“Um Peixe Fora de Água”: quem dera ser um tubarão-jaguar

No caos de “Um Peixe Fora de Água”, rimos da vida e de nós próprios enquanto remamos contra tubarões imaginários
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“Um Peixe Fora de Água” (2005), de Wes Anderson

A vida no mar tem regras próprias, dizem, mas para Steve Zissou, oceanógrafo autoproclamado, estrela decadente de documentários marinhos e herói de meia-idade com gorro vermelho, essas regras são mais sugestões do que imposições. Navega rodeado por tecnologia ultrapassada, tripulação excêntrica e um tubarão quase mítico, acreditando ainda poder deixar a sua marca no mundo, como um pai num feriado que insiste em consertar tudo em casa, mesmo sem saber muito bem como. Zissou é ao mesmo tempo paródia e homenagem ao pioneiro francês do mergulho, Jacques Cousteau, a quem o filme dedica um aceno carinhoso.

Bill Murray é Zissou, mas poderia ser qualquer homem que tentou ser maior do que a vida e descobriu que a vida tem o hábito de rir-se das nossas certezas. Murray tem aquele rosto que diz tudo sem precisar de palavras: ironia, sarcasmo, melancolia e ternura. Um rosto que envelheceu em público sem perder dignidade, mas que revela, entre uma piada e outra, uma vulnerabilidade rabugenta. É um rosto que Wes Anderson conhece bem, depois de o explorar em “Rushmore”, “Os Tenenbaums”, “Moonrise Kingdom” e outras produções do seu peculiar portfólio. Aqui, Murray é Zissou, e Zissou é como uma onda que chega devagar, inevitável, e que embala o riso e a dor ao mesmo tempo.

O Belafonte, navio de Zissou, quase se confunde com uma personagem. Antiquado, barulhento, cheio de cabines minúsculas, corredores inclinados e instrumentos que parecem saídos de um museu submarino dos anos 60, o navio tem um charme próprio, meio nostálgico, meio absurdo. A tripulação é uma família disfuncional: Willem Dafoe como Klaus, devotado mas ligeiramente ressentido; Anjelica Huston como Eleanor, esposa distante que parece comandar a embarcação mais do que Zissou; Owen Wilson como Ned, o fã adolescente e filho não confirmado, que navega entre a admiração e a necessidade desesperada de aprovação; e Seymour Cassel como Esteban, o cinegrafista veterano cuja morte nas mandíbulas do tubarão-jaguar dispara a trama e a urgência mascarada de Zissou. É quase como viver numa rua de vizinhos excêntricos, onde cada corredor guarda pequenas tragédias, ciúmes e manias.

A repórter grávida Jane Winslett-Richardson (Cate Blanchett) chega para cobrir a viagem. Tanto Ned quanto Zissou se sentem atraídos por Jane e forma-se um triângulo amoroso entre eles. Klaus fica ciumento da atenção que Zissou dedica a Ned. A dinâmica é como aquela festa em que todos olham para a mesma pessoa e surgem olhares de desejo, ciúmes e sorrisos constrangidos, um microcosmo da vida social, mas a bordo de um navio no meio do oceano.

Quando Zissou anuncia que vai caçar o tal tubarão-jaguar por vingança, a tripulação fica a olhar para ele como quem observa um colega jurar que vai atravessar a cidade a pé na hora de ponta ou reorganizar a cozinha inteira num minuto. Não é ciência que ele finge representar, nem heroísmo que tenta mostrar, nem sequer há lógica aparente que se atreva a ter. É apenas a obstinação de um homem que ainda quer sentir que conta para alguma coisa, que ainda acredita poder impor ordem ao caos, mesmo quando o caos é maior do que ele próprio. Todos nós temos os nossos tubarões escondidos: a reunião que parece não ter fim, o chefe que se complica por gosto, a pilha de roupa que nunca desaparece. E aí está Wes Anderson, a transformar toda esta cisma, este ego a ferver, numa comédia delicada e estranhamente humana, porque, no fundo, todos nós já tentámos remar contra correntes que pareciam inventadas só para nos testar.

A viagem transforma-se num desfile de estranhezas. Piratas filipinos instalados num hotel em ruínas, tiroteios coreografados que parecem brincadeira, e criaturas marinhas — o atum-azul-de-strass, o peixe-pônei-de-giz-de-cera, o mangusto-da-neve-selvagem, a água-viva-elétrica, os caranguejos-doce — que poderiam ter saído de um aquário imaginário. É absurdo, mas tem uma verdade própria. Anderson pede-nos apenas que nos apaixonemos pela sua honestidade, como quando uma criança explica uma ideia maluca com convicção absoluta.

