infância, Pablo (Alfredo Mayo). O médico acredita convictamente que havia conhecido esta mulher, Elena (Geraldine Chaplin), em Calanda, aquando das celebrações da Semana Santa. A constante rejeição de Elena leva a que Julián se interesse por Ana (Geraldine Chaplin), tornando-a numa cópia visual de Elena e da mulher de Calanda. Como forma de potenciar o olhar subjectivo de Julián ao espectador, o realizador recorre à mesma actriz, Geraldine Chaplin, para interpretar três mulheres diferentes, que na óptica de Julián convergem numa só.

 

Os Nomes

Elena, variante de Helena, é um nome de origem grega que significa tocha. Este significado pode ser imediatamente remetido para o universo simbólico, associando-o ao fogo do desejo. Seguindo a mesma ordem de ideias e, transpondo o nome para a mitologia grega, Helena era uma mulher atraente, manipuladora e, de acordo com a Ilíada de Homero, a causadora de uma das guerras mais devastadoras da História. Esta duplicidade entre submissão e poder é considerada durante o filme, onde Elena tanto adopta um papel submisso enquanto objecto de desejo de Julián, como de domínio ao criar a desordem entre Julián e Pablo e motivar o desfecho trágico da película.

Ana deriva do hebraico Hannah e significa cheia de graça, nome muitas vezes entendido no sentido de dádiva. Se Elena pode ser entendida como uma femme fatale, Ana é exactamente o contrário, uma mulher simples, uma tela em branco pronta a ser pintada. Neste sentido, Ana não só é uma mulher angelical, contrastando com Elena, como uma dádiva para Julián, pois sendo parecida fisicamente com Elena, Julián pode projectar nela todos os seus desejos.

Julián tem origem no latim e significa da família de Julio, representando o nome da gens Iulia/Julia do Imperador Júlio César. A escolha do nome parece pertinente, não só num sentido histórico, dadas as capacidades de Carlos Saura em ultrapassar a censura franquista, mantendo um cinema político; como também diegético, dado Julián ser a figura de poder da narrativa, controlando a vida de Ana e o destino do seu amigo Pablo e, respectiva companheira, Elena.

 

O Início

Peppermint Frappé abre com um grande plano de umas mãos masculinas a rasgar uma página de uma face feminina de uma revista.

Figura 1 O homem por trás da mulher

Retirada a página cortada, surge a página anterior, um rosto masculino, que pode remeter para o homem enquanto criador da figura feminina, como será o caso de Julián na qualidade de criador de Ana. Simultaneamente, irrompe o som de uma música litúrgica, El Misterio de Elche, reiterando desde logo o carácter religioso associado à personagem de Julián. A utilização de régua e caneta para traçar as partes corporais femininas que deseja recortar demonstram o desejo e a necessidade de controlo do protagonista. A preocupação de Julián em criar um caderno de recortes com aquilo que gosta numa mulher, caderno este que mostrará a Ana, aponta imediatamente para a vontade deste de construir uma mulher à sua maneira. Mas não só, tal como Willem salienta, Julián preocupa-se apenas em cortar pedaços de mulheres, artificialmente melhoradas através de peças de vestuário ou maquilhagem e, não uma mulher no seu todo, apontando para uma predisposição por uma mulher genérica, ou seja, um mero “aglomerado de partes”. De acordo com o realizador, os recortes das revistas demonstram a obsessão de Julián por objectos e o fetichismo pelos produtos de beleza que ajudam a criar uma “mulher artificial.

As imagens de diversas partes do corpo femininas, tal como a música, são interrompidas pela passagem para a radiografia de uma caixa torácica. O espectador é agora introduzido ao rosto do protagonista Julián e, de seguida, à sua voz. As primeiras palavras de Julián são no sentido de dar uma ordem à enfermeira Ana, que lhe responde: “sim, senhor”. Após entregar o envelope a Julián, este pede um novo favor a Ana que, imediatamente, responde: “o que quiser, senhor”.

Estes três minutos iniciais do filme são importantes para estabelecer a estrutura diegética central. Desde logo, Julián é apresentado como um homem controlador, que manifesta um desejo de poder sobre o corpo feminino, o que não só é reflectido pelos recortes das revistas, como também pelas primeiras linhas de diálogo entre Julián e Ana, através das quais esta se mostra submissa e pronta a fazer tudo o que Julián lhe peça.

 

Julián e Elena

O primeiro encontro

Julián prepara-se para sair de casa, não sem antes retirar uma foto a preto e branco de duas crianças – o próprio juntamente com o amigo Pablo – e colocá-la no bolso. Este dirige-se até à casa de Pablo, onde será proporcionado o primeiro encontro entre Julián e Elena.

