Quem leva a Palma em Cannes 2023?

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Numa competição com fortes candidatos à palma, o retrato subversivo do Holocausto de “The Zone of Interest” do inglês Jonathan Glazer parece ser a escolha mais óbvia. No entanto, foram os filmes de e sobre mulheres que mais gerou tema de conversa por Cannes: “May December”, o psicodrama de Todd Haynes e o exasperante “Anatomie d’une chute” de Justine Triet.

Na coletiva de imprensa com o júri internacional, no primeiro dia do festival, o presidente Ruben Ostlund disse que não gostava de consensos e que iria fazer de tudo para ter uma palma de ouro que fosse, sobretudo, ousada e revolucionária.

Se isso realmente se concretizar, o melhor filme deste concurso “The Zone of Interest” deverá sair de mãos vazias. Não sabemos como o assombroso filme do inglês Jonathan Glazer foi recebido por entre o júri encabeçado pelo sueco, mas entre a crítica internacional presente no festival ele foi, de longe, o filme mais consensual dos 21 filmes competindo pela palma.

No quadro de estrelas organizado pelo Cinema Sétima Arte com vários nomes conhecidos da crítica do Brasil e de Portugal, como Flávia Guerra do UOL, Teresa Vieira (À Pala de Walsh) Chico Fireman (Cinema na Varanda), Márcio Sallem (Cinema com Crítica ) e Pablo Villaça (Cinema em Cena) o filme de Glazer foi a escolha mais unânime entre eles.

O inglês filmou o Holocausto de uma forma nunca antes vista, mas sem nunca tê-lo de facto filmado, invertendo a sua câmara para o centro da vida de um comandante encarregado de gerir o campo de concentração de Auschwitz e da sua família, enquanto acompanhamos o seu cotidiano, sob os sons abafados dos horrores que acontecem logo ali do outro lado do muro. A banalização do mal como nunca a vimos antes, de uma forma que choca sem nunca mostrar uma única cena de violência. “The Zone of Interest” é o filme-bomba desta edição e um filme que esperamos ter feito algum eco nas deliberações deste júri que não quer saber de consensos.

De qualquer forma, 2023 foi um ano relativamente superior ao ano passado no que diz respeito aos filmes da competição. Só na primeira semana, para além do filme de Glazer, teve também “Youth (Spring)”, o documentário de quase quatro horas do chinês Wang Bing, que assim como Wim Wenders, contou com dois filmes no programa deste ano.

No filme, o realizador chinês faz um retrato denso e meticuloso sobre um grupo de adolescentes trabalhando numa sweatshop têxtil num subúrbio da cidade de Zhili, na sua China natal. É um belo filme, que compartilha muitas semelhanças com o extraordinário e emocionante documentário de Marcelo Gomes “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, sobre uma cidade inteira trabalhando intensamente em improvisadas fábricas de roupas, superando as dificuldades de um capitalismo selvagem avassalador, e com o desejo de um futuro que parece estar muito longe.

Entretanto, apesar da exploração de temas e cenários semelhantes, o filme chinês não interfere na vida de seus personagens como no filme do Marcelo Gomes. Ao invés disso, Bing concentra-se exclusivamente na mera observação destes jovens, ao longo das suas três horas e cinquenta três minutos de duração. Essa abordagem deixa a audiência física e emocionalmente exausta, mas com o propósito de nos compelir a confrontar as duras realidades enfrentadas por esses jovens, a maioria deles no final da adolescência, da mesma forma que eles a vivenciam: lidando com horas e horas de tarefas enfadonhas e mecânicas, enquanto negociam um possível escape desta cruel realidade.

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“Les Filles d’Olfa” da realizadora Tunisiana Kaouther Ben Hania

Notavelmente, o épico de Wang Bing marca a segunda entrada de um documentário na competição, seguido de um filme da Tunísia, “Les Filles d’Olfa” (ou “Four Daughters” em inglês) de Kaouther Ben Hania, e que também chamou alguma atenção durante a primeira semana do festival.

O filme é uma experiência curiosa que mistura documentário e ficção para contar a história de Olfa Hamrouni, uma mãe tunisiana que ganhou manchetes internacionais em 2016 ao divulgar a radicalização de duas das suas quatro filhas, que deixaram a Tunísia ainda adolescentes para fazer parte da ISIS e que depois desapareceram sem deixar rastro.

Ben Hania estreou aqui na Un Certain Regard o seu belíssimo e comovente “Beauty and the Dogs” de 2017, sobre uma jovem que é violada por um grupo de policiais e que busca atendimento em esquadras da cidade para registrar seu crime, só para se encontrar encurralada num tenso e misógino pesadelo Kafkiano. Três anos depois, a realizadora ganharia fama mundial com o igualmente assombroso “O homem que vendeu a sua pele”, nomeado ao Oscar de melhor filme Internacional em 2021. Portanto, as expectativas para o novo filme eram grandes.