O humor, como em grande parte da sua filmografia, nasce do inesperado, da incongruência, das pausas, do absurdo que se instala com naturalidade. Quando Zissou observa a morte de Esteban e tenta explicá-la à equipa, surge o diálogo simultaneamente hilariante e desconcertante:

Zissou – Esteban foi comido!
Tripulação – O quê? Comido?
Zissou – Não, mastigado.

Cada palavra revela choque, incredulidade e a incapacidade de descrever o impossível, como tentar convencer alguém de que o gato realmente abriu a porta sozinho ou que um cão, com o seu olhar terno, nos escuta como um terapeuta.

Nesse interregno de confusões e trapalhadas, numa troca íntima com Ned, Zissou responde afirmativamente à pergunta do filho, feita quando este tinha doze anos: “Alguma vez quiseste respirar debaixo de água?” “Sim, sempre.” A resposta parece banal, mas carrega um peso. Respirar debaixo de água é o desejo de escapar, de pertencer a outro mundo, de sobreviver num ambiente que não nos esmagaria com a banalidade quotidiana. É como imaginar que todas as filas, contas e tarefas desapareciam se tivéssemos o poder de um X-Men.

Para além da história de Zissou, visualmente o filme é meticuloso. Cada plano, cor e detalhe parece calculado por um relojoeiro obcecado. O vermelho do gorro de Zissou, escolhido por Milena Canonero, o verde do mar, o azul do céu e as cores saturadas do Belafonte, tão bem trabalhadas por Mark Friedberg, não são apenas decoração: informam sobre o estado emocional das personagens, sublinham a ironia e sugerem melancolia. Sob a batuta de Anderson constrói-se um mundo onde tudo parece encenado, como se cada detalhe contasse uma história paralela à principal.

Ah, e não podemos esquecer da banda sonora, que tem o estilo característico de outros filmes de Anderson. Mark Mothersbaugh, membro da banda Devo, foi o responsável pela composição, como já havia feito em várias outras obras do cineasta. O filme inclui ainda canções de rock das décadas de 1960 a 1980 e peças instrumentais de Sven Libaek, originalmente criadas para a série documental subaquática “Inner Space”.

Além disso, a banda sonora ganha vida com Seu Jorge, que interpreta canções de David Bowie em português ao violão. Jorge, que também dá corpo ao personagem Pelé dos Santos, apresenta algumas dessas versões ao vivo dentro do filme, adaptando as letras para refletir as suas próprias experiências durante as filmagens. A cena final, que celebra a beleza do tubarão, é acompanhada pela etérea “Starálfur”, do Sigur Rós.

Apesar da estética perfeita, o filme nunca se perde na superfície. A comédia surge do carácter das personagens, das suas limitações e obsessões. Rimos, mas também reflectimos sobre a solidão, o envelhecimento e a necessidade de ser amado. Zissou torna-se um espelho de todos nós, dos pequenos egos, das frustrações e das vitórias insignificantes que nos fazem continuar.

O tubarão-jaguar, embora central, é quase secundário. Não interessa como criatura, mas como catalisador do ego e da melancolia de Zissou. A caçada é vaidade, coragem mal calculada e desorganização afetiva, mas também reflexão sobre idade, fama e relevância pessoal. Anderson transforma a perseguição em comédia, comentário social e meditação sobre a vida.

No fim das contas, “Um Peixe Fora de Água” não nos oferece finais gloriosos nem heroísmos de cinema clássico. O que sobra é a insistência de continuar, a obstinação de ser visto e lembrado, e a leve comédia de simplesmente existir. É um filme que consegue ser ao mesmo tempo absurdo e humano, ridículo e comovente, um caos pensado ao pormenor, onde cada elemento se assemelha a uma criação de um arquiteto modernista.

Sei que, na altura do seu lançamento, o filme recebeu críticas mistas e registou um insucesso de bilheteira e de público — basta conferir os comentários no Cine Cartaz do Público. Hoje, conquistou um público de culto e é apreciado de forma muito mais positiva, tanto pela crítica quanto pelos fãs. Aproveito para convidá-lo a assistir à sessão no Batalha Centro de Cinema, no Porto, nesta quinta-feira (8), às 19h15. Os bilhetes já estão à venda.