Enquanto Julián conversa com a mãe de Pablo dá-se um campo/contracampo entre o rosto de Julián e a figura de Elena com um vestido branco a descer as escadas progressivamente. Tal como os recortes de Julián, também Elena é apresentada por partes, primeiro os tornozelos, depois as pernas e o torso e, por fim, o seu rosto. Assim que Julián tem acesso à sua imagem por completo surge o som do rufar de tambores e o espectador tem acesso a uma imagem activada por Julián daquilo que ele crê ser Elena a tocar tambor com o mesmo vestido branco aquando das festas da Semana Santa de Calanda. A explicação da imagem activada pela consciência de Julián fica explícita e ganha contornos de algo entre o flashback e o sonho. Na óptica de Julián trata-se claramente de um flashback, pois este acredita ter conhecido Elena em Calanda há algum tempo atrás. Contudo, de acordo com Elena, isto não será mais do que o fruto da imaginação de Julián e, ao longo da película, Elena continuará a defender que nunca havia conhecido Julián. De acordo com Chatman, o mundo narrativo é provido de um filtro que remonta para a actividade mental dos personagens, ou seja, quem vê. Neste sentido, Julián é a personagem que vê durante todo o filme, o que é evidenciado pela mulher de Calanda, personagem ausente da narrativa e que despoleta toda a acção.

O flashback é interrompido por Pablo que oferece um peppermint frappé à mulher e ao amigo, perguntado-lhe: “continuas a beber isto?”. O peppermint frappé é uma bebida de sabor mentolado que esteve muito em voga durante os anos 60 e 70 nas discotecas espanholas, sendo maioritariamente consumida por mulheres. Curiosamente, ao longo do filme, raras são as vezes em que Pablo bebe um peppermint frappé, estando esta bebida sempre associada a Elena e Ana ou a Julián, que denuncia um interesse claro pelo universo feminino, contrastando assim com Pablo.

A donzela e o demónio

O segundo encontro entre Elena e Julián é proporcionado por Pablo. Numa visita ao consultório de Julián, Pablo pede-lhe que leve a sua mulher a passear. Julián aceita e dirige- se até ao carro desportivo de Pablo, onde a atracção sexual de Julián por Elena se manifesta através do plano de visão subjectiva de Julián sobre as meias de Elena enquanto esta lhe explica como deve colocar as mudanças – o que, simultânea e paradoxalmente, aponta para a inexperiência de Julián em actividades consideradas masculinas e a tensão sexual sentida entre os dois personagens.

 

Figura 2 A mão de Elena na cruz de pedra

 Numa visita a um jardim local, Julián conta a Elena a história de um diabo que tentou seduzir uma donzela. A donzela contrariou todas as tentativas do diabo até este tocar no seio dela e, consequentemente, transformá-la numa cruz de pedra. Elena ri-se da história popular e coloca uma mão sobre a cruz de pedra exclamando: “é igual à minha mão!”, ao que Julián responde: “essa é a mão do diabo”. Esta afirmação inocente de Elena é a primeira figuração desta enquanto um monstro e funciona como uma premonição do desfecho trágico de Peppermint Frappé.

No decorrer do passeio, Julián volta a insistir na ideia de que ele e Elena já se conhecem, socorrendo-se da ferida da mão desta não só como uma consequência de ter participado nas festas de Calanda, mas também como prova de um encontro fortuito no passado. Rapidamente, Elena apressa-se a desmentir e a dar uma explicação para a sua ferida, dizendo que se havia cortado a abrir uma cerveja. Contudo, a visão turvada de Julián, que apenas vê partes e não todos, rejeita a fundamentação de Elena e prorroga a sua crença inicial.

O passeio termina com uma visita ao cabeleireiro, onde Julián e Elena conversam sobre o estatuto da mulher. Numa clara alusão às normas morais impostas pela Igreja Católica, Julián critica Elena por não querer ter filhos, argumentando que é para tal que a biologia feminina está programada. A conversa evolui para a temática do casamento e, após Elena ser chamada pela cabeleireira, Julián pega na sua mala e fica encantado com as pestanas falsas que encontra no interior. Um travelling sobre a mão e o anel de Elena despoletam um novo flashback, a preto e branco, de uma menina vestida de branco a correr pela floresta, onde é encenado um casamento de brincadeira entre esta menina e Pablo. No final, há um grande plano sobre a face de Julián que parece exteriorizar os ciúmes do personagem em relação ao seu amigo de longa data, Pablo.

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