“The Velvet Underground” – A Revolução Silenciosa

“The Velvet Underground”, o documentário de Todd Haynes para a Apple TV+, estreado em Portugal a 15 de Outubro naquela plataforma de streaming, é discretamente ambicioso, a começar pelo título.

Simples, apresenta-se exclusivamente com o nome da mítica banda nova-iorquina dos anos 60 e ainda parte dos 70 sem subtítulo ou quaisquer outros atributos.

Uma deliciosa e enganadora simplicidade e uma ambição disfarçada de modéstia, a que o realizador atribui a querer muito que ali se conte a história da banda, mas também das pessoas que dela fizeram parte.

De repente, aqui se apresenta “O” documentário, “A” verdade sobre os Velvet Underground, parece gritar do alto da sua imponência. É enganador esse desejo de querer ser dono da verdade, quando apenas quer repor a sua versão dos factos, recorrendo em profundidade às fontes e aos intervenientes.

Recorrendo a entrevistas da época, nos casos em que as pessoas já não se encontram vivas, ou a entrevistas recentes, Haynes reconstitui à distância de todas estas décadas a importância da banda, mas também e sobretudo a cultura que a rodeava e na qual se inspirou.

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Lou Reed, Andy Warhol e Maureen Tucker

Com o decorrer do primoroso trabalho de Haynes, fica claro que o realizador quer repor a verdade sobre a banda – simples! Só que os Velvet foram tudo menos simples e este trabalho extremamente dedicado e rigoroso consegue transpor esse espírito para a tela.

The Velvet Underground” é os Velvet: caóticos, errantes, geniais, pioneiros, conflituosos, ambiciosos. É o contexto daquela Nova Iorque vibrante, repleta de novidade, de vida, de novas linguagens estéticas, novos nomes, e, sobretudo, a cidade de Andy Warhol, o homem que pouco falava, mas com quem todos queriam privar.

Os Velvet formaram-se em 1964 precisamente sob a égide de Wharol. Foi decisivo o seu papel na vida da banda e ao mesmo tempo fonte de polémica, para além da especulação acerca do interesse de Andy em Lou Reed, mas Haynes não se estende muito em considerações acerca da sexualidade de ambos.

A sua influente figura acabou por talhar uma imagem muito mais estética do que ética, longe do que tanto Lou Reed como John Cale pretendiam para a banda.

Por um lado, trouxe Nico e a arte pop de Warhol e a oportunidade de gravação do primeiro disco, por outro vendeu uma ideia da qual sobretudo Reed não queria fazer parte.

Ao mesmo tempo, homenageia a sua heterogeneidade e o seu próprio experimentalismo, não se limitando a sentar-se, filmar e mostrar uma sequência linear e certinha.

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A banda – Maureen Tucker, John Cale, Sterling Morrison e Lou Reed

Visualmente, o realizador de “Carol” ou “I’m Not There – Não Estou Aí” mostra o seu enorme trabalho com imagens de arquivo numa estética fiel ao experimentalismo visual e sonoro que rodeava a banda.

Apesar do seu óbvio interesse por música e por falar dela na sua obra ficcional, esta é a primeira vez que Haynes se aventura no documentário e nele se encontra espelhada aquela mesma perspectiva de mostrar olhares diferentes sobre pessoas tão míticas que quase não se coloca a questão de serem só humanas.

Apenas essa profunda empatia com a pessoa por detrás do mito explicaria o caminho árduo que Haynes percorreu para retratar de forma digna a mística Nico – é, talvez, o momento em que mais se nota um verdadeiro esforço, quase físico.

Nico e Lou Reed
Nico e Lou Reed

Nico, a impenetrável mulher germânica cuja beleza ofuscou tantos ao ponto de quase cair no esquecimento o seu enorme contributo para a estética da época, resgatado muito mais tardiamente, como normalmente acontece a quem está muito à frente do seu tempo.

Haynes certifica-se em mostrar como Nico queria ser tratada, a personalidade para lá da cara e como, aliás, a sua carreira a solo como cantora acabaria por demonstrar.

Na temática musical, encontra-se no catálogo de filmes de Todd Haynes “Velvet Goldmine”, “I’m Not There – Não Estou Aí”, a curta “Superstar: the Karen Carpenter Story” e ainda o videoclip de “Disappearer”, dos Sonic Youth.

Nestas incursões pela música, Haynes não está apenas a falar de música, procura incorporar uma multiplicidade de visões que querem apontar diversas hipóteses de se pensar a arte e a pessoa.

The Velvet Underground” é o expoente máximo do experimentalismo de Haynes e não deixa, contudo, de ser parte do seu catálogo ficcional, já que inevitavel e obviamente a edição de um documentário é uma interpretação.

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John Cale, Lou Reed e Sterling Morrison

Pensar sobre “The Velvet Underground” é pensar a versão que Todd Haynes recolheu e respirou depois de todo o trabalho de recolha documental e de ir até às fontes.

Basta recordar a tarefa mítica de encontrar Maureen Tucker, a baterista dos Velvet, que acabaria por ser localizada e de bom grado se envolveu no projecto, depois de Haynes ter receado que Tucker não estava disponível para participar – não tinha, afinal, recebido as suas mensagens.

The Velvet Underground” é o trabalho de um historiador, de um antropólogo, de um homem com uma visão, com um sentimento apuradíssimo quanto ao caldo cultural em que os Velvet se formaram.

Todd Haynes gosta das suas experiências e com isso pode trazer um dos poucos senãos do documentário – um risco que decorre da profissão. Se apanhar o espectador tão de surpresa pelo seu início desconcertante, pode ser difícil que cative fãs ou não fãs da banda.

O modo como o realizador opta por contextualizar o Velvet pode deixar sem Norte quem o procura, mas a ideia é deixar que a onda leve o espectador. A primeira longa parte de um longo e genial documentário demora-se precisamente na construção do entorno e do contexto, por isso é preciso que o espectador se ancore.

Surgem imensas imagens divididas, a explicação para o experimentalismo sonoro de John Cale, uma grande homenagem ao inovador trabalho visual do realizador Jonas Mekas, de que Haynes ainda recolheu depoimentos em entrevista antes da morte da lenda.

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Experimentalismo visual

No meio de todo esse caos criativo, o experimentalismo no cinema, na música, na imagem, na publicidade, tudo em ebulição e, no meio, o nascimento de uma banda que teria de aguardar mais umas décadas até que se percebesse a monstruosidade da sua vanguarda.

Perder “The Velvet Underground” é perder a oportunidade não só de conhecer melhor os Velvet, é uma oportunidade de olhar através dos olhos de alguém que é tão ambicioso quanto humilde e rigoroso.

Até nessa complexidade individual Haynes é fascinante, porque confere ao documentário igualmente um pouco da sua personalidade contraditória ou daquilo que o espectador pode pensar ter apreendido.

Pode ser-se ambicioso e humilde, rigoroso e caótico, criativo e minucioso, “The Velvet Underground” é a prova mais que provada disso mesmo.

The Velvet Underground” teve estreia mundial em Cannes, este ano, fora da competição, e estreou a 15 de Outubro na Apple TV+, em Portugal e internacionalmente. A estreia em cinema ocorreu apenas em determinados mercados e salas selecionadas, plano do qual Portugal não faz parte.

Este texto não foi escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico

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