Querido Diário: Edição Cineclubes #2 (Aveiro)

Querido Diario - Edição Cineclubes

“Querido Diário: Edição Cineclubes” é uma rubrica original dos criadores do Cinema 7ª Arte que remete o leitor para uma viagem de vespa por Portugal fora, numa demanda dos cineclubes ainda ativos. De cidade em cidade, iremos conhecer cada cineclube e os seus nativos que se esforçam por partilhar a paixão pela sétima arte.

 

Famosa pela sua ria, moliceiros e ovos moles, a “Veneza de Portugal” tem mais para oferecer a quem estiver interessado, nomeadamente o seu cineclube. Obrigado por serem a segunda cidade a receber-nos. Sabemos, com muita tristeza, que o cineclube de Aveiro está hoje paralisado. Em março deste ano fizeram um comunicado na página do facebook, sobre o impedimento da atividade regular do cineclube, por parte da Câmara Municipal de Aveiro. Ficaram sem o espaço Teatro Aveirense e sem os apoios financeiros do ICA.

Legenda: C7A – Cinema 7ª Arte / CCA – Cineclube de Aveiro

C7A: Como é que um dos cineclubes mais antigos e ativos do país termina assim a sua atividade?

CCA: O Cineclube de Aveiro mão terminou a actividade, mas sim suspendeu-a nos moldes em que se tinha desenvolvido nos últimos anos. Devido a uma opção da tutela do Teatro Aveirense, que preferiu chamar uma recém formada associação para a vertente cinematográfica do Teatro Aveirense, rasgando um protocolo que vigorava há alguns anos entre o CCA e o Teatro Aveirense, essa actividade está suspensa. 

C7A: O público adere com facilidade à vossa programação? Vocês criam uma programação pensada em exclusivo para o público?

CCA: A programação do Cineclube tem como objectivo permitir a visualização de filmes, os chamados “filmes de autor”, que não são exibidos pelo circuito dito comercial, mas que são do interesse de muitos espectadores. A programação é feita pensando primeiro na qualidade cinematográfica das obras e no potencial interesse que os nossos espectadores terão na obra.

C7A: É difícil para vocês criar uma programação de cinema mais independente e com clássicos do cinema, sem que não apareça muito público?

CCA: A missão dos cineclubes tornou-se mais difícil nos últimos anos, uma vez que tal como o resto do sector, a perda de público também nos afectou. No entanto, os filmes exibidos pelo Cineclube de Aveiro sempre tiveram uma boa adesão por parte de um público fiel que já vem usufruindo das nossas sessões há mais de 10 anos.

C7A: Costumam passar algum cinema português?

CCA: Sim, o cinema português tem sido alvo de atenção da nossa parte, principalmente porque fazemos uma Mostra de Cinema Português todos os anos. Em 2011, data da última Mostra, foi a sexta edição. 

C7A: Atualmente, em época de muita crise, onde as pessoas tem menos dinheiro para ir ao cinema, como conseguem gerir as contas do cineclube?

CCA: É uma das tarefas mais difíceis nos dias que correm. As receitas de um Cineclube provém da bilheteira e de programas de apoio. Actualmente os apoios à exibição cinematográfica são diminutos. Os apoios do ICA foram cancelados em 2012 o que dificultou muito a actividade nesse ano. Há também apoios a nível local, mas nem sempre o cumprimento dos protocolos a nível local é total.

C7A: Qual a importância deste cineclube para a cidade de Aveiro e qual a importância dos cineclubes hoje na sociedade?

CCA: Apesar do Cineclube de Aveiro ser uma associação cultural cuja actividade se restringe à cidade de Aveiro, a verdade é que as sessões contavam com espectadores essencialmente da cidade, mas também de vários locais do distrito, desde Albergaria, Cantanhede, etc. A exibição cinematográfica em Portugal tem lacunas, nomeadamente ao nível do cinema de autor. Os Cineclubes ajudam a preencher essa lacuna, permitindo aos espectadores terem acesso a certas obras e podendo vê-las com uma qualidade mínima, sem terem de se deslocar aos grandes centros, nomeadamente Lisboa.

C7A: Sentem falta de apoios do estado ou das câmaras municipais para os cineclubes?

CCA: Esse é um dos maiores problemas actualmente. O Cineclubismo é uma actividade financeiramente não lucrativa, mas com custos elevados. Os programas que existiam para a exibição cinematográfica e os apoios, muitas vezes logísticos, que as entidades locais prestavam são um pilar fundamental para a sobrevivência dos Cineclubes.

C7A: Acham que deveria haver uma maior relação de parceria entre outros cineclubes do país?

CCA: A existência de parcerias seria uma boa forma de os Cineclubes se ajudarem uns aos outros. Existiram e existem alguns contactos para se estabelecerem parcerias e projetos comuns. Talvez no futuro isso venha a acontecer, quando o Cineclube de Aveiro recomeçar a sua actividade.

C7A: O cineclube só vive da dedicação e trabalho dos voluntários?

CCA: Todos os elementos da direção do Cineclube são voluntários. 

C7A: Película ou Digital?

CCA: A mudança de película para digital é um sinal da evolução tecnológica à qual o cinema não ficou imune. No entanto, para os Cineclubes é um investimento muitas vezes incomportável. Os programas de apoio para aquisição de equipamento de projeção digital tem tido avanços e recuos o que não facilita a vida aos Cineclubes. Uma vez que muitos Cineclubes utilizam salas e espaços camarários ou geridas por estas, caberias às Câmaras financiar a aquisição de tal equipamento. 

C7A: Um dos principais objectivos de um cineclube é o de discutir e refletir sobre cinema. Acha que os cineclubes hoje tem cumprido essa missão, para além da simples exibição?

CCA: Os Cineclubes desempenharam esse papel num momento em que o acesso à informação era muito restrito. Hoje em dia, os meios de comunicação e a Internet democratizaram a discussão e reflexão, criando até um efeito contrário. Há alguns casos de Cineclubes nacionais que desenvolvem um trabalho muito importante e meritório nessa área. O Cineclube de Aveiro tem desenvolvido contactos e planos nos últimos dois anos, que foram suspensos tal como a actividade.

C7A: Concluindo, o cineclube de Aveiro vai continuar a lutar pela sua sobrevivência?

CCA: Isso é certo. O Cineclube de Aveiro tem mais de 50 anos de vida e continuará a existir e a ocupar o lugar que é seu no panorama cultural Aveirense, fazendo obviamente por o merecer e por desempenhar a sua actividade de forma a servir os interesses cinematográficos dos Aveirenses.

Mais uma vez, um muito obrigado ao Cineclube de Aveiro!

Cineclube de Aveiro_logotipo

Querido Diario - Edição Cineclubes - #2

Próxima paragem: Cineclube do Porto

Uma ideia original de

Cinema 7ª Arte

Texto de

Tiago Resende

Revisão de

Eduardo Magueta