Infelizmente, “Les Filles d’Olfa” não parece dar continuidade ao cinema inquietante e meticuloso da realizadora, que precisava de mais tempo para maturar uma ideia com uma premissa muito intrigante. Contudo, se o júri de Ostlund seguir a onda das últimas edições dos grandes festivais europeus, como Veneza e Berlim, que deram os seus prémios máximos a documentários, sinalizando a importância de mais filmes de não-ficção nas suas seções principais, pode ser que o filme de Ben Hania tenha alguma sorte neste palmarés de amanhã.

Um festival feito de mulheres

Apesar de contar com apenas 7 filmes (entre 21) de realizadoras na sua competição principal, as histórias de mulheres ditaram a tonalidade dos temas da 76ª edição. Com apenas o seu terceiro filme no festival, a edição de 2023 consagrou Justine Triet como uma das grandes autoras dessa competição. Depois de “Victoria” estrear na Semana da Crítica em 2016 e de “Sybil” subir à competição em 2019, a francesa aparece com o austero e angustiante “Anatomie d’une chute” que, apesar de todo o seu moralismo disfarçado, teve uma recepção bastante calorosa no festival, especialmente por parte da crítica francesa, que encontrou no filme o seu grande favorito à palma.

O filme conta a história da escritora alemã Sandra (Sandra Hüller), ela vive há um ano isolada nas montanhas algures na França com o marido Samuel (Samuel Theis), um músico e professor universitário, e o filho cego de 11 anos, Daniel.
Até que numa tarde de inverno, alertada pelo filho, ela descobre o corpo sem vida do seu companheiro, vítima de uma queda do terceiro andar de seu chalé. É aí que entra em cena o jogo das aparências. Será mesmo que ele caiu ou foi empurrado? Sandra logo vira a principal suspeita do possível homicídio mas permanece em liberdade com o filho, sob a supervisão de um funcionário da justiça, enquanto um julgamento em tribunal se desenrola e onde a vida do casal é dissecada sob o escrutínio público.

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“Anatomie d’une chute” de Justine Triet

A realizadora se disse fascinada pela história de Amanda Knox, a americana que passou quase quatro anos cumprindo pena numa prisão italiana pelo assassinato de Meredith Kercher, em 2007, crime que nunca foi inteiramente solucionado. No entanto, o problema de “Anatomy of a Fall”, o título do filme em inglês, é que ele é fortemente carregado de uma agenda reacionária, com ares de filme justiceiro, que está sucessivamente a dar lições moralizantes à sua audiência, por meio de constantes plot twists cuidadosamente manipulados para confundir os sentidos.

De qualquer forma, Triet está, felizmente, muito pouco interessada em realizar um filme centrado no whodunnit. Ela quer, ao invés, falar das complexidades das relações afetivas e dos mecanismos da justiça; estes, incapazes de compreender as áreas cinzentas das arbitrariedades humanas.
Portanto, sim, há muito o que se aproveitar do filme dela, não fosse a forma impositiva e opressora com que discorre a sua narrativa, se alongando nas suas duas horas e meia de duração, sob uma infinita quantidade de diálogos que não nos permite respirar e organizar as ideias. Ainda sim, pelo menos temos a imensa Sandra Hüller, numa das grandes atuações deste ano e que provavelmente levará o prémio de atriz.

E por fim, ainda sobre as várias histórias de mulheres que permearam a competição de 2023, chegamos a “May December” o belíssimo filme de Todd Haynes, que atualizou as paisagens dramáticas de Chabrol e Bergman, adicionando-lhe um filtro camp e a música misteriosa e decadente do compositor brasileiro Marcelo Uchoa Zarvos, que ajudou o realizador americano a moldar a forma e a atmosfera onde “May December” é construído.

Natalie Portman faz a atriz hollywoodiana que vem ao encontro da personagem de Julianne Moore, uma mulher envolvida num escândalo sexual nos anos 90 e que agora vê a sua vida ser adaptada ao cinema. Elisabeth (Portman) chega com o seu bloquinho de notas para estudar Gracie (Moore) e pouco a pouco as duas começam a se canibalizar, perdendo-se nas suas próprias identidades.

A primeira vista, o filme de Haynes não parece representar o statement de Ostlund de que quer lutar por um palmarés “ousado e revolucionário”. Mas sendo “May December” sobretudo um filme de atores e sobre performances — as ficcionadas e as que criámos no mundo real, e com um júri composto essencialmente por atores, Brie Larson, Paul Dano, Denis Ménochet e Maryam Touzani é muito improvável que o filme saia de mãos vazias.

Aguardaremos então ansiosamente pelas cenas do próximo capítulo. O palmarés se conhecerá amanhã à noite com transmissão ao vivo no site do festival ou pelo canal no YouTube.

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