«A Vida de Pi» – Mais um grande trabalho de Ang Lee

Hoje em dia estamos bastante habituados a queixar-mo-nos que os grandes filmes não apostam em conteúdo diferente, sabem todos ao mesmo; não é portanto de estranhar  que as expectativas cresçam quando temos um filme cuja narrativa aparentemente gira toda à volta de um actor desconhecido e de uma alternância entre um tigre real e um tigre feito em CGI dentro de um pequeno barco à deriva no meio de um oceano. Uma história que poderia ser pouco aconselhável a filmar acabou por ser uma das grandes revelações do ano e sem dúvida que o mérito aqui deve ser dividido entre Ang Lee (o realizador) Claudio Miranda (director de fotografia) e o estreante Suraj Sharma (o protagonista).

Contudo quem vai para o cinema a pensar que vai ver um filme de sobrevivência ao estilo de “Cast Away” pode ficar bastante surpreendido por descobrir que afinal “Life of Pi” é bastante diferente do esperado; Ang Lee apontou o seu filme para temáticas como a espiritualidade e a determinação, o auto-descobrimento e a dúvida pessoal, banhando esses temas em algum melodrama e fantasia, criando uma espécie de fusão entre “Forrest Gump” e “Big Fish” com toques de “Tree of Life”. É certo que estes temas podem ser um elemento de distracção para alguns espectadores mas a ambição do filme é enorme e a experiência visual que nos é dada durante as suas duas horas é digna de elogiar vezes sem conta e fazem com que os pequenos tópicos que nos são atirados através da narrativa e temática do filme sejam ultrapassados.

Mas comecemos pelo início: A narrativa começa quando um escritor (Rafe Spall) visita um  indiano de meia-idade residente no Canadá, chamado Pi Patel (Irrfan Khan). O escritor diz que foi enviado pelo tio de Pi para que este lhe pudesse contar a história da sua vida e de como sobreviveu a um naufrágio, história essa tão incrível que iria fazer o escritor acreditar em deus. Pi começa então a contar a história da sua vida, desde a sua infância passada em Pondicherry na India onde a sua família era dona de um zoo até ao dia em que devido a problemas financeiros os seus pais são obrigados a emigrar para o Canadá, levando consigo todos os seus animais. A viagem (como é de esperar pelos trailers do filme) acaba por correr mal e o jovem Pi (Suraj Sharma) vê-se então sozinho no meio do Pacífico num pequeno barco salva-vidas e uma jangada improvisada. Para agravar tudo, dentro do barco está também o imponente Richard Parker, o tigre de Bengala que tal como Pi conseguiu safar-se do acidente. É então aí, com o espectador já apanhado na rede narrativa do filme, que os eventos começam a desenrolar-se e o filme ganha toda uma nova forma.

“Life of Pi” lembra-nos então que Ang Lee não é um realizador qualquer e aqueles que já viram “O Tigre e o Dragão” sabem que os seus filmes podem ser belos, coisa que este filme é, sobretudo nas cenas passadas no meio do Oceano, onde o infinito gritante da água choca com a claustrofóbica ideia de partilhar um pequeno barco com um tigre de bengala e onde todos os cenários e animais que eventualmente aparecem ganham um contorno fantástico, mágico, sobretudo pela forma como tudo é construído graficamente, sendo que certos elementos, como o tigre Richard Parker, são extremamente realistas mas outros (peixes por exemplo) têm um certo aspecto exageradamente estilizado que faz com que acabem por dar um toque surrealista ao filme, fazendo-me mesmo arrepender de não ter optado pelo 3D, já que a forma como tudo é filmado me leva a pensar que a experiência em 3D deve realmente ser mais compensatória quando tentamos embrulhar-nos dentro daquele universo. Mas voltando a falar em Parker, o tigre foi muito bem criado a partir do desempenho de quatro tigres reais e alguns (muitos mesmo) efeitos de computador que dão a esta personagem um lado humano capaz de roubar o protagonismo em certas cenas à própria personagem central, Pi.

De forma geral “Life of Pi” acaba por ser uma das grandes surpresas. Tem grandes momentos cinematográficos que nos irão ficar na memória durante alguns tempos e quem gostar de felinos com certeza que tão cedo não se vai esquecer do adorável e temível Richard Parker. Ang Lee está claramente em boa forma, o mundo do cinema ganhou mais uma futura estrela em Suraj Sharma e se eu já estava ansioso pela estreia do filme “Oblivion”, o trabalho de fotografia de Claudio Miranda (“Zodiac”, “The Curious Case of Benjamin Button” e “Tron: Legacy”) faz-me certamente ficar ainda mais ansioso para poder ver esse filme no grande ecrã. Uma excelente forma para acabar o ano.

Realização: Ang Lee

Argumento: David Magee, Yann Martel

Elenco: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussain

EUA/2012 – Ação/Aventura

Sinopse: Filho do administrador do jardim zoológico de Pondicherry, na India, Pi Patel possui um conhecimento enciclopédico sobre animais e uma visão da vida muito peculiar. Quando Pi tem dezasseis anos, a família decide emigrar para a América do Norte num navio cargueiro juntamente com os habitantes do zoo. Porém, o navio afunda-se logo nos primeiros dias de viagem e Pi vê-se na imensidão do Pacifico a bordo de um salva-vidas acompanhado de uma hiena, um orangotango, uma zebra ferida e um tigre de Bengala. Em breve restarão apenas Pi e o tigre, e a única esperança de sobreviverem é descobrirem, de alguma forma, que ambos precisam um do outro…

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